sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Exmo. sr. Fulano de Tal,

 Prezado e egrégio editor:

Surpreendê-lo-á, decerto, que lhe escreva tanto tempo depois da nossa última e definitiva conversa. Talvez mesmo o amofine receber notícias de quem tanto prejuízo e aborrecimento lhe causou. Mas creia que o faço movido pelas melhores intenções e por ter podido refletir fria e imparcialmente na estupidez dos meus atos e na natureza infantil dos meus crimes, para os quais me lançaram os mais baixos instintos — irremissíveis seja como for. Não há desculpa ou justificação para o que fiz, pelo que sequer perderei tempo escusando-me ou solicitando a sua compreensão. Sou torpe, relapso e sujo. Para além disso, conheço muitíssimo bem a minha natureza, o suficiente para me não atrever a esperar qualquer condescendência por parte daqueles a quem cabe (e caberá) avaliar a gravidade e o alcance das minhas ações passadas, presentes e futuras. Procurarei, em todo o caso, ser breve e conciso, tanto quanto o permitam as excepcionais circunstâncias em que me encontro, considerando, desde logo, as severas e complexas implicações deste terrível enredo. O mal, como bem saberá, está feito e não tem já remédio. Resta-me confessá-lo e esperar que o castigo me sirva ainda de emenda e de refrigério. Mais vale tarde do que nunca.

Conforme tem sido sobejamente demonstrado ao longos dos século, os homens e as mulheres adaptam-se e sujeitam-se a quase tudo, a serem escravos e a serem príncipes, e tanto são capazes de comer até quase rebentarem como de se alimentarem com frugalidade. Do mesmo modo, ou assim espero, tanto podem aspirar às maiores glórias da guerra, do desporto ou das artes, como comprazerem-se na inatividade e na procrastinação, cruzando obstinadamente os braços de cada vez que lhes ocorra a vontade de desempenhar qualquer tarefa inútil. É, pois, possível escrever e também evitar fazê-lo, ou ter sido ignóbil e deixar de o ser. É isto, aliás, o que pretendo demonstrar de forma cabal assim que dê por concluída esta exposição, abstendo-me para todo o sempre de continuar a repetir a insensatez que aqui me trouxe. Tem, a este respeito, a minha palavra de honra: não escreverei, após estas linhas, mais uma frase, mais um verso que seja, nem sequer procurarei publicar o que redija pelo meu punho ou aquilo que tenha subtraído à criatividade alheia. Renuncio à literatura de uma vez por todas e faço-o com a ponderação e a gravidade que se impõem à minha circunstância, depois de adquirir a clara consciência de que devo à minha fraqueza, a este vício, todos os desvios de caráter que me forçaram a agir com perfídia nas situações que hão de ter já chegado ao seu conhecimento.

A nossa cidade não é grande, muito pelo contrário, e as pessoas, conforme sabe, mexericam aqui sem moderação alguma, mesmo quando pretendem aparentar bonomia e civilidade, as quais, convenhamos, não são características que nos favoreçam particularmente. Neste caso, porém, creio que lhes sobejam razões para a maledicência. Sou o primeiro a reconhecer que, no lugar destes intriguistas, seria mais cruel e viperino do que qualquer um. Teria feito publicar insultos nos jornais e posto a correr rumores tão sórdidos que nem um banho de água benta teria podido reabilitar a reputação da minha vítima.

Este será, pois, o último dos meus escritos, ao qual me rebaixo com a única intenção de lhe agradecer, estimado editor, o entusiasmo que outrora dedicou às minhas prosas, na expectativa de que não seja ainda demasiado tarde para lhe fazer justiça e para me arrepender da ingratidão em que, então, incorri. Tudo o resto é inútil entre cidadãos que sobejamente se conhecem e há tanto tempo se relacionam social e comercialmente. Já existem no mundo, de resto, demasiados livros de António Vicente Gordo. Tomara eu não ter escrito nenhum – nenhum romance, nenhum conto, nenhum verso; este miserável texto sequer.