Um peso na cabeça, uma dor ainda leve, mas incómoda, e secreções nasais. Os sintomas não são suficientes para que este vosso cronista possa ser oficialmente declarado, desde já, um humano com gripe de porco, mas, vejamos, nem assim o assunto chega a inquietar-me. Uma gripe é uma gripe é uma gripe e, se há verdade médica em que eu ponha alguma fé (e eu sou bastante desconfiado das verdades médicas), é precisamente aquela que garante haver cura para a gripe. Eu já sobrevivi a várias.
Outro tanto se pode afirmar da rara doença de que padece Margarida Menezes, uma rapariga nem sequer desagradável que apareceu nos últimos dias na pele de fundadora do Clube das Virgens, o qual, ao fim de um ano, continua a ter uma única associada, precisamente a Margarida Menezes, que há-de ser igualmente presidente da direcção, vogal, tesoureira e presidente da assembleia geral da bizarra agremiação. A virgindade, já se sabe, é hoje um estado de saúde perfeitamente tratável. Eu já curei algumas enfermas.
Pensando bem, o negócio das virgens só interessa como moeda de troca para o martírio praticado pelos terroristas islâmicos - e já em tempos alertei para a tremenda falácia que há nisto, pois setenta virgens gastam-se muito depressa quando se tem a eternidade toda pela frente – ou, vá lá, a moças pouco prendadas que vejam nesse recato uma forma de ascender à santidade e passar a desfrutar de um santuário com várias assoalhadas no interior de um país pouco recomendável.
Apesar das evidências da razão, Margarida Menezes persevera e recusa tratar-se. Ouvi-a dizer, por exemplo, que não tem pressa e que está à espera que apareça o homem certo. Benemérito como sou, compadeço-me e passo a partilhar com Margarida um segredo muito cá nosso. Miúda, escuta bem: podes procurar à vontade, mas desde já fica a saber que não é impressão tua – os homens são (mesmo) todos errados. Mas têm a cura.
Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Zen
Embora não seja um praticante regular, gramo à brava as ancestrais tradições orientais. O ioga, a meditação budista, a acupunctura, o sushi e o sashimi, o tai chi, o reiki, o aikido, as gueishas e o kendo inspiram serenidade e sabedoria e parecem contribuir para elevar o ser humano a um estágio superior de harmonia com o universo e os seus elementos, contaminando-nos de uma arte de viver milenar e incrivelmente saudável. Como tudo isto me fascina de um modo que não sei explicar bem, decidi dedicar-me totalmente a esta paixão e empenhar-me doravante na recuperação dos subtis segredos da arte perdida do origasmo.
Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Limpeza urbana
Detectei esta semana um novo louco no meu bairro, o qual, não por acaso, é uma louca, mas com um aspecto bastante mais benévolo do que o das outras loucas do meu bairro, e substancialmente mais útil e higiénica, uma vez que a dita louca é uma mulher velha e desgrenhada que tem uma bata de risquinhas vermelhas e brancas, bastante encardida, e uma vassoura em excelente estado de conservação. Ora a dita mulher vai caminhando devagarinho pelas ruas do bairro, em passos miúdos e nervosos, e varre o passeio por onde passa, meticulosamente e com excelente técnica, varrendo, varrendo e varrendo. Vi já por duas vezes esta mulher, só esta semana, labutando indiferente às ventanias e ao calor do meio-dia, e ocorreu-me que seria bastante prático se fosse possível treinar os outros loucos da cidade para imitarem esta mulher e depois soltá-los em vários bairros da cidade, dispostos a varrer continuamente o lixo e a poeira, os excrementos dos cães e os restos dos jornais gratuitos.
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