quinta-feira, 19 de julho de 2018

Sítios para não ir

À luz da lei, Israel passou hoje a ser uma nação judaica, "lar nacional" do povo judaico. Trata-se, não se duvide, de uma forma de excluir ainda um pouco mais aqueles que, não sendo judeus, possam sentir-se também parte daquele território.

Há um ano atrás, enquanto visitava (outra vez) a sinagoga de Castelo de Vide, vi-me rodeado de um grupo de turistas cujo idioma imediatamente reconheci. Quando soube que, para além de israelitas, eram descendentes de antigos habitantes de Castelo de Vide, chorei - por imaginar que houvesse entre eles algum familiar meu e pela violência que obrigou os antigos judeus a fugirem de Portugal ou a tornarem-se cristãos, separando-nos irremediavelmente.

Não sendo judeu, cristão ou praticante de qualquer fé, enojam-me todas as etnias, religiões, culturas ou comunidades que vivem e se afirmam pela exclusão. Dado que não me interessa, à partida, conhecer quem me repudia, sou capaz de chorar entre judeus em Castelo de Vide, mas não pretendo visitar Israel. Do mesmo modo, não tenho vontade de visitar os EUA governados por Trump, a Polónia ou a Hungria neofascistas, a Turquia, a Birmânia, o Sudão do Sul, a Venezuela, a Coreia do Norte, a Rússia ou a República Centro-Africana.

Também não pretendo regressar ao Brasil tão cedo. Amo o Brasil, amo-o há muito tempo e de uma forma sem explicações, mas detesto o país em que o Brasil está transformado, corrupto, golpista e com uma justiça arbitrária que não parece garantir nenhum tipo de equidade. É mais um sítio para não ir.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Donald Trump, uma definição (work in progress)

Mentiroso, arrogante, vigarista, trampolineiro, inadimplente, manipulador, inconsistente, aldrabão, gordo, nojento, intolerante, estúpido, seboso, alaranjado, ridículo, prepotente, xenófobo, imbecil, inconsequente, cara de caralho, falso, impostor, trapaceiro, embusteiro, intrujão, burlão, desumano, perigoso, putanheiro, Mussolini de carnaval, inconsciente, enganador, infiel, ignorante, incongruente, ilógico, inconveniente, impróprio, impreparado, indecente, energúmeno, indecoroso, intempestivo, batráquio, ectoplasma, sacripanta, coruja mal empalhada, verme, flibusteiro, troglodita, invertebrado, arlequim, palhaço.

Esta é uma lista em construção e que poderá nunca estar terminada.

Que os norte-americanos tenham eleito semelhante besta é um problema que lhes devia tocar só a eles.

Perde-se, na minha modesta opinião, demasiado tempo a tentar analisar as imbecilidades deste energúmeno. São apenas imbecilidades e, a bem da saúde mental dos povos, não se devia falar mais disso.

Praticante

Max Aub escreveu que às vezes é melhor ter graça do que ter razão. Concordo. Mas pratico cada vez menos.

terça-feira, 17 de julho de 2018

O único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado

Não tenho qualquer predileção especial pela mistura de erudição e escatologia (no sentido mais comum do termo), embora nada mo desaconselhe especialmente. A javardice em doses homeopáticas é, aliás, bastante libertadora.

Devo esta reflexão prévia, e respetiva profundidade, a uma frase de Julio Cortázar que li no romance Os Prémios e que anotei num documento word, para que ali, envolta de esquecimento e descaso, marinasse e adquirisse musgos e bolores, e talvez a condição de semente ou génese de ponderações e pensamentos mais vastos e vitais.

Considera a aludida frase, proferida por uma das personagens daquela ficção, que "os livros vão sendo o único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado". Trata-se, com efeito, de um dos melhores argumentos a favor da leitura e que talvez pudesse e devesse ser citado em eventuais campanhas de promoção do anacrónico objecto de papel e tinta.

Se a frase produz um certo efeito em favor do uso do livro e da literatura enquanto espaço de refúgio e evasão, sendo frequentemente mais relaxante e instrutivo do que umas férias em Bali com tudo incluído (até mesmo os outros turistas), não é menos verdade que não formula uma verdade absoluta. É frequentemente possível encontrar em casa outros locais "onde ainda se consegue estar sossegado", nomeadamente aquele que se usa para a prática de algumas abluções.

Ai que prazer, como diria Pessoa, ter um livro para ler e poder aceder ao suave benefício do corpo e da mente que proporciona a coincidência dos dois únicos lugares onde se pode estar tranquilo e alheado de tudo, longe, longe, longe, e dedicando aos aborrecimentos aquilo que eles merecem sem carecer de metáfora nenhuma.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Excesso de realidade*

Dobrei há muitos anos o canto de uma página da 22ª edição do livro que contém as “200 Crônicas Escolhidas” do escritor brasileiro Rubem Braga (1913-1990). No fólio marcado está o texto "Os Jornais", originalmente publicado em 1951 e que narra duas simples cenas do quotidiano. Termina assim: «Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redacção, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...».

A frase de Rubem Braga produz, é verdade, um certo efeito poético. Mas não passa de uma falácia. Os jornais (e também as televisões, as rádios e os sites) estão soterrados de vida e tresandam a uma realidade sórdida, suja e vil, muito semelhante àquela que, nos anos 1950, inspirou as melhores crónicas do também brasileiro Nélson Rodrigues (1912-1980): crimes passionais, raptos e violações, mulheres queimadas pelos maridos diante dos filhos, parricídios, vandalismo, cadáveres apodrecendo em casas abandonadas, corrupção e enriquecimento ilícito, gente que não tem onde tomar banho nem uma casa para morar.

Há tanta vida nos órgãos de comunicação social que, para escrever o parágrafo anterior, apenas necessitei de folhear uma única edição de um jornal diário do mês passado. Mas há dias piores. E pasquins ainda mais sugestivos e absolutamente empenhados em produzir um «jornalismo que se cruze com a vida das pessoas» (sobretudo naquilo que ela tem de mais desagradável e torpe). E existe sobretudo uma quantidade inacreditável de sites e edições online onde se tem acesso gratuito e instantâneo à repetição ad nauseam das mesmas notícias, profusamente comentadas por uma multidão igualmente viva e também mesquinha e analfabeta – um flagelo de gente incapaz sequer do pudor de se abster de redigir umas sucessões de palavras enraivecidas e que não chegam a compor frases seja em que idioma for.

Numa entrevista de 1991 ao Expresso, o escritor José Saramago (1922-2010) dizia que há momentos na história em que «a esperança ocupa o espaço todo». Este não é um desses momentos. Soterrado pelas cataratas de mediocridade, estupidez, vileza e imbecilidade que a comunicação social produz e reproduz a cada instante, qualquer indivíduo acordado, informado e livre de psicotrópicos tem grandes dificuldades para manter ao menos algum optimismo.


*Crónica ilustrada de Fevereiro na revista Notícias Magazine

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Muro das lamentações

A frase "não há muros suficientemente altos para parar estas correntes migratórias", proferida há dias por Barack Obama (e que, por estas ou outras palavras, tem sido repetida por dirigentes e personalidades do mundo civilizado), corresponde, no essencial, a uma falácia. Basta ver como o muro da Cisjordânia consegue manter os palestinianos afastados dos territórios ilegalmente ocupados por Israel, o mesmo país que os dirigentes e personalidades tanto gostam de proteger. A questão não devia, pois, ser a eficiência dos muros, mas a sua simples existência, independentemente da localização ou dos pretextos usados.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Isto é um assalto*

No início do mundo, e durante muito tempo, a terra e todas as coisas que sobre ela havia não tinham dono nenhum. Mas depois alguns homens, os mais fortes ou os mais pérfidos, inventaram a violência como forma de tomar posse – e o registo de propriedade para oficializar o esbulho. De então para cá, aquilo que pertencia a todos passou a servir para que alguns ficassem mais ricos e mais poderosos do que os outros.

A apropriação da terra e daquilo que nela existia – incluindo, durante muito tempo, os seres humanos que tinham o azar de lá estar –, e a cadeia de valor acrescentado que a propriedade gerou, constituíram, assim, uma espécie de génesis da civilização ocidental e do capitalismo. Não foi o melhor dos começos: filósofos como Santo Ambrósio, São Basílio Magno ou Pierre-Joseph Proudhon consideraram mesmo que a propriedade constitui um roubo, igualmente praticado por monarcas selvagens e pelo clero, que nem sequer se coibiu de lucrar alarvemente, e durante vários séculos, com a escravatura.

Os autores do assalto não se limitaram, todavia, a prosperar com ele. Criaram também mecanismos legais e éticos capazes de impedir que outros fizessem o mesmo. O Marquês de Sade explica-o de modo cristalino: «O roubo só é punido porque viola o direito de propriedade, ainda que este direito tenha na sua origem nada mais do que o próprio roubo».

Quase ninguém se atreve, pois, a lesar um grande proprietário, nem sequer ao abrigo do adágio segundo o qual «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Não faltam, todavia, exemplos de empresas e pessoas que continuam a apropriar-se de bens, recursos e propriedades que, sendo do Estado, deviam pertencer a todos os cidadãos. Beneficiam os usurpadores, para isso, da corrupção e/ou conivência de políticos e funcionários, e de figuras jurídicas tão burlescas como a usucapião, que parece uma cínica homenagem do legislador aos primeiros selvagens que se tornaram proprietários.

Embora a desigual distribuição da riqueza gerada ab initio pelo roubo da terra nunca tenha penalizado tantos indivíduos como hoje, o assunto quase não se discute. Entretemo-nos, em vez disso, com as férias dos famosos, os seus romances tumultuosos, as respetivas dietas, a substância dos abraços ou o último rebento da monarquia inglesa – apenas o mais recente de uma longa linhagem de larápios.

*Última Crónica Ilustrada que escrevi para a Notícias Magazine, publicada em Maio último

Comedores de lixo

De acordo com um estudo qualquer, citado num jornal português, "Donald Trump tornou-se o líder mundial mais seguido no Twitter em outubro de 2017, altura em que ultrapassou o Papa Francisco, o segundo líder mais visualizado". Trump terá, assim, 52 milhões de "seguidores" - a simples formulação desta frase é assustadora e motivo mais do que suficiente para manter afastada das redes sociais qualquer pessoa minimamente preocupada com a sua higiene básica.

O Porto deles

Odete Patrício, Álvaro Domingues e Rio Fernandes formulam aqui questões bastante pertinentes sobre o processo que está a permitir a construção de condomínios para ricos na escarpa da Arrábida, em terrenos cuja simples propriedade é duvidosa. São perguntas, digamos assim, jornalísticas, pelo menos se ainda existisse entre os praticantes da actividade alguma propensão natural para a formulação de perguntas incómodas para o burgomestre e para o gangue de bem nascidos que parece ter sequestrado a cidade do Porto, pondo-a ao serviço dos seus interesses particulares e do seu enriquecimento desmesurado.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A mentira da verdade

A simples ideia de executar um programa televisivo dedicado a assuntos da esfera da Filosofia parece, por si só, um propósito de alienados. Basta ver, porém, "A Mentira da Verdade" ("Mentira la verdade", no título original), a série argentina que passa antes do Jornal 2 da RTP, para que se perceba que pode ser feito e que é possível fazê-lo com qualidade, actualidade e de uma forma cativante. É provavelmente um dos programas mais interessantes da televisão portuguesa e, todavia, nunca ouvi ninguém discuti-lo ou conversar sobre ele. É até possível que ninguém o veja, eventualidade que não me espanta, não me aborrece e, muito menos, me escandaliza. Os indivíduos da espécie humana possuem, no geral, uma propensão natural para comer merda, gostar de merda e ter orgulho nisso. Não faltará muito, pois, para que voltemos todos a ser governados por fascistas tecnotrogloditas que farão o Big Brother do Orwell parecer uma brincadeira de crianças. Quase ninguém se há-de incomodar com tão pouco.