Foi um fim-de-semana perdido para as coisas do espírito, mas eis que uma nova semana arranca e estou finalmente na posse do número inaugural da Playboy portuguesa. A impressão da Sogapal, S.A. de Queluz de Baixo, é pobre e, a espaços, deveras ruim, mas a revista, exceptuando a triste capa, apresenta-se cheia de motivos de interesse (opinião eventualmente contaminada pelo facto de ter comprado, ao mesmo tempo, o Jornal de Letras que traz na capa a Maria Teresa Hora – vocês, calhordas, sabem muito bem do que estou a falar).
Por partes: ainda condoído pela longa explicação de Costinha (página 31) para o facto de estar fora das opções do treinador do Atalanta, e antecipando com indescritível prazer o momento em que Pacman, o rapper (página 78), confessa a sua paixão futebolística pelo Nuno Gomes e profere a ameaça solene de escrever “um romance que tem muito a ver com Cabo Verde” (onde foi que já vi isto?), a publicação alcança alguns momentos de protuberante exaltação estética. A foto a duas páginas no plano de abertura do artigo dedicado a Rute Penedo apresenta uma iluminação subtil e que evoca a herança dos grandes e imortais mestres flamengos (falo dos pintores, obviamente, e não do queijo), momento estético ao qual nem o restante ensaio nem o poster dão a devida sequência pictórica. E é pena.
Entremeada por um artigo sobre as Ilhas Virgens Britânicas (o quanto aprecio a subtil ironia!), uma dissertação sobre chocolates (na qual se fica a saber que as mulheres gostam deles espessos, pegajosos e ricos) e uma longa reportagem acerca do tráfico de droga na Guiné Bissau, a sublimação ética do número inaugural é alcançada não com a colecção de estampas evocativas dos “55 anos de ouro” da criação de Hugh Hefner, mas, isso sim, com o concretismo epistemológico subjacente nas páginas dedicadas a outras nacionais doçuras. A contemplação do originalíssimo portfólio dedicado às amazonas portuguesas (“Os cavalos a correr e as meninas a aprender...”) exige uma ruptura radical com a ética cartesiana, de modo a permitir ao olhar a correcta fruição de Inês Belo, 31 anos, engenheira civil, Maria Arriaga e Cunha, 21 anos, estudante de arquitectura paisagística, Mariana Lapão, 21 anos, futura veterinária, e Inês Santos, 20 anos, estudante de engenharia zootécnica. Gostei dos fardos de palha, das botas de montar e dos cavalos brancos – mas, dado como sou a certas subtilezas, e menos à iconografia animalista, demorei o olhar, confesso, pela fulguração a preto-e-branco de Maria Arriaga e Cunha (página 123), talvez porque, por deformação socio-política, a visão aristocrática de uma Arriaga nua permaneça um fetiche significativo no pobre imaginário, tolhido pela sordidez labrega, do pequeno burguês que, afinal, sou.
Por fim, claro, uma ou duas palavras para Mónica Sofia. Qualquer das fotos interiores é melhor do que a da capa e permitem a ascese semiótica inerente a uma mulher pulcra e madura, plena e crioula, bela e farta (entaramelei um pouco nesta parte e escasseiam-me tanto o oxigénio quanto os adjectivos), integralmente depilada e que combina harmoniosamente com qualquer enquadramento cénico, das varandas com pinheiros mansos ao alvo lençol, da azul piscina ao chuveiro frio. Há uma imagem, porém, que, se não me atraiçoar o alzheimer, guardarei para os meses vindouros: na página 96 Mónica subiu ao telhado qual gata quente capaz de derreter e zinco e, de joelhos flectidos, pernas entreabertas e olhos fechados, recebe a dádiva diária do sol na pele levemente arrepiada do peito. Ui!
Segunda-feira, 30 de Março de 2009
Domingo, 29 de Março de 2009
Ser filho, ser pai
Perdoem-me se agora aqui invoco matéria tão pouco varonil, mas um sujeito tem inevitavelmente as suas fraquezas e a mim sucede-me esta fatalidade de gostar de literatura. O caso é que acabo de cair de amores por um romance e, se aqui agora estou escrevendo, é apenas por ter necessitado de fazer uma pausa para me recompor das emoções todas que estive vivendo apenas por ter lido o que li, ao ponto de me terem confluído as lágrimas aos olhos e ter sentido que uma peça qualquer da minha anatomia, localizada à altura do peito, se tornava muitíssimo pequena. Que belíssimo livro é Somos O Esquecimento Que Seremos, do colombiano Héctor Abad Faciolince! Que tremendo amor une aquele pai e aquele filho e que bela lição de vida é a máxima pela qual o pai do pequeno Héctor rege a educação dos seus filhos: "Se quiseres que o teu filho seja bom, fá-lo feliz; se quiseres que seja melhor, fá-lo ainda mais feliz". Se quiser ser absolutamente honesto comigo mesmo, não tenho grandes queixas sobre a vida que me calhou viver. Mas agora lamento um pouco não ter ter tido um pai como aquele e não ter conseguido sê-lo para os meus filhos.
Um conselho: é provável que as livrarias tenham já recambiado um livro que tem menos de três meses mas que não foi escrito por uma estrela televisiva (e por isso não vendeu horrores), ou que não tenham pedido a substituição dos exemplares vendidos, conforme lhes competiria se vender livros não te tivesse transformado numa actividade tão banal como o comércio de carnes verdes ou de secos e molhados, mas façam como eu fiz. Insistam, procurem o livro e não desistam de encontrá-lo. Vale absolutamente a pena.
Um conselho: é provável que as livrarias tenham já recambiado um livro que tem menos de três meses mas que não foi escrito por uma estrela televisiva (e por isso não vendeu horrores), ou que não tenham pedido a substituição dos exemplares vendidos, conforme lhes competiria se vender livros não te tivesse transformado numa actividade tão banal como o comércio de carnes verdes ou de secos e molhados, mas façam como eu fiz. Insistam, procurem o livro e não desistam de encontrá-lo. Vale absolutamente a pena.
Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Repovoadores
O Diário de Notícias concede hoje honras de primeira página a um grupo de três pessoas que pretendem repovoar o interior isolado, recrutando famílias interessadas em mudarem de vida e irem viver para um dos 277 municípios carecidos de mão-de-obra especializada. Há, pelos vistos, 25 famílias interessadas, o que é francamente pouco. Tendo em conta o ponto a que o interior português chegou, já não lhe será suficiente um só padre Costa, o célebre pároco fornicador de Trancoso que terá tido 299 filhos de 53 mulheres diferentes. Poder-se-ia aplacar a desertificação espalhando uma dúzia de padres Costa pela parte estiolada do mapa, mas a verdade (e isto sim é um drama) é que já não se fazem portugueses daquele gabarito.
Quarta-feira, 25 de Março de 2009
Videoarte
À libido do macho comum em estágio primaveril, nada presta mais eficiente serviço do que um videoclip de Beyonce Knowles, um qualquer – desde que, evidentemente, o objectivo do varão em causa consista em manter os instintos alerta, frementes, como há-de suceder ao lobo diante do banquete grátis do rebanho sem guarda; caso contrário, o visionamento pode, é certo, tornar-se particularmente doloroso, por excessivamente sugestivo, não sendo raros os casos em que ao espectador desarmado ocorre o impulso de cair ao chão de joelhos e chorar convulsivamente, como terá ocorrido àqueles que se acharam diante do Santo Graal.
Peças sublimes de videoarte como Irreplaceable, Naughty Girl, Beatiful Liar (genial na duplicação algo alucinogénia do luminoso objecto do desejo, ao fazer Beyonce contracenar, em ondulantes movimentos corporais, com a colombiana Shakira) e Crazy in love constituem já um corpo conceptual de inatacável interesse estético, dialogando com igual eficiência com as hormonas ferventes do adolescente com borbulhas e com a sexualidade pachorrenta do obeso chefe de família em digressão pós-prandial pelos canais da TV Cabo. Quando, em Crazy in love, Beyonce avança por uma espécie de passarela em passos firmes e resolutos, em trajes diminutos, esvoaçantes e garridos, não seria excessivo, em meu entender, render uma sentida homenagem à sensualidade selvagem da diva, seja rebentando num entusiástico aplauso em pé, seja guardando um respeitoso minuto de silêncio, conforme a cada um parecer melhor demonstrar devoção.
Numa significativa evolução recente, entenderam os estrategas da videografia de Beyonce Knowles introduzir o preto-e-branco como linguagem estética predominante. O subterfúgio, exercitado em peças como Flaws and all e If I were a boy, operou uma verdadeira revolução discursiva. Se, porém, o objectivo passasse por amenizar a feroz sensualidade da cantora, só muito escassamente tal desiderato poderia considerar-se alcançado, pois mesmo fardada de polícia e transpirando no vestiário da 13º esquadra (If I were a boy) Beyonce inspira os mais destemperados arrebatamentos. Para dizê-lo cruamente: dá vontade de, vá lá, fazer a corte à bófia (o que, juro sobre a cabeça do Santo Inácio, padroeiro dos onanistas, nunca antes me tinha ocorrido).
Se o preto-e-branco não subtraiu um grama que fosse à explosiva deriva sensível de Beyonce enquanto imprescindível objecto de adoração e devaneio, teve, ao menos, o condão de lhe conferir uma dimensão icónica – o preto-e-branco apela inevitavelmente à contemplação intelectual e confere status artístico até a um bife bem passado. Na verdade, porém, a saudável e sugestiva contenção imposta por aqueles dois exemplos ruiu fragorosamente assim que ficou pronto o vídeo promocional de Single Ladies, a preto-e-branco, sim, mas no qual Beyonce, acompanhada por duas moças harmoniosamente fornidas, extravasa a dimensão comum da exaltação estética. Servido por um par de coxas para o qual talvez não haja adjectivo capaz de fazer justiça, a cantora rebola e agita, sacode e encanta, surge-nos em casa como uma aparição de eros e afrodite, epifania acabada da desbragada arte de praticar o coito em toda a sela. Absolutamente aconselhável, é verdade, a menos que o leitor amigo padeça de insónias ou de qualquer outra maleita do foro nervoso.
Cinco estrelas.
Peças sublimes de videoarte como Irreplaceable, Naughty Girl, Beatiful Liar (genial na duplicação algo alucinogénia do luminoso objecto do desejo, ao fazer Beyonce contracenar, em ondulantes movimentos corporais, com a colombiana Shakira) e Crazy in love constituem já um corpo conceptual de inatacável interesse estético, dialogando com igual eficiência com as hormonas ferventes do adolescente com borbulhas e com a sexualidade pachorrenta do obeso chefe de família em digressão pós-prandial pelos canais da TV Cabo. Quando, em Crazy in love, Beyonce avança por uma espécie de passarela em passos firmes e resolutos, em trajes diminutos, esvoaçantes e garridos, não seria excessivo, em meu entender, render uma sentida homenagem à sensualidade selvagem da diva, seja rebentando num entusiástico aplauso em pé, seja guardando um respeitoso minuto de silêncio, conforme a cada um parecer melhor demonstrar devoção.
Numa significativa evolução recente, entenderam os estrategas da videografia de Beyonce Knowles introduzir o preto-e-branco como linguagem estética predominante. O subterfúgio, exercitado em peças como Flaws and all e If I were a boy, operou uma verdadeira revolução discursiva. Se, porém, o objectivo passasse por amenizar a feroz sensualidade da cantora, só muito escassamente tal desiderato poderia considerar-se alcançado, pois mesmo fardada de polícia e transpirando no vestiário da 13º esquadra (If I were a boy) Beyonce inspira os mais destemperados arrebatamentos. Para dizê-lo cruamente: dá vontade de, vá lá, fazer a corte à bófia (o que, juro sobre a cabeça do Santo Inácio, padroeiro dos onanistas, nunca antes me tinha ocorrido).
Se o preto-e-branco não subtraiu um grama que fosse à explosiva deriva sensível de Beyonce enquanto imprescindível objecto de adoração e devaneio, teve, ao menos, o condão de lhe conferir uma dimensão icónica – o preto-e-branco apela inevitavelmente à contemplação intelectual e confere status artístico até a um bife bem passado. Na verdade, porém, a saudável e sugestiva contenção imposta por aqueles dois exemplos ruiu fragorosamente assim que ficou pronto o vídeo promocional de Single Ladies, a preto-e-branco, sim, mas no qual Beyonce, acompanhada por duas moças harmoniosamente fornidas, extravasa a dimensão comum da exaltação estética. Servido por um par de coxas para o qual talvez não haja adjectivo capaz de fazer justiça, a cantora rebola e agita, sacode e encanta, surge-nos em casa como uma aparição de eros e afrodite, epifania acabada da desbragada arte de praticar o coito em toda a sela. Absolutamente aconselhável, é verdade, a menos que o leitor amigo padeça de insónias ou de qualquer outra maleita do foro nervoso.
Cinco estrelas.
Sexta-feira, 20 de Março de 2009
Apenas um pouco tarde
Encontrei há dias o Manuel António Pina na contramão das escadas rolantes: eu subia para ir ao cinema, ele descia para ir a uma festa de aniversário para a qual já estava atrasado. Trocámos apenas uma ou duas frases e ele teve tempo, ainda assim, para me dizer que passa quase todos os dias pelo Teatro Anatómico. Senti orgulho e pânico. O Manuel António Pina é só o mais fabuloso cronista português em actividade e um enorme escritor, pelo que a sua visita a este estaminé me envaidece. Mas eu sou só um sujeito que se vê obrigado a escrever num blogue porque não tem outro sítio onde possa deixar expostos os frutos da sua anormalidade e custa-me saber que o Manuel António Pina aqui vem perder tempo a ler coisinhas tão sem eira nem beira que nem de borla as querem noutros sítios. Sinto-me culpado e nem sei bem de quê – ser involuntariamente responsável pelo tempo que o Manuel António Pina aqui perde já não é pouco. Agora que sei disto, talvez possa corrigir alguma coisa, abstendo-me, desde logo, de escrever coisas em que o Manuel António Pina perca tempo, mas, não menos importante, poupando o meu próprio tempo. Um dia ainda hei-de ser capaz de dedicar-me apenas a coisas práticas e rentáveis e, quando e se isso acontecer, creio que vou poder encarar de frente o Manuel António Pina, olhando-o apenas com admiração e sem a culpa e o remorso que agora sinto por não ter conseguido aprender coisa nenhuma com aquilo que ele escreve.
Quinta-feira, 19 de Março de 2009
O desperdício de talentos nacionais
Paulo Portas, o intrépido líder do CDS (ou PP, é conforme), aproveitou uma recente entrevista televisiva para denunciar que 40 por cento dos crimes violentos no ano passado foram cometidos por estrangeiros, criticando, por isso, o facto de Portugal estar a “importar criminalidade”. Mário Machado, o líder nacionalista que também não simpatiza com os estrangeiros e que ontem voltou a ser preso, com mais seis comparsas portugueses, por suspeita de extorsão e tentativa de homicídio, deve concordar com Portas (“les beaux esprits..."). Por um lado, parece evidente que os criminosos estrangeiros vêm para Portugal com o claro intuito de prejudicar o negócio de Machado e dos seus associados. Por outro lado, o grupo nacionalista a que Mário Machado pertence parece ser perfeitamente capaz de preencher sozinho a cota que crime que actualmente cabe aos imigrantes - é só uma questão de a polícia os deixar em paz.
Domingo, 15 de Março de 2009
Sempere
Um dos jogadores da selecção espanhola de râguebi, que neste momento defronta a selecção portuguesa no Estádio Universitário de Lisboa, chama-se Sempere – como a personagem barcelonesa dos dois best-sellers de Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo. Ocorre-me uma ideia esdrúxula, mas algo poética: torturados pela trágica herança literária dos seus antepassados, os actuais Sempere comporiam agora uma trupe totalmente dedicada a vilipendiar o corpo em partidas de râguebi sem lei, de modo a que não lhes ocorra sequer a possibilidade de cuidar de matérias intelectuais ou de algo que remotamente se aparente com a literatura. A ser este o caso, Vasco Uva estará apenas a cumprir um desígnio superior à sua vontade, placando Sempere como se não houvesse amanhã, de modo a mantê-lo afastado do cemitério dos livros esquecidos ou de qualquer outra tentação literária. Pelo que tenho visto, duvido que, no final do jogo, o espanhol tenha a mais pequena vontade de se aproximar de algum objecto que não seja um saco de gelo.
Quarta-feira, 11 de Março de 2009
Tarde
Há agora, ao final da tarde, uma luz muito bonita que antecipa a Primavera: intromete-se entre as fitas metálicas dos estores e desenha traços oblíquos nas colunas de suporte do edifício. Ainda não vi, mas suponho que a lua cheia já se esteja erguendo acima do tumulto dos prédios da cidade e imagino também que a temperatura exterior esteja bastante aprazível. Vou sair, comprar uma caixa de cigarrilhas e, se a melancolia durar o suficiente, talvez me sente um pouco na esplanada da Praia dos Ingleses, bebericando um gin tonic como se já fosse Verão outra vez, vendo o sol declinar e ouvindo as ondas que vêm morrer aos rochedos.
Domingo, 8 de Março de 2009
Vida com açúcar
A dada altura da sua estada em S. Vicente, Chiquinho, o personagem de Baltasar Lopes, explica que os de Santo Antão se referem à hora do crepúsculo chamando-lhe "desamparinho".
Bem sei que alguns portugueses não vêem qualquer utilidade em conhecer o português que se fala em outras partes, que o consideram adulterado e abastardado (provavelmente basta-lhes o vocabulário estrambólico e básico do Magalhães), mas eu não resisto à pequena poesia de palavras como "desamparinho". Leio-as e creio que fico a saboreá-las com um sorriso tonto, desejando, no fundo, que houvesse um sítio onde fosse possível morar e, aí, ficar a olhar para o mundo com palavras doces assim.
Bem sei que alguns portugueses não vêem qualquer utilidade em conhecer o português que se fala em outras partes, que o consideram adulterado e abastardado (provavelmente basta-lhes o vocabulário estrambólico e básico do Magalhães), mas eu não resisto à pequena poesia de palavras como "desamparinho". Leio-as e creio que fico a saboreá-las com um sorriso tonto, desejando, no fundo, que houvesse um sítio onde fosse possível morar e, aí, ficar a olhar para o mundo com palavras doces assim.
Subscrever:
Mensagens (Atom)