Não sei há quantos anos imaginei que poderia escrever um diário (ficcional e literário) em torno de um indivíduo que narra as dificuldades e as agrestes batalhas que enfrenta enquanto se liberta do abjecto vício do tabaco - se calhar martirizando-se com jornadas de jejum intermitente, se calhar fazendo os 21 dias de oração do arcanjo Miguel, mas resistindo à tentação e penetrando numa dimensão quase mística, de iluminação pessoal e purificação. Deixei entretanto de fumar (foi facílimo, conforme garantia Mark Twain). Mas passaram dois meses e não escrevi uma linha. Não fui a uma só consulta de cessação tabágica, não usei pensos de nicotina, não masquei uma chiclete, não bati nos gaiatos e não pontapeei nenhum animal indefeso. As estrelas também não se tornaram mais brilhantes, nem os odores do mundo passaram a ser maravilhosos. Até o vinho do costume continua a ser apenas o vinho do costume, e a mesmice trágica da realidade é a de sempre, embora com muito menos graça, porque já não a observo filtrada pela voluta azul, apaziguadora, que se ergue da brasa da cigarrilha.