quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Enquanto o resto da humanidade dorme

 Em Territórios de Fronteira, Gerald Murnane parece rondar, em certos momentos, a Filosofia da Linguagem, embora use com parcimónia os verbos conotar e denotar, muito comuns nessa disciplina. O narrador define-se apenas, aliás, como um «estudioso de imagens mentais», as quais procura expressar de forma meticulosa. 

Murnane constata, a dado passo, que as imagens produzidas pela imaginação se lhe apresentam tão nitidamente como quaisquer outras, desde logo aquelas que resultam da observação directa, da memória ou da associação de ideias. É, deste modo, capaz de expressar umas e outras com igual correção, sem nenhuma distinção entre o lógico e o psicológico. Parece, pois, mais próximo de Wittgenstein do que de Frege ou de Russell, na medida em que a sua deambulação literária se alheia da verdade lógica das denotações, buscando, antes, circundar o inefável e acercar-se dos indizíveis enigmas da vida (a passagem da luz pelos vitrais, a sua reflexão no corpo dos berlindes, as vidas que poderíamos ter tido se...).

Talvez sob a influência de Murnane, acordei esta madrugada a meio de um sonho estranho, convencido (mas sem que isto parecesse ter qualquer relação directa com o que estivera a sonhar) de que talvez estivesse próximo de compreender o estado das coisas do mundo. Para que a minha tese sobre o que nos está a acontecer fizesse sentido, necessitava, porém, de ser capaz de a expressar num texto escrito, o qual passei o resto da noite a tentar redigir mentalmente. Não voltei, por isso, a adormecer até ao romper do dia. Mas também não escreverei texto algum sobre o assunto, desde logo porque, à clara luz da manhã, me pareceu já bastante fútil e  inútil perder tempo a produzir um escrito que ninguém lerá, em torno de assuntos que parecem mobilizar apenas a atenção dos poucos loucos que permanecem acordados enquanto o resto da humanidade dorme.

Entre a necessidade urgente de escrever o texto que revelasse a estrutura da aparente conspiração que se me vai tornando clara - uma espécie de experiência social de entorpecimento à escala global, a qual há-de permitir a instauração de uma ordem não democrática, ultramilitarizada e dominada pelos nazis da IA, das redes sociais, dos algoritmos de controlo, da vigilância e da falsificação da realidade em massa, e dos novos escravos que o mundo abundantemente produz - e a decisão de o não redigir, ocorreu-me, entretanto, que a ficção talvez seja, como alguns defendem, a melhor forma de expressar a verdade.

Escreve Murnane que um escritor de ficção «narra factos que considera imaginários» e que o leitor de ficção «considera, ou finge considerar», reais. Significa isto, creio, que uma peça ficcional escrita para fazer luz sobre a experiência social em curso e os seus obscuros propósitos não necessitará de se ater aos factos, de os descrever e enumerar, e de mostrar as relações que entre eles existem (durante a minha insónia ocorrera-me que o ataque informático aos frigoríficos de centenas de supermercados em França coincidiu com a publicação de declarações segundo as quais a IA é menos regulamentada do que uma máquina de lavar - ou um frigorífico). Pode, tal texto, ser totalmente alegórico ou metafórico, e até avesso aos factos, conforme há dias escreveu o Enrique Vila-Matas, portanto «alheio ao carnaval dos livros ocos» que enchem as livrarias que restam. 

Sosseguei um pouco, apesar de tudo, quando a alba estava para romper e me lembrei de que já havia escrito Macaco Infinito, romance que também pode, à sua maneira, ser lido como uma parábola do tempo que vivemos e da experiência social em curso. Acresce que quase ninguém leu o livro, tendo os exemplares restantes sido destruídos numa guilhotina industrial (ou algo que o valha). 

Pela manhã, durante as abluções, continuei, já mais tranquilo, a ler Murnane - o Murnane publicado pela mesma editora que produziu e destruiu centenas de exemplares de alguns dos livros que escrevi; o Murnane que, se não ganhar entretanto o Nobel da Literatura, há-de, como eu, acabar no inglório crematório dos livros que não (se) vendem.