Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Mesmo nesta estranha vida



Ao fim de quase quatro anos de clandestinidade, Salman Rushdie contou à mãe, numa carta, que o livro que então estava a escrever (o belo O Último Suspiro do Mouro) estava a correr bem. "Já vejo a última linha", escreveu. E acrescentou: "Quando um livro está a correr bem tudo o resto na vida parece tolerável, mesmo nesta estranha vida". Simultaneamente imerso e apartado da estranha vida em que agora vivemos, no estranho país que temos, penso na frase de Rushdie e ocorre-me que talvez seja verdade; que o bom curso dos livros, para quem os escreve, tem a faculdade de tornar tudo o resto menos nebuloso. O livro, em todo o caso, não está a correr bem e não lhe vejo a última linha ou, sequer, a próxima. Mas, se calhar, não se perde nada com isso.

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

O silêncio

De entre todos os animais selvagens que já tive a oportunidade de observar cara a cara, houve dois que me impressionaram particularmente: a raposa e o peixe-boi.
O mamífero aquático brasileiro, que vi dentro de uma piscininha perto do Forte Orange, em Pernambuco, assemelhava-se a uma grande massa mineral, um naco de pedra inerte e cego. Parecia incapaz de manifestar qualquer tipo de vontade ou mesmo de executar tarefas mais simples, como ver, escutar ou emitir ruídos.
A raposa é, aparentemente, bastante diferente. Vi uma, há bastantes anos, dentro de uma das jaulas que existiam nos Jardins do Palácio de Cristal, e tudo nela parecia demasiado vivo: as orelhas aguçadas, o dorso ágil, a cauda extravagante e os olhos contundentes como chamas, agressivos, daninhos. Não sei bem que sentimento me inspirou o olhar furtivo da raposa, mas talvez tenha sido uma espécie de medo interior, inexplicável e irracional.
O que, porém, mais me impressionou em dois animais tão diferentes foi o profundo e inquietante silêncio que ambos inspiram. Trata-se, se calhar, de um equívoco. Mas há nos olhos excessivamente vivazes da raposa e na absoluta inexpressividade do peixe-boi alguma coisa que parece dispensar o ruído, o grito, o som, o tumulto, a conversa da treta e a barulheira em geral. Hei-de, por isso, meditar no exemplo deste dois bichos — a ver se aprendo alguma coisa.

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

Tarde

O gato preto persegue a sardanisca entre os espinhos do roseiral.

Quantas vezes é preciso explicar-vos que o senhor doutor é que decide o que é arte?


A propósito desta notícia, talvez não seja má ideia recordar aquilo que já aqui escrevi. E também, já agora, que há vários adágios populares que, prescrevendo uma certa cautela, poderiam ter evitado estas chatices a gente tão bem intencionada. Mas a juventude, já se sabe, aprecia muito os desportos radicais.

Duas efemérides sem interesse nenhum


Faz hoje dez anos que escrevi o primeiro post no primeiro blogue que criei. Chamava-se, o blogue, Apenas Um Pouco Tarde, espécie de homenagem ao Manuel António Pina (o endereço ainda está activo, embora com outra utilização), e lembro-me disso perfeitamente porque, naquele dia, a minha filha fazia dez anos. Hoje faz vinte. Comemoro, assim, dois aniversário redondos, duas efemérides que não têm interesse nenhum para as outras pessoas, mas que, para mim, são duas datas bastante significativas, cada qual a seu modo. Com a minha filha (e também com o meu filho) aprendi muita coisa sobre a vida e tenho a certeza de que me fui tornando uma pessoa menos má. Com o blogue fiz amigos, experimentei, inventei, e tenho até a pretensão de ter aprendido a escrever um bocadinho melhor. Só o meu feitio é que está cada vez mais ruim.

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Socorro de idosos é capaz de me ser muito útil

Dando consistência ao espírito e à letra da lei, o Instituto do Emprego e Formação Profissional convocou-me para me oferecer "formação modular certificada" (e obrigatória). Lá fui, que remédio. Do vasto leque de "cursos" disponíveis faziam parte coisas muitíssimo úteis para o ordenamento geral do mundo, mas que não vejo como me ajudarão a estar mais apto a encontrar um emprego na minha profissão. A oferta inclui higiene e segurança alimentar, controlo de qualidade, socorro de pessoas idosas, processamento de texto, inglês e espanhol para atendimento comercial, criação de negócio, empreendedorismo e internet no marketing. Visto que a não aceitação da "oferta" implica a perda do subsídio de desemprego e a proibição de re-inscrição por um período de noventa dias, tive de optar. Mas sou capaz de não ter feito a escolha mais acertada. O socorro a idosos poderá ser-me muito útil dentro de relativamente pouco tempo.

Terça-feira, 7 de Maio de 2013

Novidade: as "Crónicas do autocarro" para ler de uma só vez



Passou meses aqui no blogue a acompanhar as destrambelhadas viagens e, por isso, já tem saudades das Crónicas do autocarro? Espera com ansiedade por uma nova narrativa a bordo do 502? Sente suores frios e tremuras? OK, isso pode ser gripe. Deixe-se ficar na cama e aproveite para ler todas as crónicas de uma assentada num livro electrónico exclusivo.
Basta enviar uma mensagem para ilhanua[arroba]gmail.com

Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Regozijo

Por motivos que não vêm ao caso, caiu-me hoje nas mãos o livro de um septuagenário que se dedicou, pelos vistos, a palmilhar os itinerários literários de Aquilino Ribeiro, seguindo-lhe não só os passos, mas também a ginástica da língua (salvas as devidas distâncias). Maravilho-me quando o português adquire uma sonoridade festiva, transumante, elegante e rústica, simultaneamente próxima dos caboucos medievais e das alegrias inventivas da língua nos antigos territórios ocupados pela macambúzia pátria; ou quando reconheço nas frases a fala dos meus avós e o soberbo português de Machado de Assis, Camilo ou Guimarães Rosa. Nos dias que correm, em todo o caso, tudo o que possa imediatamente distinguir-se dos comunicados do conselho de ministros é, por si só, motivo de regozijo farto.

Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

Mortos-vivos ou algo que se lhes assemelhe

Ao fim de cinco minutos de carne para chouriços (vulgo comunicação do liquidatário ao país), deixei de ouvir o que estava a ser dito na televisão, quanto mais não fosse para evitar que o apetite se me estragasse irremediavelmente (e a feijoada não estava má de todo). Em vez disso, a conversa voltou-se para a série televisiva The Walking Dead, mais os seus bizarros zombies perseguindo, parece, cérebros de que possam alimentar-se para continuarem a ser mortos ambulantes (não perguntem, também não sei explicar). Só no fim percebi que tínhamos estado a falar mais ou menos da mesma coisa, nós e o alegado primeiro-ministro: mortos-vivos.

Conversar com estátuas, uma maneira de ser escutado

Circula pela redes sociais da internet uma fotografia em que se vê um homem (alegadamente bêbado) a conversar com a estátua de Carlos Drummond de Andrade no calçadão da praia de Copacabana. O facto de o indivíduo estar a conversar com o poeta de bronze, ali posto em tamanho real para que continuasse a desfrutar do movimento da cidade à beira-mar, é a única prova de que esteja bêbado ou, no limite, um pouco louco, vestindo uma t-shirt do PT e com a sacola de plástico pousada junto aos pés. Conversar com o Drummond-estátua, porém, parece-me uma actividade muito sábia. Talvez esteja também um pouco louco, ou um pouco ébrio, mas quando e se, um dia, for ao Rio, hei-de sentar-me também no murete da praia para uma demorada conversa com o poeta. Tenho a certeza de que Drummond estará escutando. E que compreenderá.

Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Épico, brilhante e exemplar



Chegado mais ou menos ao primeiro terço das 730 páginas de Joseph Anton uma memória, de Salman Rushdie, posso finalmente arriscar-me a recomendar a leitura desta espécie de autobiografia do escritor a quem os radicais islâmicos condenaram à morte. Narrados na terceira pessoa, como se o pseudónimo da clandestinidade se tivesse efectivamente transformado numa personagem real, os acontecimentos que, durante mais e nove anos, compuseram a vida do escritor de Os Versículos Satânicos vão traçando um retrato amargo (mas também irónico) do período em que Rushdie foi obrigado a viver escondido, sob protecção policial, enquanto queimavam efígies suas em praças públicas e as livrarias eram alvos de atentados à bomba.

Deprimido, assustado, beligerante, fraco, corajoso, autocomiserativo, mesquinho e determinado, Rushdie olha para aquele Joseph Anton e para os que o rodeavam com desassombro, transformando aqueles nove anos numa narrativa épica, brilhante e exemplar, que se lê como um romance, mas também como uma reflexão sobre o modo como o ocidente começou por tolerar, de modo ameno, aquela que foi uma das primeiras manifestações do radicalismo que havia, anos mais tarde, por ter concretizações muito mais espectaculares, cruéis e letais. Compara-o, de resto, à chegada dos primeiros pássaros no filme de Hitchcock, aparentemente inocentes, mas, afinal, a vanguarda do bando assassino.

Embora perseverando da ideia de que a liberdade de expressão constitui um direito inalienável (o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos do Homem consagra o direito à livre expressão e opinião, mas não acrescenta "a não ser que isso incomode alguém, especialmente alguém que esteja disposto a recorrer à violência"), Salman Rushdie defende sempre o carácter literário e artístico do seu livro, atacado por coisas que nem lá estão escritas. Se Os Versículos Satânicos é boa literatura, Joseph Anton uma memória (edição portuguesa da D. Quixote) é-o também. Sem dúvida.

Sábado, 27 de Abril de 2013

Respeitinho que o energúmeno está a ver


(fotografia da página de Paulo Mendes no Facebook)

Isto é chover no molhado: Rui Rio já ganhou três eleições e creio que ganharia ainda mais algumas se a lei não o impedisse de concorrer. O povo é que o é — e o do Porto não é diferente, por exemplo, do da Madeira.

A despeito da inutilidade de tudo o que se escreva sobre o indivíduo a quem Augusto M. Seabra justamente apelidou de "energúmeno", foi com alguma surpresa que soube que a empresa municipal Porto Lazer decidira investir (ou "fazer uma despesa", de acordo com os preceitos de Rui Rio) na abertura efémera de um edifício dedicado a actividades culturais. Rio nunca escondeu uma antipatia primária pela cultura e só os de fraca memória se deixarão enganar pelas operações de charme dos últimos anos (aqueles em que Rui Rio começou a achar que era possível chegar mais alto e a cogitar que talvez o Terreiro do Paço torcesse o nariz a um boçal inculto orgulhoso de o ser).

Embora inaugurado na mesma semana em que se soube que a Câmara do Porto recusou gastar/investir 75 mil euros na realização da Feira do Livro, cancelando o evento pela primeira vez em mais de 80 anos de história, o projecto Primeira Avenida concitou imediatas simpatias. A ideia de aproveitar um dos vários edifícios devolutos da Avenida dos Aliados para uma utilização cultural entusiasmou jornais e televisões, que deram ampla cobertura à surpreendente extravagancia de Rui Rio, inaugurada com foguetório a preceito.

Estranhei, desde logo, que o edifício tenha sido ocupado por instituições que já dispunham de outros espaços na cidade para desenvolver o seu trabalho, sabendo-se, como se sabe, que há inúmeros criadores do Porto que não beneficiam desse luxo. A notícia de que os responsáveis pela Primeira Avenida mandaram retirar da fachada uma das intervenções artísticas ('Portuguesa Monochrome', de Paulo Mendes, uma bandeira nacional a preto e branco a meia haste) recoloca, porém, as coisas no seu devido lugar. Rui Rio e os seus apaniguados até estão dispostos a tolerar a cultura se os artistas se portarem bem e estiverem dispostos a vergar a cerviz.

Qualquer pessoa que não tivesse chegado de Marte há 15 dias facilmente poderia antecipar que seria apenas uma questão de tempo para que uma coisa destas acontecesse. Rui Rio tem alma de censor e dificilmente é capaz de o disfarçar. Apenas se estranha que algumas pessoas ligadas à cultura do Porto ainda estejam dispostas a dar o benefício da dúvida e a colaborar com alguém que já os insultou tantas vezes.

Vendo bem, a 'Portuguesa Monochrome' é o melhor símbolo que a cultura do Porto podia ter.

Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

Um galo na moleirinha

Digamos que o indivíduo foi estender os mofos ao sol e garatujar frases num caderninho. A tarde estava agradável, apesar de ventosa, e as velhotas acorreram em massa a bronzear os refegos entre o lixo que as marés atiraram para o areal. A esplanada também estava cheia: sobrava apenas uma mesa no canto mais exposto à nortada, à qual o sujeito abancou para aparafusar o primeiro gin tonic da estação.

A dado passo sentiu uma rajada de vento, notou o susto dos outros ociosos e percebeu que um dos grandes guarda-sóis ia tombar. Só não lhe ocorreu que o artefacto tomasse o rumo exacto da sua cabeça de vento, por um feliz acaso dura que chegue para amparar o choque. Regressou a casa com um galo na moleirinha duas ou três páginas escritas e a persistente sensação de que uma pancada daquelas podia, ao menos, ter a virtude de lhe sacudir as ideias — mas nem disso se pode gabar.

Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Subtis maravilhas dos livros



Os livros hão-de ter vida própria, parece-me, pois só este amável mistério explicará o facto de no caos das minhas estantes sempre se organizarem espontaneamente pequenos comités de racionalidade acidental. Por exemplo, o indiano Siddhartha, de Hermann Hess, foi juntar-se a O Feitiço da Índia, de Miguel Real, e ao parcialmente indiano O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow. A pequena pilha amontoou-se, porém, sobre Na Patagónia, de Bruce Chatwin, desmoronando, pensei, a bela coincidência que ali se engendrara.

Tinha acabado de constatar esta aparente incongruência quando abri Joseph Anton do também indiano Salman Rushdie, aí constatando que, no dia em que foi sentenciado à morte pelo imã (14 de Fevereiro de 1989), o escritor dos Versículos Satânicos ainda participou, antes de passar à clandestinidade, no funeral de... Bruce Chatwin — assim confirmando de um modo bizarro a rebuscada lição de Siddhartha segundo a qual todas as coisas estão unidas mesmo quando parecem opor-se e contradizer-se.

É provável, de resto, que nunca venha a ser capaz de explicar de modo conveniente isto de os livros serem capazes de gerar subtis maravilhas. Em todo o caso, pude presenciar uma no sábado à noite, quando uma senhora de 84 anos quis tirar uma fotografa comigo no final de uma sessão na FNAC do Gaiashopping, e depois que lhe autografasse um exemplar de Aonde o Vento Me Levar. Dadas as circunstâncias, o caso não teria nada de especial. Eu tinha estado a falar daquele romance e várias pessoas quiseram, no final da sessão, que lhes autografasse os livros. Mas a senhora de 84 anos, segundo depois me explicou a mulher que a acompanhava, é analfabeta e nem sequer iria ser capaz de ler o livro que acabara de comprar. Alguma coisa do que ouvira a tinha, ainda assim, feito comprar o Aonde o Vento Me Levar, enchendo-me de perplexidade.

Agrada-me pensar, por isso, que a esta hora alguém estará a ler em voz alta o livro que eu escrevi, e que a senhora anda com M. viajando por África sem lá ter ido; e que aquela ficção destrambelhada termine por ocupar o lugar que lhe é devido na enorme biblioteca que há-de ser a memória de uma mulher de 84 anos.

Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Fragmento que ficou de fora de "Uma Mentira Mil Vezes Repetida"



(...)Se procuro manter-me optimista, não deixo, por outro lado, de notar como é efémera a celebridade dos indivíduos que não se limitaram a fingir ler um falso romance. Mesmo entre os que realmente escreveram livros e, por via disso, desfrutaram de alguma fama, a maior parte acaba por ser completamente esquecida ao fim de um par de anos. As obras deles deixam de ser lidas, desaparecem das estantes das livrarias e acabam ganhando fungos em armazéns húmidos. Quando os seus nomes foram perpetuados nas placas toponímicas das cidades, as pessoas esquecem-nos igualmente: não sabem quem foram, o que fizeram ou por que raio uma determinada rua foi batizada com o nome de um perfeito desconhecido.
Aspiro, felizmente, a um género diferente de celebridade, que seja, primeiro, retumbante como uma grande festa, e, depois, tão fugaz e inesquecível como o cheiro da terra molhada no fim de uma tarde de Verão absolutamente perfeita. Mesmo depois de se terem consumido os dez minutos de fama a que tenho direito, as belas mentiras que eu tenha sido capaz de contar ainda continuarão, espero, a ser recordadas com certa nostalgia pelos utentes dos transportes públicos, repetidas, reinventadas e eventualmente integradas em livros de verdade que venham a ser realmente escritos por quem tenha mais tempo para perder. (...)

Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Entre os livros

Não comprarás — o novo mandamento. Impus-me, por causa disso, certa ponderação e decidi resistir ao cântico das sereias que anuncia um novo Bolaño ou contos do Juanot Díaz, empenhando-me, em vez disso, em terminar de ler livros que tinha deixado a meio ou que haviam ficado à espera de ocasião mais propícia. Assim mergulhei n'A Despedida de José Alemparte, de Paulo Bandeira Faria (uma agradável surpresa), n'Os Três Seios de Novélia, o clássico do Manuel da Silva Ramos, e agora em Barro, de Rui Nunes. Entre as páginas fechadas deste encontrei, quase um ano depois da primeira investida, um bilhete que ali tinha sido furtivamente deixado e que eu ainda não tinha lido. Fui deste modo transportado para um outro espaço e para um outro tempo, não longínquos mas assim mesmo já muito distantes do dia de hoje e deste lugar onde agora, enfim, leio as poucas linhas de que se compõe a mensagem. As páginas do livro estavam transformadas em cápsula do tempo, máquina de regresso ao passado, circunstância nem boa nem má, apenas um pouco melancólica. E nem todos os dias são bons para somar abatimento ao desânimo, prostração à apatia. Não convém que o passado mude de sítio.

Sexta-feira, 5 de Abril de 2013

Procura activa de emprego



Por força dos regulamentos da Segurança Social, que obrigam os desempregados a procurar activamente emprego e a demonstrá-lo documentalmente, respondi há dias a um anúncio que alegadamente servia para recrutar um "jornalista para revista mensal musical". A candidatura implicava que tivesse (e tenho) carteira profissional válida, mas também que enviasse uma cópia digitalizada da mesma e do cartão do cidadão. Hoje recebi, enfim, um e-mail da empresa que estava a contratar um "jornalista para revista mensal musical", convidando-me a participar num "casting" para locutores e cantores. A inscrição no "casting" custa a módica quantia de 20 euros. "O pagamento terá de ser em numerário (não aceitamos multibanco) e deverá ser feito no inicio do casting, já em estúdio", esclarecem os empregadores.
Já comecei os ensaios.

Quinta-feira, 28 de Março de 2013

D. Passos Coelho, o sangrador



São coisas que acontecem: decorreram vários meses entre o momento em que me chegou às mãos o romance "O Feitiço da Índia", de Miguel Real, e o dia em que, por fim, comecei a lê-lo. O livro até já ganhou, entretanto, o Prémio de Melhor Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores, o que agora não me surpreende grande coisa, tal a qualidade daquilo que já li.

A acção decorre em vários momentos históricos, das primeiras viagens à Índia ao presente, narrando a paixão de três homens da mesma família pela realidade indiana (e pelas suas mulheres), e permitindo, por exemplo, acompanhar a viagem de Vasco da Gama, na qual seguiu o degredado José Martins, o undécimo avô do narrador e o primeiro português a pisar o chão da Índia (não fossem os autóctones receber a armada de má catadura).

A partida de Gama, por exemplo, é descrita com grande riqueza de pormenores: o navegador persigna-se diante do prior da Sé de Lisboa e beija-lhe o círio que tem aceso nas mãos. Chama-se, o prelado, d. Passos Coelho, "o Sangrador", pormenor que, não sei porquê, ficou a retinir-me entre as meninges como algo que me seja bastante familiar.

Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Descaramento e instinto de sobrevivência

Está a circular na internet um video muito educativo, no qual se vê um leopardo caçando um babuíno. A dado passo, aparentemente arrependido de ter assassinado o primata, o felino decide adoptar o babuíno bebé, mimando-o enternecedoramente. Vi-o e lembrei-me, vá-se lá saber porquê, do doutor Catroga, do chefe da troika, do Marques Mendes e dos militantes do CDS, todos muito surpreendidos, arrependidos e chocados com a situação a que o país chegou. O filme é relativamente vago sobre isto, mas creio que o macaco não se salva.

Domingo, 24 de Março de 2013

Estar vivo



Certas coincidências têm, às vezes, a capacidade de estabelecer inquietantes correlações de ideias, levando-nos a reflectir sobre matérias em que é melhor não pensar se queremos viver um dia de cada vez sem cuidar demasiado no amanhã. Sucede, ainda assim, que os últimos dois livros que li — Os Enamoramentos, de Javier Marías, e Mortalidade, de Christopher Hitchens — contêm descrições de doenças terminais, cancros, e, por via disso, reflexões sobre o instante em que o indivíduo percebe que vai morrer mais cedo do que esperava. Hitchens, o homem, e Desvern, o personagem de Marías, encontram formas diferentes de lidar com o inevitável (no segundo caso trata-se apenas de uma alegação dentro da trama ficcional), nem boas nem más em si mesmas, apenas desiguais.

Ontem assisti ainda, em Santo Tirso, a uma homenagem ao Manuel António Pina, outra vítima da doença, e ouvi João Botelho contar que, para o Pina, estar no mundo era ser capaz de fazer coisas, o que, se calhar, é o nosso único desígnio útil e uma outra forma possível (e antecipada) de reagir ao inevitável mesmo quando ele não nos visita a todas as horas do dia sob a forma de dores e vómitos.

Sempre que, pelos mais variados motivos, me ocorre que seria melhor poupar-me ao vexame de exibir aqui a falta de interesse do que escrevo, pondero encerrar este blogue e dedicar-me a afazeres mais úteis, ou apenas diferentes; apagar, enfim, uma parte daquilo que faço e remeter-me ao que não careça da existência de um leitor e da sua aprovação silenciosa, ou da sua justificada indiferença. De algum modo, porém, acabo por regressar e escrever mais um texto, mais um parágrafo, mais uma chalaça, e nem sequer sei muito bem o que me leva a fazê-lo. Mas talvez seja só isso: escrever é um expediente barato para demonstrar que estou vivo e fazendo coisas — para que uma parte do mundo, infinitesimal e estatisticamente irrelevante, saiba que continuo a tentar e ainda não desisti, mesmo se de manhã, às vezes, não sei muito bem o que me faz sair da cama.

Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Dia Mundial da Poesia


Já consultei o saldo do banco

E o subsídio não estava lá.

Talvez possam comer-se

As redondilhas.


Terça-feira, 19 de Março de 2013

Podia muito bem calar-me e fingir que estou morto



Digamos, para resumi-lo de algum modo, que a coisa aconteceu assim: uma dessas empresas cujos administradores são nomeados pelos governos do costume contactou-me para me convidar a participar numa iniciativa de carácter cultural, com data e hora marcadas, a fim de assinalar uma data relacionada com o livro e a leitura. Cabia-me autografar livros e a editora que tem publicado o que escrevo também já tinha sido posta a par, tendo-lhe sido pedido um orçamento para os livros a adquirir. Hoje, porém, fui informado de que um director da empresa decidiu substituir-me por outro escritor, provavelmente mais sossegado ou com melhores credenciais literárias, francamente não sei, o que me fez ponderar, outra vez, sobre a relativa insensatez que há nisto de expressar publicamente as minhas opiniões, ou de me expressar de todo, uma vez que não há nada mais aconselhável para a saúde de um peixe do que fingir que está morto e deixar-se ir com a corrente. Podia evidentemente calar-me, fazer-me esquecer, censurar-me, sorrir muito para as fotografias e domesticar o imbecil incauto que há em mim e que, de vez em quando, ousa pôr a cabeça fora do tanque de aquacultura em que vamos vivendo; podia muito bem fazê-lo, talvez até arranjasse um emprego em menos de um fósforo, mas não ficava de bem com a minha consciência. Gosto muito de, quando me deito, adormecer como se não houvesse amanhã, e de, sei lá, participar no grande e permanente circo colectivo daqueles que, segundo o engenheiro da Sonae, estão a lerpar com a crise.

Abraço ao Daniel Mordzinski



O argentino Daniel Mordzinski fotografou-me três ou quatro vezes, na Póvoa de Varzim e em Matosinhos. Tendo em conta a quantidade (e sobretudo a qualidade) dos escritores presentes no portfólio dele, ser fotografado pelo Daniel é uma daquelas ocasiões em que posar nos enobrece, mesmo se o Daniel acha boa ideia retratar-nos sentados numa sanita com um rolo de papel higiénico na mão, olhando-o como se estivéssemos lendo um livro infinito. Existe sempre uma grande probabilidade de a ideia ser boa, tantas e tão boas fotos fez o argentino ao longo da vida, ainda que ele não consiga disfarçar-nos a cara de parvo (conforme exemplo anexo).

A maior parte do notável trabalho do Danel, conforme aqui pode ser lido, desapareceu devido a uma decisão inqualificável de um jornal francês. Uma parte da história da cultura contemporânea foi atirada ao lixo, ou roubada, ou confiscada ilegalmente, é impossível sabê-lo ao certo. Não há muito a fazer e a maior parte do que se perdeu é irrecuperável, mas não custa nada enviar um abraço ao Daniel. Não salva, mas talvez reconforte.

Saludo, hermano.

Segunda-feira, 18 de Março de 2013

Cabo Horn



Pode escrever-se um enorme romance apenas tendo como ponto de partida a triste história de Susi Armendáriz, ou que me parece triste quando a imagino imóvel e apenas conhecendo da vida e do mundo aquilo que foi lendo nos livros; mas é possível que tenha sido uma história feliz. Pode-se, em todo o caso, imaginá-la conforme se quiser, mais jubilosa ou mais nostálgica, supondo o que levava Susi Armendáriz a nunca se fartar de ler os romances e as histórias dos livros, e inventando que livros ela lia, o seu tom de voz, o gesto das mãos folheando as páginas, os olhos cegos e vazios daqueles que escutavam e depois os seus próprios olhos vazios e cegos. Pode-se muito bem escrever a vida de Susi Armendáriz sem tê-la vivido, sem tê-la conhecido, sem jamais a ter visto. Mas talvez não seja possível fazer tudo isto sem ter ido ao Cabo Horn.