sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
O Supremo
O recente caso das putativas escutas envolvendo José Sócrates e Armando Vara, o banqueiro instantâneo, pôs a nu, ao menos, um facto que eu, até aqui, ignorava completamente: alguns colegas de trabalho mantêm contactos diários e privilegiados “com o supremo”. A Mariana liga para o supremo. O António também. O António, parece, chega ao cúmulo de falar para o supremo enquanto está na casa de banho, recorrendo ao telemóvel. Espero, a bem da urbanidade e da prevenção pan e epidémica, que o António lave as mãos antes de comunicar com tão elevadas instâncias.
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Eu quis apenas escrever sobre a literatura e a vida. O Mindelo é só um cenário. As mulheres são apenas uma bela circunstância
Muito obrigado João. Entre ser bestial ou besta, como sabes, vai, quase sempre, uma distância muito curta, um quase nada, uma questão de gestão de expectativas. Mas é sempre muito grato saber que aquilo que escrevo anda em tão boas companhias, já tão distante daquilo que fui capaz de imaginar. Obrigado mesmo. Por tua culpa, creio, pequei hoje outra vez: enchi-me de vaidade e soberba e escrevi um capítulo inteiro. Mau.
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
A Mosca

Numa entrevista hoje publicada no Correio da Manhã, o realizador David Cronenberg revela que, em tempos, julgou que viria a ser escritor. Eu, confesso, tive também alguma esperança. Mas, tal como sucede no filme de Cronenberg que adapta um livro de Franz Kafka, acordei certa manhã e percebi que, em vez disso, me havia transformado num insecto bastante repelente.
Gostar de vacas

Quando era pequeno, ia muitas vezes à aldeia da minha mãe, Avitoure (de Baixo). No início nem sequer havia estrada para lá chegar e tínhamos que apear-nos do carro em Travassos e, depois, seguíamos a pé por um caminho de pedras muito irregulares onde transitavam, às vezes, carros puxados por vacas, com rodas de madeira que chiavam tremendamente. A memória dessas viagens é como uma máquina do tempo na qual gosto de embarcar em tardes de maior melancolia.
Quando era pequeno, nada do que havia na aldeia me parecia muito estranho: as vacas, as barbas de milho, as couves tronchudas, as laranjas amargas, as orações para talhar os pulsos abertos, as maçãs supriega e as raparigas que engravidavam no meio dos campos faziam parte de um mundo que me era próximo. Mesmo morando na cidade, tinha um galinheiro no fundo do quintal, uma ramada por cima do poço, uma casota com coelhos, peixeiras que apregoavam a “bibinha!” e hortas ao fundo da rua, à margem da Linha da Póvoa. Mas agora as minhas memórias desse tempo, que não são de há tanto tempo assim, devem parecer bestialmente bizarras aos meus filhos, habituados a ver tudo na internet e a ter o Metro do Porto a circular onde antes passava uma automotora vermelha e branca que apitava na passagem de nível. Eles nunca deram de comer às vacas ruivas do tio Idalino e não podem imaginar o maravilhoso sabor que tem o leite antes de ser pasteurizado e metido em pacotes.
Sei que estou a ficar velho quando penso nestas coisas e começam a ocorrer-me expressões como “no meu tempo...”. Ou quando me emociono ao ver uma vaca. Uma vez, na ilha de S. Miguel, fui cercado por dezenas de vacas malhadas que pareciam ter decidido libertar-se de todas as excreções ao mesmo tempo, precisamente quando passavam pela janela do carro e me olhavam de lado, bovinamente. Outra pessoa talvez sentisse repulsa – eu emocionei-me como alguém que regressa a casa ao fim de muito tempo.
Não sei como é com os outros amantes da carne, mas eu respeito muito todos os animais que ingiro às refeições. Às vacas, para além disso, vejo-as e ponho-me nostálgico - como quando dormi três noites no Palmarejo, na cidade da Praia, em Cabo Verde. O Palmarejo é uma zona residencial de classe média-alta, onde moram burgueses e altos quadros do Estado, mas, quando descia com o fotógrafo Adriano Miranda para tomar o pequeno-almoço na minúscula esplanada da padaria que havia no prédio onde estávamos alojados, passavam vacas circulando no empedrado da rua e era bonito estar ali e vê-las obrigando os carros a desviarem-se. Percebi que alguns cabo-verdianos não gostavam de ter os lentos bovinos circulando por ali; que se envergonhavam por mostrar cena tão pouco moderna na capital do país. Mas, vendo passar aquelas vacas ruivas, iguais às do meu tio Idalino, eu fiquei a pensar que aquilo era como estar em casa sem estar em casa; que era como estar em casa noutro tempo que já não é este; e que gostava que ainda houvesse vacas na minha cidade.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 11 de Agosto de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Apito dourado
Não me pronunciei em tempo útil sobre o extraordinário espectáculo proporcionado por Linda Reis numa discoteca de Amares, mas, como diria Bartleby, o escrivão, preferi não o fazer, em parte por falta de tempo, em parte para que não possam acusar-me de graves manifestações de depravação. Esperei, portanto, que alguém mais douto acrescentasse uma nota de erudição ao assunto e, claro, que algum tipo de confirmação permitisse extrair uma lei geral relativa ao peculiar e imaginativo emprego dos genitais na província. Não perdi, obviamente, pela demora, pois o Jornal de Notícias de hoje dá à estampa o não menos incrível caso de uma cidadã estrangeira que, mal se achou na nossa bem amada província, e mais concretamente na Moita do Ribatejo, encontrou forma de guardar “onze jóias em ouro e um relógio Omega Speed Master” na própria vagina. Espero, apesar de tudo (e de alguma semelhança musical) que este não seja mais um caso judicial a envolver Valentim Loureiro e o árbitro Jacinto Paixão. Mas nunca se sabe.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Homenagem
Não me ocorre melhor forma de homenagear o escrivão Bartleby, a personagem de Melville, com quem pretendo acamaradar nos próximos dias: não escreverei e pondero mesmo agir, no trato social, ao arrepio de toda a e qualquer lógica, fazendo provavelmente coisas bastante disparatadas. Espero que se note a diferença.
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Paixão solitária
Ainda não li o Manual da Paixão Solitária, mas, tanto quanto consigo perceber, Moacyr Scliar invoca, neste romance, a passagem do Velho Testamento em que Onan, filho de Judá, se recusa a engravidar Tamar, preferindo deixar o sémen correr para a terra e inaugurando, assim, o onanismo. A expressão passou, entretanto, a descrever todo e qualquer acto de amor solitário, aquilo a que Alexandre O'Neill se referia recorrendo à doce expressão “esgaramantear a laustríbia” (e que um amigo meu, mais prosaico, descrevia como um namoro com a irmã da canhota).
Somos, enquanto rapazes novos, um pouco soezes e, vá lá, porcos, de pouco nos valendo, nessa altura, possuir a erudição suficiente para descrever o vil pecado com uma referência ao Génesis e a um –ismo. Uma punheta é apenas uma punheta, não tem mal nenhum e alivia, mas o mundo rodeia-nos e ameaça-nos: que vicia, que provoca borbulhas, que faz crescer pêlos na palma da impura mão, que provoca a cegueira do pecador. E, mesmo assim, esgaramanteamos insensata e temerariamente a laustríbia de cada dia.
Creio que de nada servirão, portanto, os alertas segundo os quais o Viagra pode também induzir a perda de visão em diferentes graus ou mesmo provocar visão azulada. Quando se trata de esgaramantear, não há mito urbano que resista às naturais pulsões. Visão azul? Não deve ser pior do que aquelas televisões a preto-e-branco de antigamente com um plástico azul à frente, para fazer de conta que eram a cores. Há sempre quem goste.
Somos, enquanto rapazes novos, um pouco soezes e, vá lá, porcos, de pouco nos valendo, nessa altura, possuir a erudição suficiente para descrever o vil pecado com uma referência ao Génesis e a um –ismo. Uma punheta é apenas uma punheta, não tem mal nenhum e alivia, mas o mundo rodeia-nos e ameaça-nos: que vicia, que provoca borbulhas, que faz crescer pêlos na palma da impura mão, que provoca a cegueira do pecador. E, mesmo assim, esgaramanteamos insensata e temerariamente a laustríbia de cada dia.
Creio que de nada servirão, portanto, os alertas segundo os quais o Viagra pode também induzir a perda de visão em diferentes graus ou mesmo provocar visão azulada. Quando se trata de esgaramantear, não há mito urbano que resista às naturais pulsões. Visão azul? Não deve ser pior do que aquelas televisões a preto-e-branco de antigamente com um plástico azul à frente, para fazer de conta que eram a cores. Há sempre quem goste.
Do Brasil
A Câmara Brasileira do Livro anunciou ontem à noite o vencedor do Prémio Jabuti para o melhor livro de ficção de 2008, distinguindo Manual da Paixão Solitária, do gaúcho Moacyr Scliar, livro que ficou também com o galardão destinado ao melhor romance. Moacyr tinha já conquistado o Jabuti por duas vezes: em 1993 conquistou o prémio para a categoria romance com Sonhos Tropicais e, em 1998, O Olho Enigmático conquistou o prémio na categoria contos. Em Portugal, estão publicados A Mulher que Escreveu a Bíblia, O Exército de Um Homem Só, A Majestade do Xingu e Os Leopardos de Kafka.
Outra boa novidade é o lançamento do novo livro de Rubem Fonseca, agora na editora Agir. O filme de apresentação de O Seminarista pode ser visto aqui, com locução do próprio Fonseca.
Outra boa novidade é o lançamento do novo livro de Rubem Fonseca, agora na editora Agir. O filme de apresentação de O Seminarista pode ser visto aqui, com locução do próprio Fonseca.
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Jaime Ramos
Gramo à brava o inspector Jaime Ramos e parece-me que gosto ainda mais dele como está agora, debilitado pela doença, mais velho, mais melancólico, permitindo o acosso suave das nostalgias, arrastando-se um pouco, quase dócil, deixando-se cuidar. Hei-de, um dia destes, fazer como ele e ir apanhar chuva para a Ponte da Arrábida no meio da tempestade, vendo as luzes das cidades, lá em baixo, desenhando os contornos do rio. Tenho andado a namorar o sítio.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Das favas
É necessária, creio, alguma ponderação. Algum bom senso. Certo voluntarismo. Pode olhar-se para o lamentável caso das favas com pessimismo, sim. É um sinal. Um mau sinal, com efeito. Mas enquanto este cavalheiro, e mais este, se lamentam, eu, muito simplesmente, meti as mãos na massa. As favas eram daquelas congeladas, do supermercado, os ovos não eram famosos (tenho que pressionar mais amiúde os meus traficantes de produtos caseiros), mas o chouricinho veio de Pitões das Júnias, rijo e curado nos rigores da serra. Não seriam as melhores favas do mundo, mas, cavalheiros, estavam bem boas. Regalei-me.
Cegueira

Aquilo de que me lembrei quando, há dias, li os depoimentos de alguns dos pacientes que cegaram após terem sido tratados a uma doença ocular num hospital de Lisboa (“No domingo, por volta da uma da tarde, perdi completamente a visão. Fiquei assim, como ainda estou agora: cego”) foi do romance Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Bem sei que não há quase nada em comum entre a pandémica e parabólica cegueira branca do livro que Fernando Meirelles adaptou ao cinema e a acidental (e trágica) perda da visão dos utentes do Santa Maria, mas aquela frase, escrita assim, precisa e seca, pareceu-me que podia perfeitamente constar do romance de Saramago – quase gémea, afinal, daquela, “estou cego”, com a qual termina o segundo parágrafo do Ensaio.
Ignorarei, desta vez, a inquietante estranheza que há nisto de a realidade tender a imitar a ficção, mas não tenho como passar ao lado da bizarria de que sou acometido sempre que a literatura encontra forma de se insinuar no meu quotidiano, regendo-o como a um títere desprovido de livre arbítrio. Ainda impressionado pelo episódio que cegou seis pessoas num só dia e que, pareceu-me, simulava quase perfeitamente o início de Ensaio sobre a Cegueira, dei por mim a ler Barroco Tropical, o mais recente romance do angolano José Eduardo Agualusa, narrado precisamente por um escritor cego de um olho, sobre o qual usa uma pala semelhante à dos antigos piratas da perna-de-pau. A dada altura, Bartolomeu Falcato perde também completamente a visão, como mizaru, o macaco japonês que cobre os olhos para não ver (gémeo do que tapa os ouvidos para não ouvir e daquele que tapa a boca para não falar).
Pode argumentar-se, claro, que não há nisto nada de extraordinário e que a cegueira de Falcato, atingido pelo estilhaço de uma mina, não pode ser comparada à do médico do livro de José Saramago ou à de Walter Lago Bom, o cozinheiro que o misterioso frasco de Avastin deixou sem visão. Mas Walter Lago Bom pareceu-me, de repente, um nome particularmente adequado para uma personagem de um romance de Agualusa; que podia até ser esse o verdadeiro nome de Rato Mickey, o antigo sapador António Taborda, que, em Barroco Tropical, perde os dois olhos e a face na acidental explosão da mina que só parcialmente atingiu Falcato e que, desde o Carnaval seguinte, usa uma máscara da Disney com a qual sobressalta e arrepia os estrangeiros.
Devia, antes, concentrar-me na personagem da cantora Kianda, essa mulher tão fácil de amar (“Decifra-me ou devoro-te”, promete a Falcato), mas estou outra vez enredado nestas confusas coincidências e, talvez por isso, penso em Rato Mickey, em Walter Lago Bom, no médico de Saramago, em Bartolomeu Falcato e nas muitas formas de alguém contrair a cegueira para não ver o mundo tão claramente como o via a mulher do médico. Pondero nisto e ocorre-me ainda essa espécie de vertiginosa cegueira que é beijar alguém com os olhos fechados, longamente e sem pressa, como se não houvesse mais mundo lá fora e tudo, afinal, se pudesse resumir a isto. E é bom. É muita boa esta cegueira.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Julho de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa. Estão avisados. Ser-me-ia agradável poder manter este trabalho.
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
Tarja negra
Depois do inquietante caso de Braga, os serviços de vigilância do Teatro Anatómico detectaram um episódio semelhante na Póvoa de Varzim. A menos que haja duas pessoas suficientemente distraídas para deixarem a internet ligada 24 horas por dia, abandonando o electrodoméstico às questionáveis delícias deste blogue, temo que as autoridades venham a concluir que o Teatro Anatómico é prejudicial à saúde, sendo susceptível de provocar a morte súbita dos seus leitores. Vou preparar uma tarja negra para colocar no topo.
Anónimos do século XXI

Li em idade tenra, e com perturbada volúpia, as memórias eróticas de Fanny Hill, obra publicada sob anonimato no século XVIII (sabe-se agora que o livro foi escrito por um tal John Cleland enquanto esteve preso em Londres). Outros grandes momentos da literatura erótica, como Teresa Filósofa, Escola de Raparigas, Os Desejos de Eveline ou Memórias de uma Princesa Russa, justificam, assim, alguma simpatia pela figura do “anónimo do século XVIII” (bem como pelo anónimo do século XIX e dos seguintes). Confesso, porém, que, numa época em que, a pretexto da responsabilização e da transparência dos métodos, os jornalistas são incitados a não citar fontes anónimas (ou não identificadas) e a assinarem as respectivas prosas, para que não pareçam filhas de pai incógnito, me provoca alguma confusão que os editoriais dos jornais possam ser obra de ilustres anónimos do século XXI.
domingo, 1 de Novembro de 2009
Outono

Agora escurece cedo, sim. Já estava escuro quando o dia nasceu (suponho, não vi). O dia foi todo escuro, aliás. Choveu muito. Havia uma neblina rija e os círios não devem ter chegado a arder nos cemitérios. Bebi vinho e anestesiei-me para o que faltava da tarde. Dormi um pouco diante da televisão (devia ter aproveitado para terminar o O Mar em Casablanca, mas fica para outro dia, quando a roupa secar no varal). Podia ter sido, enfim, um bom dia para escrever qualquer coisa, uma página decente ou uma palermice qualquer para o blogue. Mas não me apeteceu.
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Fantasma que fuma

Depois de um lamentável fracasso com um filme a cores, comprei ontem, finalmente, um Kodak Tmax a preto-e-branco para voltar a testar a Zorki-4. Fui, outra vez, buscar a máquina ao velho aparador de madeira pesada, à gaveta envidraçada onde também estão guardadas as cassetes que compuseram a banda sonora da minha adolescência. O cheiro a tabaco que veio agarrado à capa de couro grosso da máquina fotográfica pareceu-me mais intenso do que me recordava, como se o anterior proprietário – que imagino ter sido um velho moscovita, amigo do vodka e da melancolia, habitando um pequeno apartamento mal iluminado, repleto de livros dispostos em pilhas irregulares – tivesse estado a fumar dentro da minha casa há pouco tempo. Quando comprei uma Zorki, não me ocorreu que tivesse adquirido também um fantasma russo.
Elche
A exposição J. Laurent e Portugal - Fotografia do século XIX, patente no Centro Português de Fotografia, tem bastante interesse documental, ou não pudesse ali avistar-se como era a marginal ribeirinha do Porto em 1869, com a Alfândega Nova em construção e o velho Palácio de Cristal erguendo-se na arriba de Massarelos, ou verem-se os príncipes portugueses vestidos e penteados como se fossem menininhas loiras. A imagem que mais me prendeu a atenção, porém, foi uma vista de 1870 de um canal de irrigação em Elche, Alicante, Espanha. Os muros do canal, a cortina de palmeiras altas ou não sei muito bem o quê fizeram-me recordar a levada da Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, como se alguma coisa muito ténue e perturbadora pudesse ligar Elche do século XIX e a Cidade Velha do século XXI .
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Saudades de Paris

Bem curioso é o funcionamento do mecanismo que regula a associação de ideias e gera as belas coincidências. Mal tinha, um dia destes, acabado de ler a passagem de Fiesta na qual Jake Barnes passeia pela parisiense Île de Saint-Louis, quando, pela noite, escutei a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade falar na televisão sobre o acordeonista de rua (húngaro, parece) que ela se habituou a escutar quando atravessava uma das pontes de acesso à ilha, a caminho da casa onde já não mora. Lembrei-me, acto contínuo, da minha única passagem por Saint-Louis, num domingo à tarde, e fui mordido pela língua bífida da nostalgia e da saudade. Logo me ocorreu também o conto Las Babas del Diablo, do argentino Julio Cortázar, que deu origem ao filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, e cuja acção, ao contrário do que sucede no filme, decorre precisamente na pequena ilha onde Mayra Andrade morou durante oito anos, salvo erro.
Quem perceba um pouco o funcionamento desregrado do cérebro de certos parasitas do alheio (normalmente designados pela equívoca expressão “escritor”), compreenderá que a semana estava definitivamente comprometida para a lida das questões comuns e mais talhada para o devaneio. Um tema tocado a meio de um concerto de jazz entre o arvoredo de Serralves obrigou-me a recordar a infinita melancolia de Round Midnight, o filme de Bertrand Tavernier sobre as ruínas de um velho saxofonista norte-americano em Paris. Depois, à noite, a Orquestra Jazz de Matosinhos tocou duas vezes (duas!) April in Paris durante o concerto dedicado à big band de Count Basie - e fazia ainda mais sentido que dançássemos em vez de ficarmos sentados nas cadeiras do Teatro Constantino Nery, que Mayra Andrade ali estivesse e pudéssemos dançar juntos, ela sorrindo daquele modo encantador e muito luminoso que, quando passa pela Pont de Sully, deve fazer com que seja sempre Abril em Paris outra vez.
Imagino, pois, esse acordeonista húngaro que, durante oito anos, viu passar regularmente Mayra Andrade, e que, vendo-a, não dizia uma palavra e apenas dedilhava uma ou outra daquelas romanticíssimas canções que compõem a mágica e vaporosa banda-sonora de Paris; imagino-o e prefiro que seja, antes, Roberto Michel, o tradutor chileno do conto de Córtazar, agora acordeonista amador (em vez de fotógrafo nas horas vagas), que vem para a rua tocar melodias para combater o vazio e a excessiva imobilidade da máquina de escrever Remington (“petrificada com esse aspecto duplamente quieto que têm as coisas móveis que se não movem”) e assiste, não a um homicídio, mas à fulguração quotidiana de Mayra Andrade vinda dos lados do Boulevard Saint-Germain. E que, em vez de um conto muito angustiado, Cortázar escreveria antes sobre o suave milagre que é ver circular a menina crioula pelas ruas de Paris, com olhos muito grandes, em cuja alvíssima córnea há um ponto negro que os torna ainda mais únicos. Como um dia de sol em Paris.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 21 de Julho de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa. Ficam avisados.
domingo, 25 de Outubro de 2009
Uma ideia
Tenho, às vezes, excelentes ideias, mas, sendo, como são, excelentes ideias minhas, sucede-lhes pecarem por ser também algo tardias e, quando se vai a ver bem, não são, afinal, tão boas ideias quanto isso. Por exemplo: ocorreu-me que poderia ser bastante divertido estar a escrever durante a noite passada, no momento, sempre misterioso, em que o relógio anda para trás e, sendo uma da manhã, volta a ser meia-noite outra vez. Imagino isto: que estava a escrever qualquer coisa entre a meia-noite e a uma, febril e inspiradamente (como sucede aos escritores a sério), e que, nesse intervalo, chegava a criar alguma coisa particularmente brilhante ou, vá lá, ao menos um pouco interessante (sonhar não custa nada). Estava, pois, escrevendo, castigando o teclado do computador, uma frase atrás da outra, todas com nexo e sentido, entusiasmando-me. À uma da manhã, sem ter noção das horas, recosto-me na cadeira, passo a mão pelo cabelo, acendo uma cigarrilha e pisco os olhos no exacto instante em que volta a ser meia-noite. Fecho, pois, os olhos apenas durante uma fracção de segundo, mas, quando volto a abri-los e a olhar para o monitor, constato que se apagaram todas as letras, pontos, vírgulas, parêntesis e travessões – gosto de escrever com parêntesis e travessões - que tinha estado a juntar desde a meia-noite anterior. Reparo nisto e não tenho como saber se aconteceu de facto ou se estou a inventá-lo agora mesmo.
sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Alice do outro lado do espelho

Que não haja a mais pequena dúvida. Este é um post para guardar e mostrar aos meus netos (e às minhas netas), na exacta medida em que consubstancia um momento absolutamente irrepetível e que, até esta manhã, julgava pertencer à esfera da pura impossibilidade – mais precisamente o momento em que o meu nome e o do Chico Buarque surgem na mesma frase sem ser para estabelecer algum tipo de comparação negativa do género “o Marmelo jamais será o Chico Buarque” ou “o Chico Buarque eu sei quem é, o Marmelo é que, sinceramente, não estou a ver”. Consumado o improvável instante, convirá agora ter em conta que Alice, a autora da extraordinária façanha, é o nome de uma bem conhecida personagem de ficção, a qual atravessou um espelho e ficou a viver num mundo completamente obnóxio e destrambelhado. Talvez isto explique alguma coisa.
Falência ou maldição
Só hoje é que dei por isto. Lamento muito. Publiquei com a Quasi três livros (O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo, O Peixe Baltazar e Uma Família Inglesa adaptado para crianças). Fico um pouco sem ar: em menos de um ano, é a minha segunda editora que declara falência (antes foi a Campo das Letras). Temo pelas outras que me publicaram, a Asa, a Caminho, a Quetzal. Ocorre-me que, se calhar, transporto algum tipo de maldição. Talvez escreva um livro sobre isto: um autor funesto e negro, amaldiçoado, que leva à falência todas as editoras em que publica os seus livros.
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