terça-feira, 11 de setembro de 2018

Sobre a selvajaria

Leio num jornal (cujo nome também não quero recordar) que, "para as imobiliárias, a 'selvajaria' na habitação não se revolve com taxa do BE". Bruxo. Os especuladores têm a mesma opinião. Tal como os partidos que os defendem, nomeadamente a gosma liderada pela se'dona Assunção. Aqueles que enriquecem graças à selvajaria, chamem-se Robles, Botelho ou Moreira, não aceitam que a selvajaria possa ser regulada, nem que os lucros dela resultante paguem impostos justos. A carga fiscal da pátria, já o sabemos, deve ser integralmente alombada por quem vive do seu trabalho e que, graças à selvajaria, já vai sendo incapaz de pagar um tecto sob o qual possa abrigar-se da chuva.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Cristas de pernas para o ar (salvo seja)















Em tempo de fraca memória, as notícias e os soundbytes duram o tempo de um fósforo. Talvez já poucos se lembrem, por isso, deste cartaz do CDS-PP da dona Assunção. Desmentida pela realidade, Cristas arranjou outra mentira qualquer, outras frases de ocasião. Os jornalistas, mansos e obedientes, vão sempre atrás.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Línguas podres

Se o mundo houvesse de ser um sítio decente e pulcro, a natureza teria criado um mecanismo automático de punição dos energúmenos que, sem pudor nenhum de serem o que são, tomam a liberdade de continuamente proferir alarvidades monstruosas. Mas não: cada qual é livre de dizer e de insultar como bem entende e não há notícia de que alguma vez tenha apodrecido automaticamente a língua a algum destes palermas, quando dizem, por exemplo, que os mexicanos são violadores, ou traficantes de droga ou bad hombres.

Veja-se o caso de David Ribeiro, um indivíduo que é deputado municipal do Porto e que se entreteve a chamar aos romenos "energúmenos" e ladrões de supermercado . Soube-se hoje que o vil sujeito vai responder num processo instaurado pela Comissão Contra a Discriminação Racial - uma boa notícia que, todavia, está muito distante de resolver o problema de fundo. Basta ver que, no mesmo dia, os jornais dão eco de declarações do presidente das Filipinas, de cujo nome sujo não quero sequer recordar-me, o qual declarou que, "se houver muitas mulheres bonitas, haverá muitas violações".

O problema da gente que vomita coisas desta jaez é, pois, que não lhes cai um piano de cauda na cabeça de cada vez que abrem a boca (ou que chafurdam na lama dos facebooks e dos twiters). Em vez disso, chegam a deputados municipais e a presidentes de coisas que deviam ser tão sérias como uma república ou duas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Palhaçada migrante

O líder do PS/primeiro-ministro aproveitou o arraial de Caminha para anunciar que os emigrantes que regressem ao país vão pagar apenas metade do IRS, podendo deduzir as despesas de reinstalação nos impostos. Não se percebe.

Os que, empurrados por Passos Coelho e pela crise, foram embora de Portugal, fizeram-no por opção consciente. Foram ganhar melhores salários e viver em países decentes, pondo a formação aqui obtida ao serviço de outras economias e de outras nações.

Os que optaram por ficar, e são a esmagadora maioria, alombaram com um país deprimente e mesquinho, colocando, ainda assim, a sua força de trabalho, a sua energia e a sua criatividade ao serviço da recuperação da economia portuguesa, das empresas que cá estão e do país em geral.

A medida anunciada por António Costa representa, assim, uma dupla penalização para todos aqueles que, por opção ou falta dela, não abandonaram Portugal, aqui ficaram a trabalhar e a pagar impostos. Trata-se, pois, de uma palhaçada eleitoralista. Talvez lhes saia pela culatra.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Este extraordinário calor de Agosto

Trata-se de um ultraje, um escândalo, um despautério. O mês de Agostou começou e, pasme-se, faz um certo calor e está sol. As televisões, e bem, abrem os noticiários com notícias deste absurdo. Por este caminho, é bem possível que se chegue a Dezembro e esteja frio. Talvez até chegue a chover.

Ironia à parte, constato que os órgãos de comunicação social estão cada vez mais empenhados em seguir uma linha editorial próxima da adoptada nas conversa de elevador: perante o incómodo da falta da assunto, falam da meteorologia.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Kentaro

Foi há muito tempo que li a notícia da morte de Kentaro. Durante quase dois anos, desde que foi libertado do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves, percorreu cerca de três mil quilómetros de montes e vales da Península Ibérica, livre como uma corrente de ar. Imaginei, lendo a notícia, que Kentaro corria pelo deserto manchego, nos montes de Castela, pelos bosques galegos, entre as vinhas do Minho – veloz, vibrante e furtivo, um raio passando na dobra da tarde –, para vir, afinal, morrer atropelado numa estrada do concelho da Maia. E depois nunca mais o esqueci, provavelmente porque a vida de Kentaro, rápida como a de James Dean, me pareceu uma metáfora demasiado bela do confuso sentido que a vida tem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Sítios para não ir

À luz da lei, Israel passou hoje a ser uma nação judaica, "lar nacional" do povo judaico. Trata-se, não se duvide, de uma forma de excluir ainda um pouco mais aqueles que, não sendo judeus, possam sentir-se também parte daquele território.

Há um ano atrás, enquanto visitava (outra vez) a sinagoga de Castelo de Vide, vi-me rodeado de um grupo de turistas cujo idioma imediatamente reconheci. Quando soube que, para além de israelitas, eram descendentes de antigos habitantes de Castelo de Vide, chorei - por imaginar que houvesse entre eles algum familiar meu e pela violência que obrigou os antigos judeus a fugirem de Portugal ou a tornarem-se cristãos, separando-nos irremediavelmente.

Não sendo judeu, cristão ou praticante de qualquer fé, enojam-me todas as etnias, religiões, culturas ou comunidades que vivem e se afirmam pela exclusão. Dado que não me interessa, à partida, conhecer quem me repudia, sou capaz de chorar entre judeus em Castelo de Vide, mas não pretendo visitar Israel. Do mesmo modo, não tenho vontade de visitar os EUA governados por Trump, a Polónia ou a Hungria neofascistas, a Turquia, a Birmânia, o Sudão do Sul, a Venezuela, a Coreia do Norte, a Rússia ou a República Centro-Africana.

Também não pretendo regressar ao Brasil tão cedo. Amo o Brasil, amo-o há muito tempo e de uma forma sem explicações, mas detesto o país em que o Brasil está transformado, corrupto, golpista e com uma justiça arbitrária que não parece garantir nenhum tipo de equidade. É mais um sítio para não ir.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Donald Trump, uma definição (work in progress)

Mentiroso, arrogante, vigarista, trampolineiro, inadimplente, manipulador, inconsistente, aldrabão, gordo, nojento, intolerante, estúpido, seboso, alaranjado, ridículo, prepotente, xenófobo, imbecil, inconsequente, cara de caralho, falso, impostor, trapaceiro, embusteiro, intrujão, burlão, desumano, perigoso, putanheiro, Mussolini de carnaval, inconsciente, enganador, infiel, ignorante, incongruente, ilógico, inconveniente, impróprio, impreparado, indecente, energúmeno, indecoroso, intempestivo, batráquio, ectoplasma, sacripanta, coruja mal empalhada, verme, flibusteiro, troglodita, invertebrado, arlequim, palhaço.

Esta é uma lista em construção e que poderá nunca estar terminada.

Que os norte-americanos tenham eleito semelhante besta é um problema que lhes devia tocar só a eles.

Perde-se, na minha modesta opinião, demasiado tempo a tentar analisar as imbecilidades deste energúmeno. São apenas imbecilidades e, a bem da saúde mental dos povos, não se devia falar mais disso.

Praticante

Max Aub escreveu que às vezes é melhor ter graça do que ter razão. Concordo. Mas pratico cada vez menos.

terça-feira, 17 de julho de 2018

O único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado

Não tenho qualquer predileção especial pela mistura de erudição e escatologia (no sentido mais comum do termo), embora nada mo desaconselhe especialmente. A javardice em doses homeopáticas é, aliás, bastante libertadora.

Devo esta reflexão prévia, e respetiva profundidade, a uma frase de Julio Cortázar que li no romance Os Prémios e que anotei num documento word, para que ali, envolta de esquecimento e descaso, marinasse e adquirisse musgos e bolores, e talvez a condição de semente ou génese de ponderações e pensamentos mais vastos e vitais.

Considera a aludida frase, proferida por uma das personagens daquela ficção, que "os livros vão sendo o único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado". Trata-se, com efeito, de um dos melhores argumentos a favor da leitura e que talvez pudesse e devesse ser citado em eventuais campanhas de promoção do anacrónico objecto de papel e tinta.

Se a frase produz um certo efeito em favor do uso do livro e da literatura enquanto espaço de refúgio e evasão, sendo frequentemente mais relaxante e instrutivo do que umas férias em Bali com tudo incluído (até mesmo os outros turistas), não é menos verdade que não formula uma verdade absoluta. É frequentemente possível encontrar em casa outros locais "onde ainda se consegue estar sossegado", nomeadamente aquele que se usa para a prática de algumas abluções.

Ai que prazer, como diria Pessoa, ter um livro para ler e poder aceder ao suave benefício do corpo e da mente que proporciona a coincidência dos dois únicos lugares onde se pode estar tranquilo e alheado de tudo, longe, longe, longe, e dedicando aos aborrecimentos aquilo que eles merecem sem carecer de metáfora nenhuma.