Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Onde foi que já vimos isto?

"Ao impor cortes na segurança social dos pobres, por exemplo, os legisladores, tanto no Reino Unido como nos EUA, sentiram um orgulho singular pelas 'escolhas difíceis' que haviam tido que fazer.
Os pobres votam em número muito menor do que todos os outros. Não há por isso grande risco político em penalizá-los: qual é a 'dificuldade' dessas escolhas? Hoje em dia ficamos orgulhosos ao ser suficientemente duros para infligir dor nos outros. Se ainda vigorasse um costume mais antigo, pelo qual ser duro consistia em suportar a dor, e não em impô-la, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de preferir com tanta ansiedade a eficiência à compaixão".


Em "Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos", de Tony Judt (2010)

Como um fio de água jorrando de uma fonte



Os Malaquias, de Andrea del Fuego, romance vencedor da mais recente edição do Prémio José Saramago, surpreende pelo recurso a uma linguagem despojada e muito simples, quase infantil, iluminada por delicadas subtilezas. Mais do que de artifícios literários ou de descrições, a narrativa vive da capacidade para gerar imagens, belas imagens, a partir de fracções narrativas mínimas, invocando como que um contínuo sussurro, ou um fio de água jorrando de uma fonte. Lê-se como se as andanças dos três irmãos, as perdas e desencontros, nos estivessem a ser contados ao ouvido, tendo-me agradado menos, porém, o recurso à erupção de episódios aparentados com um certo realismo mágico, paranormal e pretensamente onírico. Para já apenas disponível para os sócios do Círculo de Leitores, o romance vai ser lançado brevemente pela Porto Editora, confirmando a tendência deste prémio para (também) revelar entre nós alguns interessantes autores do Brasil, depois de já anteriormente ter ajudado a lançar Adriana Lisboa em Portugal.

Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Democratas e baleias*



Numa espécie de suicídio colectivo, 99 baleias saíram anteontem da sua zona de conforto, como agora se diz. Rumaram a uma praia da Nova Zelândia e ali ficaram a morrer aos poucos. Faziam lembrar a democracia portuguesa.

De acordo com um estudo que o PÚBLICO divulgou na semana passada, só 56% dos portugueses consideram que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. A outra (quase) metade prefere já duvidar da célebre frase de Winston Churchill (que Sérgio Godinho transformou em refrão de uma cantiga), segundo a qual “a democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”. Trata-se, suponho, de gente para quem a justiça, a igualdade de direitos, deveres e oportunidades, bem como a faculdade de escolher aqueles que governam os recursos do país em nome do bem comum, passaram a ser conquistas negligenciáveis, ainda que, pelos vistos, aprecie o direito de expressar livremente a opinião que tem. O paradoxo é perfeitamente compreensível e, de certo modo, já estava explicado na canção de Sérgio Godinho, naquela parte em que diz que “Há muitos países que julgam/Que têm democracia, inclusive,/às vezes, o nosso”.

Não pretendendo sugerir que aqueles 44% de portugueses deviam ser obrigados a sair da zona de conforto que a democracia lhes proporciona, calando-se como no tempo da outra senhora, sou até capaz de reconhecer que os resultados do estudo devem andar próximos da realidade. Bastava ter reparado nas percentagens de abstenção registadas nas últimas eleições, ou ouvir duas pessoas a conversar na rua, para obter um retrato muito semelhante: os cidadãos acham que os políticos se preocupam sobretudo com os seus próprios interesses e com os interesses dos grandes grupos económicos (que os contratam antes e depois do exercício de funções públicas), que são corruptos, que não representam adequadamente o povo que os elege, que desbaratam os impostos, que mentem para ganhar eleições e que são insensíveis às dificuldades das pessoas comuns. E depois, outro paradoxo, os portugueses elegem-nos outra vez.
Os políticos também não se incomodam muito com a fraca opinião que os portugueses têm deles. Desde que possam manter-se no poder, festejam efusivamente os triunfos eleitorais, mesmo se, contabilizada a abstenção, se torna evidente que são eleitos por grupos minoritários de cidadãos.

Segundo o estudo, 31% dos entrevistados já não conseguem identificar uma instituição ou agente de representação política que dê voz às suas preocupações. A segunda maior fatia, 22%, apontava para o presidente da república. Mas isto foi em Julho, antes de Cavaco, o “provedor do povo”, ter dito o que disse sobre os rendimentos de que aufere: que duas reformas chorudas não chegam para as despesas que tem. Talvez agora, como baleias confusas, mais alguns democratas sem cheta se suicidassem metaforicamente, afirmando preferir qualquer outro sistema àquele que permite eleger um presidente assim. Há-de, pois, ser já perigoso referendá-lo.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 24 de Janeiro de 2012

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Sobrevivendo aos pelotões de execução das políticas ortográficas



Uma obra de Joana Rêgo a partir de uma sugestão minha. Da exposição Biblioteca, patente na Biblioteca Municipal da Feira (carregar na imagem para ampliar).

A capitulação das colónias perdulárias

Concedo-me, em alguns domingos, a vaidade e o prazer de comprar o El País e de ficar um bom bocado a usufruir do prazer de ler um jornal a sério. Não é um vício barato, mas o vinho tinto e as cigarrilhas tampouco o são. E, em todo o caso, trata-se de um luxo bastante educativo. A manchete de hoje, por exemplo, revela que o governo alemão pretende fazer depender um novo empréstimo à Grécia do envio de um funcionário de Bruxelas que vigiará as contas e zelará para que os impostos pagos pelos gregos sejam usados prioritariamente no pagamento da dívida do país (e não para prover as necessidades dos gregos). O El País chama-lhe um "comissário orçamental", ao qual caberia daria o golpe final ao que resta da soberania fiscal grega. Trata-se, pois, de uma espécie de novo governador das colónias.

Algumas páginas adiante, Carmen Reinhart, economista do Peterson Institute que participa no Fórum Económico Mundial, vaticina que a Grécia e talvez também Portugal suspenderão o pagamento da dívida, acrescentando, indiferente às garantias de Bean Gaspar, que a situação portuguesa "é cada vez mais preocupante para Espanha". Tão tardará muito, portanto, para que também a esta província sejam mandados, já não os troikianos emissários da finança internacional, mas um verdadeiro capataz que venha ensinar os bárbaros como devem administrar os seus botões.

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Crónicas do autocarro#108



Só há poucos dias reparei no homem que, pelos vistos, viaja sempre no banco mais próximo da porta, praticamente imóvel, com os grandes olhos emergindo das pálpebras carnudas e moles. É bastante calvo, tem um nariz curvo e leva sempre as mãos quentinhas, protegidas por luvas de lã castanha, muito surradas. Notei-o apenas quando, há dias, me sentei ao seu lado e percebi como mantinha o olhar oblíquo fixo num ponto imaginário e imóvel no exterior do autocarro, algures entre o vidro da janela e o chão, e como os olhos dele são enormes globos vítreos e quase sem vida – como, enfim, punha a ponta da língua de fora da boca, devagarinho.

Pareceu-me uma espécie de grande lagarto, mas tomei-o por um utente ocasional que provavelmente não voltaria a ver e que, portanto, esqueceria ainda antes de ter tempo para escrever o naco de prosa enxuto que vossas excelências estão a ter o prazer de acompanhar. Mas estava enganado. O homem, afinal, está todos os dias sentado no mesmo banco, encostado à janela, com os olhos parados e a língua movendo-se devagar entre os lábios. Tenho agora ainda mais certeza, por isso, de que se trata de um réptil, mais concretamente de um enorme camaleão careca que se empenha em passar despercebido e em tornar-se invisível para os outros utentes do transporte público.

Tinha, hoje de manhã, acabado de formular esta acutilante teoria quando, de súbito, notei que o rei camaleão movia a cabeça muito devagar e que o olhar dele se deslocava no espaço, manso ainda e como morto, mas fixando já alguma coisa no interior do autocarro. Uma mosca apetitosa? Algum mosquito? Talvez uma abelha abrigando-se ali dentro do frio da manhã? Segui o olhar do lagartão e percebi tudo. Quem lá vinha, aproximando-se da porta, era, enfim, a moça morena das grandes argolas prateadas, a dos glúteos generosos e firmes, rebolativa e fértil mesmo nestas rigorosas manhãs de Inverno. O rei camaleão moveu a língua, uma, outra e outra vez, mirando-a quase sem mover os olhos. Ela saiu na paragem seguinte. E ele voltou a fixar o ponto invisível onde os répteis contemplam coisas que nós não vemos nem pudemos imaginar.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

Mais uma vítima do incentivo à emigração

Diz que a lontra que hoje apareceu na Foz fugiu assim que percebeu que ainda não estava no Brasil, mas apenas na Avenida do Brasil. E ainda por cima aquilo era uma PizzaHut e nunca mais lhe traziam o gin tónico.

O mundo está cheio de tolos



In Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1 de Fevereiro de 1935

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Quero ser um Catroga*



Poesia pura. Numa só semana ficámos a saber que a imensa Via Láctea é branca “como as neves da Primavera acabadas de cair” (ou como o cabelo do economista Eduardo Catroga); e que alberga qualquer coisa como cem mil milhões de planetas - um número tão bestial que, para se ter uma ideia aproximada da sua dimensão, é preciso compará-lo com coisas realmente grandes, como o montante da dívida pública portuguesa ou a falta de tino de alguns políticos. Suponho, aliás, que ainda este mês escutaremos o ministro Miguel Relvas incentivar os nossos jovens, altamente qualificados, a universalizarem-se e emigrarem para este inexplorado filão de oportunidades, que ajudarão a civilizar para gáudio da pátria (ou isso ou a ASAE investigando a suspeitíssima Via Láctea, não vá a nívea galáxia ser constituída por leite em infracção às leis da concorrência).

Sendo uma fonte inesgotável de boas notícias, do infinito silêncio espectral também, às vezes, vêm aos trambolhões coisas menos agradáveis, como satélites desgovernados e assim. Era mais simpático se chovessem pastéis de nata, ou, vá lá, croissants de chocolate, mas, em todo o caso, continuo muito determinado a não permitir que o meu optimismo se inquine por dá cá aquela palha. Pretendo mesmo encher-me de soberba e acreditar na possibilidade de me transformar num Catroga da vida: em vez de empobrecer austeramente e de encolher de frio tiritando nas longas noites do “Inverno da nossa resignação”, como lhe chamou o espanhol Manuel Rodríguez Rivero, planeio trocar o meu salário por uma remuneração compatível com as reais necessidades do país. Creio, aliás, que uma boa parte da crise se resolverá muito simplesmente (com a compreensão de alguma entidade patronal): equipare-se o meu ordenado ao do presidente do conselho geral e de supervisão da EDP. Como 50% do que passarei a ganhar vai para impostos, a receita do Estado crescerá e isso terá um efeito redistributivo para as políticas sociais. Catroga dixit. E se o visionário aposentado o diz, eu baixo humildemente as orelhas. Afinal de contas, entre nós os dois é ele quem tem o mais espectacular currículo da Via Láctea e arredores.

Ao contrário do que sucede com os satélites e outros objectos sujeitos à gravidade, os ordenados simpáticos do meu país tendem a chover persistentemente em cima dos mesmos indivíduos, chamem-se eles Catroga, Vara, Cardona, Lopes, Pinto ou Mexia. Para os demais e comuns mortais, incapazes de fazerem mais do que trabalhar para ir vivendo, as respectivas remunerações estão transformadas numa espécie de “salário do medo”. Não vamos, como no romance de Georges Arnaud que Clouzot filmou, a conduzir um camião carregado de explosivos por uma estrada sul-americana. Às costas temos apenas o peso (cada vez mais) leve do nosso ordenado minguante e o enorme fardo que é o medo de o perder. Vamos aceitando, por isso, que no-lo roubem aos bocadinhos, em pequenas garfadas, até que já não nos sobre dignidade nenhuma e nos vendamos por três vinténs.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 17 de Janeiro de 2012

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Biblioteca básica Rubem Fonseca



Desde que li, já não sei onde, que o Rubem Fonseca vem à Póvoa de Varzim, estou tomado por uma enorme ansiedade. Olho muitas vezes para a estante, creio que à espera de que as lombadas me sussurrem uma chalaça, um dito espirituoso e/ou inteligente, uma frase, enfim, que pudesse ser o início de uma bela amizade. Não me ocorre nada. Creio que, como é costume, me limitarei a olhar para ele com uma fixação de psicopata (manso). Com algum atrevimento, poderei ser capaz de o abordar e de proferir uma boçalidade qualquer, como quando disse ao Luis Fernando Veríssimo alguma coisa sobre O Incidente em Antares, do Erico Veríssimo. Ele olhou para mim, condescendente, e comentou aquele "Do paizinho, né?", antes de mudar de assunto, perguntando-se em silêncio, que eu bem vi, "quem raio é este cromo?".

Crónicas do autocarro#107



Houve um tempo, jovem e inocente leitor, em que certos e determinados inteligentes nacionais frequentaram os jornais e as televisões anunciando o fim da luta de classes para gáudio das classes dirigentes, já afiambradas à possibilidade de começar a tratar da saúde aos direitos laborais conquistados pela dita luta. Os direitos foram-se, é verdade, mas os inteligentes estavam, afinal, naturalmente equivocados, o que vem a ser um aborrecimento habitual na vida das pessoas acometidas pela doçura do optimismo. A luta de classes não só não morreu como a vi esta manhã apanhando um autocarro na Rotunda da Boavista. Aconteceu a coisa do jeito que a seguir narrarei, procurando dar fé de tudo com a veracidade e o brio que sempre norteiam a actividade deste vosso criado.

Pois bem. O peculiar ancião que já foi deputado municipal - e comenta com igual vivacidade a actualidade política e os pormenores relacionados com as análises às fezes - entrou no autocarro já muito incomodado. Provavelmente beneficiando das delícias de uma reforma de que alguns de nós já não beneficiaremos, tinha, o velho, tomado conhecimento de que o plenário dos trabalhadores da STCP marcado para o início de Fevereiro foi, afinal, transformado numa greve de 24 horas. Coisa tremenda, pois não só o idoso é contra as greves como também precisa de ir não sei onde no dia em causa, pelo que a paralisação dos trabalhadores não deixará de acarretar perturbações e aborrecimentos à natural locomoção de um aposentado.

Indignado como estava, o velho entrou no autocarro e foi logo pedir explicações à motorista de óculos escuros, loura e com um penteado rebuscado, assim com uma revienga no cocuruto e tudo, dando, pois, fé da incompreensão dos utentes dos transportes públicos face a mais uma greve. Não consegui escutar a conversa toda, que foi relativamente demorada, mas ouvi perfeitamente quando a robusta capitã da nave louca que vai de Matosinhos ao Bolhão levantou a voz para declarar que, sim, ia fazer greve, e que, mais do que isso, acha que o país devia parar todo.

Está, pois, confirmado: quando os valores éticos do país cedem e entram em crise, vê-se de que massa são feitas as nossas fêmeas. Proponho que a grevista do 502 entre já para o panteão da memória pátria, à mão direita da Padeira de Aljubarrota. Temos gente para a bulha.

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Acordar, trabalhar, morrer

Passo todos os dias por uma parede na qual estão escritas aquelas três palavras
ACORDAR
TRABALHAR
MORRER
, três verbos que, de algum modo, pretendem sintetizar muito resumidamente a estupidez que é viver. Voltei a lê-las esta manhã, já acordado e a caminho do trabalho, instantes antes de me levantar para sair na paragem do costume. Lá estavam:
ACORDAR
TRABALHAR
MORRER
Depois cheguei ao trabalho e soube que um dos companheiros que me habituei a ter por presença certa e habitual, que nos tratava dos computadores e solucionava os faniquitos informáticos destas vistosas máquinas de trabalhar, já não viria hoje. Morreu ontem à noite, subitamente, enquanto jogava futebol. Tinha 43 anos, não fumava e parecia dispor de uma vida inteira para viver. Mas a vida é estúpida. Acordar, trabalhar, jogar futebol com os amigos e morrer.
Foda-se.

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Crónicas do autocarro#106



Pressinto que a resistência dos utentes do autocarro se desmorona, qual morro de formigas sob a bota dos negreiros novos. Uma destas tardes, indo em direcção às ruínas que se acotovelam na Baixa, fui de frente para uma mulher que, seguindo os sábios conselhos da governação, está já a ultimar os preparativos para zarpar daqui para fora. Para a Suíça. Cogitou emigrar para França, mas sucumbiu aos helvéticos encantos. "A Suíça dá mais pica", explicou pelo auricular do telemóvel. Lá, como aqui, vai fazer limpezas e tomar conta de velhas ranzinzas e desaparafusadas. As diferenças, porém, são substanciais. Entre os picos nevados e os carrancudos cidadãos não-alinhados, basta-lhe um trabalho para ganhar o que aqui consegue esgravatar ao fim de muitas horas de esfregão. "E aqui anda-se sempre a contar os tostões". A tarde estava a meio e o autocarro ia cheio - de homens e mulheres já demasiado velhos para partirem também. Um dia, talvez não muito distante, será aquilo o país: um magote de reformados muito idosos, circulando de autocarro a caminho de lugar nenhum. O Inverno atira-me caneladas e o país cospe-me na cara. Fico?

Dar à língua*



Havia ipês amarelos florindo nas ruas de São Paulo quando, em Novembro de 2004, lá estive por causa do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Numa dessas tardes, a Luana Piovani também desabrochou inesperadamente diante de mim, no corredor de um centro comercial, mas essa é uma outra história. Ou talvez não: lembrei-me de ambas as coisas enquanto lia a hilariante e fescenina entrevista do “senhor Pipi” no último Ípsilon, e porque a acção do livro que tenho andado a ler, Pornopopeia, decorre em São Paulo e inclui pelo menos uma referência ao shopping onde Luana andava, naquele dia, a arejar os seus naturais encantos. Tenho para mim, pois, que tanto o “senhor Pipi” como Zeca, o narrador do romance de Reinaldo Moraes, teriam gostado de a ver passar, sardenta e baixinha, a caminho de...

Onde é que eu ia? Já sei: Novembro de 2004, São Paulo, Prémio PT de Literatura. Num dos jantares oficiais, fiquei sentado ao pé de alguns colegas brasileiros e passámos uma parte da refeição discutindo as particularidades da Língua Portuguesa, agora supostamente unificada pelo chamado Acordo Ortográfico. Havia quem defendesse que o Português do Brasil é já um outro idioma e que devia ser tratado como tal. Um dos ilustres plumitivos, mais radical, queria também que o Italiano fosse reconhecido como língua oficial do país. Dotado da loquacidade proporcionada pelos bons vinhos, eu rebati os argumentos deles como pude: que devíamos defender a diversidade e a riqueza de um idioma que contém tantas variantes, que sou capaz de ler livros de escritores brasileiros e reconhecer neles, também, a minha língua, que... Em desespero de causa, perguntei-lhes se não tinham sido capazes de compreender o cristalino Português praticado no diário O Meu Pipi, que lá havia sido publicado pouco tempo antes, com assinalável êxito. Um dos mais radicais convivas arregalou os olhos e perguntou: “O Pipi é português”? É. E eles andavam a lambuzar-se naquela desbragada sacanagem, do mesmo modo que eu me tenho fartado de rir com a escatológica pouca-vergonha que enche as quase 600 páginas de Pornopopeia. Ou seja: não faz falta nenhuma que se normalize a língua.

Sabe-se, pelo menos desde um célebre poema nostálgico do brasileiro Gonçalves Dias, que as aves que cantam em Coimbra não gorjeiam como as do Maranhão. O Português levado para além-mar miscigenou-se e ganhou asas. Frutificou e perdeu as amarras, ao ponto de a nossa língua, a “última flor do Lácio” evocada num poema do também brasileiro Olavo Bilac, se ver transmutada em “flor do felácio” pelo narrador de Pornopopeia – o qual, apesar de todo o desbragamento (linguístico e não só), não abre mão da leitura do nosso Cesário Verde em bom Português antigo. Por muitas voltas que se dê ao idioma, um autocarro dos nossos há-de sempre ser um ónibus no Brasil. Uma orgia é uma suruba. E por aí adiante. O acordo não uniformiza coisa nenhuma. É tempo perdido e inútil, treta e papo-furado. Quando muito, transforma as galantes erecções do “senhor Pipi” nas simplificadas ereções do Zeca. Lindo serviço.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 10 de Janeiro de 2012

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Património cultural ameaçado

Indivíduo de fraca carne, sou facilmente atraído pela obscura cloaca do pecado e da tentação. Um restaurante que pretenda captar a minha atenção apenas necessita, por exemplo, de propagandear a existência em menu de acepipes como rojões, papas de sarrabulho, cabritinho assado, tripas e anexos (de preferência escritos com marcadores sobre toalhas de papel coladas na montra). Atraído, pois, pelo canto mavioso destas metafóricas sereias, entrei hoje num estabelecimento cujos encantos, afinal, residiam mais na componente sócio-antropológica do que na gastronomia propriamente dita. Tem uma televisão ao fundo da sala a dar as notícias, a cozinha visível e dois atendentes, o patrão e um empregado, os quais comunicam entre si e com a cozinha mediante berros e gritos, DOIS COZIDOS! TRÊS SOPAS! UMA PERNA DE PORCO! UM QUARTO DE VINHO!, independentemente da distância a que se encontrem uns dos outros. De vez em quando, e no mesmo tom de voz, o patrão destrata o empregado, rapaz de aspecto rústico, e indica as mesas aos clientes que vão entrando, como se sofrêssemos todos de algum tipo de incapacidade auditiva severa. A clientela não é menos peculiar, entre idosas que parecem acabadas de sair da automotora da Régua com um molhe de tronchudas debaixo do sovaco, mulheres de avental, imigrantes ucranianas, “jovens”, “sotôres”, a “senhora do pão de açúcar” e “o rei”, também designado, a dado passo, como “o rei de Portugal”. O dito monarca é, diga-se, o mais enigmático de todos: entrou de chapéu de feltro claro, óculos escuros, barba e cabelos longos e grisalhos, pouco lavados, e assim se manteve enquanto comia a SOPA! e o COZIDINHO! Lembrei-me do fado do embuçado, embora não estivesse ninguém a cantar o fado, e dos personagens dos filmes do João César Monteiro. Também não estava ninguém a filmar, o que é um pecado. Um dia destes o restaurante fecha e é mais um naco de património pátrio que se perde.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Crónicas do autocarro#105



Em incertas horas post-crepusculares, regressando a casa mais cansado e gasto do que é comum, reparo, às vezes, que o autocarro se enche de um determinado cheiro a frango de churrasco, o qual rescende e transita, muito suave, entre os corpos dos utentes. Todos sentimos o cheirinho bom do frango assado, o tostado da pele, os eflúvios da gordura que há-de ter rechinado sobre as brasas do carvão, eu sei lá, e fremem-nos as asas das bicancas, agua-se-nos a boca e arde-nos por dentro um foguinho bom. Lá no fundo, por trás da aparência anónima e automática que levamos posta, quais máscaras de gente normal, havemos todos de sorrir secretamente, serenados e pacificados pela presença do familiar, popular perfume.

É o raio de uma coisa heróica a persistência de uma civilização ainda assente no frango do churrasco - esse resquício colonial que, em algum momento que vagamente recordo, chegou a responder pela designação comercial de “frango à angolana”, vagamente evocativo de churrascadas entre embondeiros, bananeiras e árvores de fruta-pão –, apesar de todos os restaurantes chineses, dos McDonalds, das PizzaHut, das casas de sandes e da modernice insípida dos sushis e sashimis, que não cheiram nem fedem e, por isso, jamais serão capazes de despertar os escondidos e pacificados sorrisos dos utentes do autocarro.

Outros, eventualmente vivendo acima das respectivas possibilidades, ainda manterão o luxo (piquenóburguês) de gastar combustíveis na fila para o McDrive da Avenida da Boavista, de encomendarem uma telepizza ou de rumarem aos arredores para cearem alapados na praça de restauração do shopping mais frenético da área metropolitana. O povo do autocarro não. Come em casa refeições muito saturadas de gorduras várias e, por desfastio, compra um frango de churrasco, o qual, com um jeitinho, alimenta quatro marmanjos austeros. É, pois, assim que se enfrenta a crise.

Ninguém sabe o que vai ser o futuro, mas todos sabemos que ele virá (e não será boa coisa)

No diário que manteve durante longos anos, o escritor argentino Adolfo Bioy Casares conta que jantou com Jorge Luis Borges na noite de 31 de Dezembro de 1960. Depois de comerem, foram à varanda da casa de Bioy e Borges disse-lhe algo como isto: “Esperamos alguma coisa que não sabemos bem em que consiste. É estranho que, em tantos anos de vida, nunca tenha havido um momento em que tenha estado tão adiantado no futuro como estou agora”.

Parece um paradoxo, mas os tempos vão mais paradoxais do que nunca. No dia 31 de Dezembro de 2011, quando terminámos de jantar, qualquer um de nós poderia, ainda que por motivos bem menos filosóficos, ter afirmado também esperar do novo ano algo (mau) que ainda não sabemos bem o que vai ser, mesmo que, de algum modo, e a cada dia que passa, se vá tornando cada vez mais claro que estamos perto de adivinhar o futuro, prevendo-o de cada vez que damos voz ao nosso pessimismo mais selvagem. Não sabemos o que vai ser o futuro, mas somos perfeitamente capazes de o antecipar a cada nomeação do governo, a cada conta mal feita, a cada avental transferido para um alto posto do administração ou a cada anúncio de mais austeridade.

Acabo de ouvir mais um desses anúncios. “Mais medidas de austeridade”, avisam os noticiários. Tornou-se, isto, numa espécie de melopeia. De anúncio em anúncio até esse futuro que não se sabe muito bem o que virá a ser, mas onde já estamos, adiantando-nos àquilo que um dia será.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Vida inteligente*



A primeira coisa que ontem fiz foi dirigir-me a uma lavandaria para lá deixar o casaco, que tinha ficado pegajoso depois do banho de champanhe que apanhei nos primeiros segundos de 2012. Eu tinha ido cair, meio acidentalmente, na Avenida dos Aliados, e, já que ali estava, deixei-me ficar para ver que tal era o foguetório encomendado para o “rebilhão”. O espectáculo foi admirável: um quarto de hora de efeitos pirotécnicos de encher o olho, demonstrando que não há como a Câmara do Porto para organizar eventos vistosos e ocos. Poupadinha e austera em quase tudo, a autarquia torna-se perdulária e quase madeirense sempre que se trata de fazer corridas de avionetas e automóveis, bem como espectáculos com explosivos, incluindo demolições e foguetórios. Faz lembrar a célebre epígrafe de Maria Antonieta, mas de pernas para o ar: se o povo não tem pão, dê-se-lhes brioches (ou foguetes, tanto faz).

Quando a multidão começou a dispersar após o fogo-de-artifício, o chão da principal praça da cidade encheu-se de garrafas vazias e de milhares de cacos de vidro. Com o avançar da madrugada, o festivo apocalipse estendeu-se à chamada zona de animação nocturna, onde já é costume que as ruas fiquem atapetadas de copos, garrafas, lixo diverso e garatujas de urina, transformando o Porto, pelos vistos, num destino turístico de eleição. O negócio vai, aliás, de vento em popa, justificando, por isso, a espécie de selvajaria que ali vigora depois que o sol se põe – e que ilustra admiravelmente dois versos de um poema de Eugénio de Andrade: “Ninguém ignora que não é grande/nem inteligente, nem elegante o meu país”.

Embora goste de acreditar que, algures entre o espalhafato pirotécnico e a falta de maneiras, há-de ainda subsistir alguma coisa do carácter da minha cidade, temo frequentemente que estejam em vias de ser rasurados os últimos vestígios de vida inteligente que ainda aqui resistam. Basta ver, por exemplo, o modo como a pirotécnica autarquia tem gerido a questão relacionada com o legado do poeta Eugénio de Andrade, um dos maiores que o século XX português conheceu.

Em 1997, a câmara estabeleceu um protocolo em que concedeu ao escritor (e aos seus legatários) uma casa na Foz do Douro, adquirindo a cidade, em troca, direitos sobre o espólio literário e artístico de Eugénio. Seis anos após a morte do poeta, a autarquia tomou posse dos seus bens e, ao mesmo tempo, expediu uma carta intimando aqueles que cuidaram de Eugénio de Andrade a abandonarem o andar que habitam. Entende a câmara que a extinção da fundação que geria o espólio do poeta fez cessar o direito dos herdeiros à casa que a câmara lhes facultou. Levando esta interpretação do protocolo ao limite, poderia o próprio Eugénio de Andrade, se fosse vivo, ser objecto de uma acção de despejo e posto na rua com a roupa do corpo, deixando os seus bens à guarda do município, para eventual privatização futura.

O passado, escreveu Eugénio, “é inútil como um trapo”. Não espanta, pois, que numa cidade já (quase) sem vida inteligente, a memória e o respeito pelos mortos não pareçam merecer melhor sorte.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 3 de Janeiro de 2012

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Todos locos en México DF

Não creio que exista um único personagem são em Canções Mexicanas, de Gonçalo M. Tavares. Nem sequer um figurante. Estão todos loucos na Cidade do México, todos loucos no Zócalo. Até mesmo nos manicómios estão loucos e é por isso que gosto daquilo, da Cidade do México e dos seus loucos, quero dizer. O louco de quem eu gosto mais é o padre que vai com a navalha da barba e se suicida uma, duas, três — quatro vezes pelo menos; corta a garganta com a navalha da barba, no Zócalo, e diz que ama Jesus e os meninos que tem violado. No seu terceiro suicídio, o padre corta a garganta com a navalha e diz também Viva la Tienda de los Insurrectos, uma loja de ferragens. Tinha um anúncio ao peito, um anúncio com o nome e o endereço da loja, e depois a tienda foi um sucesso. Venderam-se muitas ferragens em México DF.

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Marcela e Elisa, um amor de contrabando*

Um século antes da legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, duas espanholas conseguiram enganar um padre e casaram-se pela Igreja. Descobertas, fugiram. Há 110 anos viviam no Porto e aqui tiveram uma filha. Por Jorge Marmelo


Fotografia do casamento

Se uma grande história de amor é aquela cujos ecos ultrapassam as contingências do seu tempo e se imortaliza, como sucedeu com a paixão de Pedro e Inês (ou de Romeu e Julieta), o romance de Marcela e Elisa é, sem dúvida, “uma das mais extraordinárias histórias de amor de todos os tempos”, conforme lhe chamou o escritor espanhol Manuel Rivas. Eram ambas mulheres e conseguiram o impensável: Elisa vestiu-se de homem, enganou um padre e, assim, casou com Marcela pela Igreja, na paróquia de S. Jorge, na Corunha, a 8 de Junho de 1901.

“Impressionou-me a inteligência das duas mulheres e a capacidade de traçarem um plano que lhes permitisse viver juntas o resto da vida, serem reconhecidas como marido e mulher e até chegarem a ter descendência”, diz Narciso de Gabriel, o professor universitário galego que dedicou quase quinze anos a investigar a incrível história de Marcela e Elisa.

Alén dos homes foi publicado em 2008 e acabou por ser traduzido para castelhano, sob o título Más allá de los hombres. Há também um filme em preparação, que deve ser realizado por Isabel Coixet, a autora de A Vida Secreta das Palavras.

Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres.

Em Dezembro de 1901, há exactos 110 anos, Elisa e Marcela estavam, porém, longe da cidade do Norte da Galiza que agora as recorda. Viviam na cidade do Porto, em relativo sossego depois da agitação que tinha provocado a chegada do insólito casal no Verão anterior. As notícias que O Commercio do Porto publicou durante o mês de Agosto de 1901 tinham sempre o mesmo título: As duas hespanholas: mulher-homem. Ainda não se usavam nos jornais palavras como homossexualidade ou lesbianismo, pelo que o caso foi contado com relativa discrição, entre notícias de agressões à pedrada e de homens mordidos por cães. O episódio, ainda assim, deu brado, conforme se percebe na edição do dia 30, que narra a libertação de Marcela e Elisa da Cadeia da Relação: havia “grande aglomeração de curiosos para ver as duas mulheres, sendo necessário os soldados da guarda dispersarem a multidão, que fez grande berreiro quando o carro seguiu o seu destino”.

Chegara ao fim, na véspera, o processo judicial em que as duas cidadãs espanholas se viram envolvidas durante a passagem pelo Porto. Tinham fugido para Portugal depois do escândalo que se armara na Galiza, onde o “casamento de contrabando” andou nas primeiras páginas dos jornais, alimentando também a imprensa de Madrid.

Mas a história, iniciada alguns anos antes, havia ainda de ter outras complicações, obrigando o venturoso casal a empreender nova fuga, desta vez para a Argentina.

Daquele período conturbado ficaram três fotografias: na do casamento, muito solene, captada por José Sellier, um fotógrafo francês da Corunha, Marcela está de negro e o noivo aparece segurando a aba do casaco com a mão direita, a sombra de um buço imberbe sobre o lábio; na do relojoeiro José Rodrigues, da Rua do Bonjardim, aparecem juntas na prisão do Aljube, no Porto, como homem e mulher, e Marcela parece envelhecida, com os olhos encovados, e Elisa, com o bigode já mais pronunciado, poderia facilmente ser tomada por um banal caixeiro do Porto; na terceira, Elisa espreita o casario da cidade pelas grades da prisão, com um chapéu de homem na cabeça, evitando ser fotografada pelo “repórter” do El Suceso Ilustrado.

Elisa e Marcela conheceram-se muito jovens, então estudantes da escola da Corunha onde se formavam as professoras primárias. Tornaram-se inseparáveis e essa proximidade terá levado os pais de Marcela a enviá-la para Madrid na tentativa de apaziguar a primaveril relação das moças. Porém, como em todos os grandes romances, também neste caso o destino — ou a indeclinável lei das coincidências que com ele se confunde — parece ter desempenhado o seu papel de inveterado alcoviteiro: em 1900, Elisa estava a ensinar interinamente na aldeia de Couso, situada a meio caminho entre a Corunha e Finisterra, na Costa da Morte; Marcela, já mestra superiora, instalara-se na escola de Calo, no município vizinho de Vimianzo.

Estavam, pois, o fogo e a estopa juntos e, segundo os relatos recolhidos no livro de Narciso de Gabriel, dormiam frequentemente na casa de Marcela, em Dumbría. Não sendo nem a primeira nem a última vez que duas mulheres mantinham uma relação amorosa, o caso seria comentado e motivo de algum escândalo, quanto mais não fosse porque a rigidez dos códigos morais da época proibia às professoras que usassem maquilhagem ou vestidos vistosos.

Em alguns colégios eram mesmo proibidas de casar. Nada, portanto, podia ajudar a prever o que estava para acontecer — excepto, eventualmente, o facto de também na Galiza estar registado o primeiro caso de um casamento católico entre dois homens, Pedro Díaz e Muño Vandilaz, celebrado a 16 de Abril de 1061, há 950 anos, na capela de Rairiz de Vega (a acta foi encontrada há alguns anos no Mosteiro de S. Salvador de Celanova).

Em 1901, porém, as raparigas necessitaram de fazer mais do que apresentar-se diante de um padre e declarar a intenção de viverem juntas até que a morte as separasse. Começaram por encenar uma zanga e, logo depois, Elisa Sanchez Loriga partiu para a Corunha, então uma pequena cidade de província. Ali cortou o cabelo, passou a fumar e a vestir-se como um homem e adoptou uma nova personalidade. Passou a ser Mario, com uma biografia decalcada de um primo que tinha morrido num naufrágio e alegando ser filho de um herege inglês.

Apresentou-se, assim, diante de um padre, declarando pretender converter-se ao catolicismo. A 26 de Maio passou pela pia baptismal e fez a primeira comunhão e, daí a dias, a 8 de Junho, pelas sete da manhã de um sábado, casava com Marcela Gracia Ibeas. Esta, antecipando-se a eventuais comentários, terá tomado a iniciativa de reconhecer as semelhanças físicas entre Mario e Elisa. “Têm a mesma estatura, a voz igual e as mesmas maneiras. Até os génios são parecidos”, terá dito, de acordo com os testemunhos recolhidos por Narciso de Gabriel.

A noite de núpcias foi passada na pensão Corcubión, na calle de San Andrés, na Corunha, mas o idílio do casal durou pouco. Dias depois o embuste tinha sido descoberto e passara a alimentar as páginas dos jornais, que exercitavam a criatividade em títulos como Um casamento sem homem. “De certeza que o logro não teria sido descoberto se as duas mulheres não tivessem cometido a ousadia de regressar casadas a Dumbría, a pequena vila onde antes conviviam como duas mulheres”, assegura Narciso Gabriel na resposta a um conjunto de questões que o P2 lhe colocou por email.

No livro que recupera a história, Narciso de Gabriel conta que os detalhes mais suculentos da história eram disputados pelos principais jornais, que se vendiam como pãezinhos quentes. O Nuevo Mundo, ilustrado, chegou a vender 19 mil exemplares em Madrid, em apenas dois dias, e a escritora Emília Pardo Bazón lamentava que fosse “tão escabroso o inaudito folhetim” que a imprensa divulgava.

Apesar do escândalo, o registo de casamento nunca chegou a ser anulado e permanece válido. Elisa e Marcela, porém, viram-se despedidas das respectivas escolas, excomungadas e perseguidas pela justiça. Fugiram. Primeiro para Vigo e, depois, para o Porto, provavelmente julgando que, noutro país, seriam esquecidas e poderiam viver em paz como homem e mulher. Marcela terá chegado ao Porto ainda a 27 de Junho. Regularizou imediatamente a sua situação no Consulado de Espanha e instalou-se na pousada A Mesquita, da Rua do Bonjardim.

Após a chegada de Elisa, em data não determinada, terá chegado a trabalhar no Café Lisbonense, recebendo uma diária de 240réis. Mas tudo se havia de complicar quando, segundo o Jornal de Notícias, uma mulher chamada Generosa decidiu denunciar o casal, alegadamente porque “Mário” a tinha insultado. Dissera-lhe que ela “nada devia à providência em formosura”. Segundo O Commercio do Porto, Elisa/Mario Sanchez, de 32 anos, e Marcela Gracia, de 28, estavam, então, instaladas “numa hospedaria particular da Praça da Batalha”.

Tinham obtido cartas de residência junto do consulado espanhol: a de Marcela estava em ordem, mas Elisa identificava-se, então, como José Mal Sanches. Perseguidas por Salvador Millán, um capitão da Guarda Civil de Vigo, foram facilmente descobertas e capturadas a 16 de Agosto, e logo recolhidas à prisão do Aljube. Mas a cidade, ao que parece, adoptou a defesa do casal e várias notícias posteriores dão conta de donativos em dinheiro e vestuário que foram entregues na prisão, em alguns casos por iniciativa de jornais. Noticiava-se, inclusivamente, o facto de terem sido visitadas por um homem.


Elisa e Marcela na cadeia do Aljube, no Porto


A 22 de Agosto, o Commercio dedicava ao assunto um artigo um pouco maior, referindo que Elisa e Marcela “téem dado lugar a largos commentários, pelo facto de haverem conseguido matrimoniar-se em Hespanha” e contando que a mais velha tinha deixado de usar traje masculino, passando a envergar um vestido e roupa branca que lhe foram “fornecidos obsequiosamente” por um escrivão da polícia, Francisco Fogaça. No mesmo dia, o Jornal de Notícias explorava a situação recorrendo ao humor: “Francamente, [Elisa] parecia-nos muito mais atraente vestida de homem.”

“A imprensa do Porto fez uma cobertura espectacular do caso das duas espanholas casadas. Foi aí, e também em Lisboa, que consegui uma boa parte das fontes que me permitiram reconstruir a trajectória de Elisa e Marcela”, conta Narciso de Gabriel ao P2. Naquele final de Agosto, O Commercio do Porto explicava que Elisa estava acusada de viciação de carta de residência — suspeita confirmada após um “exame que lhe foi feito” na sequência de uma alegação de hermafroditismo — e Marcela encontrava-se detida na condição de “encobridora” do crime. As autoridades espanholas tinham já apresentado um pedido de detenção e extradição, “por estarem ali processadas”, mas, face ao apoio popular, acabaram por ser libertadas ao fim de 13 dias de cativeiro.

Desapareceram também das páginas dos jornais, deixando os leitores a braços com o muito mais insípido folhetim Margarida, de A. Brechat, diariamente publicado no rodapé da primeira página d’O Commercio. O caso apagou-se, pois, com o calor tórrido daquele Verão de 1901.

Elisa e Marcela chegaram ainda a deslocar-se à redacção do Jornal de Notícias para agradecer o apoio prestado — Elisa ter-se-á despedido com um “shake-hand vigoroso” –, e, depois, o casal instalou-se em casa do co-proprietário do Café Lisbonense. Mudar-se-iam, mais tarde, para o Hotel Gibraltar da Rua da Batalha e, segundo a coluna Alacridades d’O Primeiro de Janeiro, viveriam de “costuras, bordados e outras prendas manuais em que nos dizem que são exímias”.

A 8 de Janeiro de 1902, porém, o casal voltou à ribalta: Marcela tinha dado à luz uma menina, não se sabe fi lha de quem, confirmando, de resto, uma nota da Secção Cómica do Jornal de Notícias de 17 de Agosto, na qual se dizia que “Marcela (a noiva) se acha em estado de gravidez” – um pormenor a que, então, não se prestou muita atenção. Consumado o parto, o jornal voltou à carga, gracejando, em verso, que se tratava de um caso de geração espontânea, “como entre as lombrigas”. Elisa, porém, enfrentou de peito aberto os jornalistas que se deslocaram ao Hotel Gibraltar em busca de novidades: “É uma coisa do outro mundo que uma mulher tenha um filho ou uma filha? Não há nada mais natural. Não somos criminosas”, conta Narciso de Gabriel no livro que dedicou à história.

Cansadas da permanente atenção que sobre elas recaía, e ainda acossadas pela justiça espanhola, Marcela e Elisa acabaram por partir outra vez, desta feita a caminho da Argentina. Em 1903, segundo concluiu a investigação desenvolvida pelo catedrático galego, Elisa, que passara a chamar-se María Sánchez Loriga, casou com Christian Jensen, um homem 24 anos mais velho. O matrimónio, porém, não se consumou e o marido, desconfiado, tratou de investigar quem era María e aquela Carmen, sua suposta irmã, com um filho nos braços – e descobriu a história toda. Mais uma vez, as duas mulheres tiveram que enfrentar a justiça, que, em 1904, dissolveu o casamento de Elisa.

A partir daqui, o rasto histórico de Marcela e Elisa extinguiu-se. Talvez tenham, enfim, conseguido amar-se em paz, algures na agreste imensidão da Pampa ou do Chaco, sem imaginarem, sequer, que a sua história se perpetuaria por mais cem anos. Ou não.

Narciso de Gabriel revela que, após a edição do livro em castelhano, recebeu de um leitor das Astúrias um recorte da revista Nuevo Mundo, datado de 1909 e informando que Elisa se suicidara em Veracruz, no México. “Fiz várias indagações para tentar confirmá-lo, mas ainda não consegui. Em todo o caso, a notícia é seguramente verídica e ilustra bem as dificuldades que sofriam, e ainda sofrem, as pessoas que têm uma orientação ou uma preferência sexual que não corresponde ao cânone social”, diz de Gabriel.

*Reportagem publicada no P2 do Público no dia 10 de Dezembro de 2011

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Há compromissos e compromissos. E há lata para tudo.

Com o ar grave e sério de quem acabou de engolir um garfo (e nunca teve nada a ver com negócios de submarinos), Paulo Portas, o estadista (não confundir com os outros), declarou hoje que Portugal está "absolutamente empenhado em honrar os seus compromissos e a sua palavra". Mas não estava, claro, a referir-se ao compromisso de pagar subsídios de natal ou de férias a quem trabalha (e paga contribuições), de pagar indemnizações e subsídio de desemprego a quem é despedido, ou, sequer, à palavra dada na Constituição, segundo a qual a Saúde, por exemplo, é um direito tendencialmente gratuito e assim.

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Era só, afinal, ter seguido o cherne


Anda toda a gente muito entusiasmada com os dons premonitórios do Paulo Futre mais os charters de chineses que hão-de vir, mas o grande movimento social destes tempos bizarro remontam, parece-me, a anos mais longínquos. No ano de 2002, se a memória me não trai, a doutora Margarida Sousa Uva causou grande espavento ao citar Alexandre Oneill numa mensagem de apoio ao marido, o então candidato a primeiro-ministro José Manuel Durão Barroso. Gente geralmente mal intencionada passou imediatamente a chamar cherne ao próprio Barroso, e Barroso, ele mesmo, arranjou dali a nada empreguinho certo e bem remunerado lá na estranja, para onde agora, afinal, nos mandam emigrar também, seguindo o caminho do cherne, como no poema de Oneill, “atrás de muito mais que a fantasia”. Foi o que fez, afinal, o grupo Jerónimo Martins e mais os grupos todos que há não sei quanto tempo já se mudaram para sítios onde se paguem impostos mais em conta, que para sustentar a choldra basta que cá fiquem os totós que não sabem fazer mais nada nem gostam muito de mudanças. Rai’s parta mais quem nos mandou ficar quietos a envelhecer enquanto a Uva bem dizia, como num canto de sereia, “sigamos o cherne, sigamos o cherne, sigamos o cherne”, e nós a matutar que somos gente mais de carne, que o peixe não é comida de gente que trabalha e tal. Rai’s parta esta mania de não andar por aí a aceitar “até, do cherne um beijo,/senão já com amor, com alegria”. É bem feito. Quando reencarnar quero vir de milionário ou social-democrata, e a mamar das tetas todas como um leitãozinho guloso. E seguir o cherne, segui-lo, claro, para não acabar, outra vez, sendo não “mais que solidão e mágoa”.

Convenientes coincidências

Há-de ser isto, decerto, apenas uma pura coincidência. Rui Rio, o presidente da Câmara do Porto, passou várias semanas a tentar lançar o eurodeputado Paulo Rangel para as eleições internas do PSD/Porto, embora fosse dizendo que essa possibilidade não se devia concretizar, pois nem ele acreditava que Rangel aceitasse trocar o (bem pago) cargo europeu por um lugarzito paroquial no partido do poder. Segundo o Público, Rangel também não conseguiu suscitar grandes entusiasmos nas reuniões de militantes em que participou. Agora, porém, e segundo o Correio da Manhã, parece que Rangel poderá transitar das altas esferas europeias para o “tropismo tropical” (expressão roubada ao próprio) das nomeações partidárias, sentando-se na cadeira do poder da Casa da Música e ficando, talvez, capaz de distribuir tachos e prebendas, disponível e entusiasmante já para o pequeno posto partidário que há-de permitir a Rui Rio manobrar para manter a Câmara do Porto sob a regência de algum dos seus preclaros partidários ou amigos, conforme venha a dar mais jeito.

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Um sítio muitíssimo bem frequentado

"Aos vinte anos, como hoje, eu achava a vida empolgante. A morte, em si mesma ou como problema do destino individual, não tinha para mim a menor fascinação: considerava-a, apenas, um episódio passageiro da universal transformação das coisas. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo) um dos meus gostos, ao tempo, era frequentar o teatro anatómico".

José Rodrigues Miguéis, no conto Uma carreira cortada

Um plano C para 2012*



Embirro muitíssimo com o pessimismo e o tom lamuriento que por aí estão instalados. Não estamos condenados a ter que escolher entre emigrar ou ficar por cá e aguentar os confiscos todos que ainda possam perpetrar-se contra quem vive dessa actividade paleolítica que é o trabalho. Os tempos, dizem os sábios, serão difíceis, mas também férteis em oportunidades vastas e gloriosas como enormes pradarias. Tudo vai de ser ambicioso e arrojado – empreendedor. E escusam de vir dizer que nem toda a gente está apetrechada para especular, roubar e viver do esforço alheio, pois até um país desqualificado como o nosso oferece condições espectaculares para que outros grandes talentos frutifiquem.

Estou empenhadíssimo, por exemplo, em tirar partido da mudança legislativa que permitirá ao senhor ministro das polícias autorizar a instalação de sistemas de videovigilância do espaço público sem prévia análise da Comissão Nacional de Protecção de Dados. Poderia, é bem certo, dedicar-me à laboriosa montagem dos equipamentos necessários à plena segurança dos cidadãos, mas essa é uma actividade que exige trabalho e competências técnicas que não tenho. Planeio, isso sim, aproveitar a futura massificação dos meios de captação e transmissão de imagens para iniciar uma fulgurante carreira dramatúrgica, executando pequenos números de comédia física que hão-de, primeiro, divertir os agentes da autoridade responsáveis pelo visionamento das imagens das nossas ruas e praças, e, depois, espantar o país de alto a baixo.

Como toda a gente sabe, as imagens captadas pelas câmaras de videovigilância são normalmente transmitidas sem som e com uma velocidade que confere às cenas um ambiente de desenho animado. Os protagonistas parecem mover-se e deslocar-se com lapsos, como se fossem capazes de ir do ponto A ao ponto B sem passarem pelos planos intermédios. Esta característica parece-me ideal para o desenvolvimento de um método de representação que seja herdeiro do humor mudo de Buster Keaton e, ao mesmo tempo, concorrente dos melhores filmes de acção.

Imagine-se, então, um assalto, um acidente de trânsito ou uma simples altercação na via pública. Nessa altura, e com todas as atenções dos senhores agentes de videovigilância voltadas para o local do incidente, bastar-me-á surgir na imagem e assombrar o mundo com uma interpretação muito vívida de um personagem totalmente deslocado da realidade, movendo-me de modo extravagante e expressionista, ora dançando, ora tentando trepar paredes ou girando em volta dos postes de iluminação. Usarei um fato completo, com gravata borboleta, e um chapelinho de palha da Madeira, e estou já a treinar um passo muito elaborado e absurdo, a meio caminho entre a contenção dramática de Chaplin e a expressividade de um Vítor Gaspar (com uma pitada do ministro dos passos patéticos dos Monty Python). Para o pleno sucesso do meu plano C, só preciso de que as minhas prestações se tornem virais na internet e eu seja contratado para campanhas publicitárias na televisão. Venha, pois, 2012.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 27 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

O dia que nunca existiu


Não estou certo de que as mais criativas especialidades da física, incluindo a quântica e a das partículas subatómicas, sejam capazes de explicar tão estranho fenómeno, mas, desde que se tornou público que o governo da pequena república de Samoa decidiu saltar esta sexta-feira de modo a acertar o calendário, vários fenómenos estranhos começaram a suceder nos mais desencontrados sítios do mundo. Não sei como fizeram em Samoa, se ficaram simplesmente a dormir de quinta para sábado ou se encontraram outro modo de executar o pulo temporal que os transportou, de um segundo para o outro, do dia 29 de Dezembro para o dia 31, mas, entre nós, o inusitado acontecimento tem provocado os mais bizarros episódios. Vi um homem com o chapéu do avesso e outro que trazia as meias por fora dos sapatos, também estes trocados, o sapato direito no pé esquerdo e vice-versa. A água está a escorrer nos ralos em vórtices contrários ao sentido dos ponteiros dos relógios e os passarinhos passaram a voar misteriosamente, de papo para o ar, e parece que assobiando estranhas cantigas. Rui Rio foi visto a ler um livro (de Eugénio de Andrade; e parece que as letras da capa não estavam de pernas para o ar). Porcos pedalam excêntricas bicicletas. Ruben Focs não tem sido visto em Belo Horizonte e o escrivão Bartleby passou a fazer absolutamente nada oito horas e meia por dia, mesmo em alguns dias feriados. Um jornal desportivo, cujo nome não quero recordar-me, diz que o Benfica foi o campão nacional de futebol de um ano em que choveu de baixo para cima, como se o mundo estivesse todo de cabeça para baixo e um indivíduo com os pés bem assentes no chão não pudesse já saber o que é a verdade e a mentira entre tudo o que vê, lê e escuta, e, de certo modo, tivesse mesmo muita vontade de imitar os samoanos e saltar directamente de 2011 para um ano qualquer em que este país tivesse voltado a ser inteiro e limpo.

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Crónicas do autocarro#104



Ainda que ignorantes do significado preciso (e dicionarizado) da palavra “paradoxo”, os utentes do autocarro são profundos praticantes dessa nobilíssima arte e, mais do que isso, estão atentos à suave deflagração do absurdo no quotidiano. Uma senhora que comungava, esta manhã, do meu (quase vazio) transporte público bem notou que “há crise, há crise, mas ninguém trabalha”, transformando-se, assim, numa implacável cronista de costumes, provavelmente mais contundente e precisa do que muito plumitivo encartado que para aí anda. Não querendo fazer má figura, pus-me, por isso, à escuta de outros episódios paradoxais, tendo imediatamente dado fé do trio de senhoras da limpeza que, instigadas pela mais vivaça, vinham discutindo a necessidade de irem aos chineses comprar cuecas azuis, vermelhas e amarelas para beneficiarem dos sortilégios do novo ano. Devia, é bem certo, ter meditado mais detidamente no paradoxo que pudesse haver nesta prática – avaliando de que modo a mais entusiasta tem beneficiado do “dinheiro, amor e saúde” que a supertição garantirá –, mas o debate adquiriu uma feição, digamos, mais vivaz e que transcendia o próprio paradoxo. Como uma das senhoras não atinava com o correcto uso dos amuletos íntimos, foi-lhe claramente explicado que deve passar a meia-noite do reveillon com as três cuecas vestidas, umas por cima das outras, para que a magia surta o necessário efeito. O vudu há-de, depois, ser retirado pela terceira pessoa a quem possa interessar a exploração dos países baixos, a qual, com alguma sorte, estará bêbada e nem achará estranho ter que despir três peças made in China. Vai, de certeza, ser um ano muito bem passado.

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Crónicas do autocarro#103



Ando comido de curiosidade desde que tomei conhecimento de que o autocarro 207 passou a disponibilizar aos utentes um serviço experimental de televisão e internet wireless. Moderno e dinâmico como sou, pretendo ser também bafejado pelo sopro tecnológico que percorre o 207 de uma ponta à outra, do pára-brisas ao vidro que se quebra em caso de emergência, e aceder ao Google e ao Facebook a partir do meu lugar predilecto. Imagino a coisa como algo que, por uma espécie de milagre das telecomunicações, enfiará no espaço acanhado do veículo toda a informação e entretenimento que existem no mundo. A Céline Dion virá cantar no meu colo e o José Rodrigues dos Santos piscar-me-á o olho em grande estilo a partir das mais avançadas plataformas tecnológicas, para não falar dos jogos de futebol em directo sacados de sítios que pirateiam a SportTv.

Embora maravilhado, sou também perfeitamente capaz de vislumbrar alguns dos possíveis inconvenientes do maravilhoso mundo das comunicações sem fios aplicado no espaço do autocarro. O que sucederá ao meu amoroso laptop quando, por exemplo, o motorista fizer uma daquelas travagens em que quase é preciso ir com uma espátula descolar os utentes do vidro da frente? Ou ainda pior: quem suportará o meu mau humor quando, ao abrir a edição online do P(asquim), constatar que as notícias (perfeitamente enxutas) que escrevi na véspera foram publicadas com uma semeadura aleatória de vírgulas, e que outras desapareceram misteriosamente dos sítios onde deviam estar, transformando um exercício profissional honesto e limpo numa coisa torpe e atrapalhada? Com quem poderei, enfim, partilhar a torrente de linguagem vernacular que nessas alturas se apossa de mim e jorra sem freio? Serão as regras da conduta no autocarro compatíveis com o desvario e a falta de educação desde vosso criado?

Desconheço. À cautela, será melhor que continue a limitar-me ao Destak ou, vá lá, à contemplação da luz lambendo os azulejos das casas e os fios dourados de cabelo das raras e abstractas loiras que circulam na cidade.