Uma mulher que estava em coma há dez anos, internada numa clínica de Phoenix, no Arizona, deu à luz uma criança no dia 29 de Dezembro de 2018. O bebé nasceu saudável. O pessoal médico só se apercebeu de que a mulher estava grávida e a parturejar porque as enfermeiras a ouviram gemer.
A polícia está a investigar o caso e serão feitas análises de ADN para descobrir quem engravidou a mulher em coma, assim consumando uma relação sexual não consentida. O responsável pelo hospital, Bill Timmons, demitiu-se e descreveu o caso como "uma situação absolutamente horripilante", que devastou todos os envolvidos.
Apesar da quadra festiva que vigorava à data do parto, ainda não ocorreu a ninguém com dois dedos de testa que a gravidez da mulher em coma possa ter resultado de um episódio de imaculada concepção. Os reis magos também ainda não foram avistados nas areias do vasto deserto do Arizona.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
Coletes amarelos
As manifestações convocadas para hoje pelo movimento Coletes Amarelos Portugal constituiu um enorme sucesso. Bem sei que eram, ao todo, meia-dúzia de gatos pingados sem qualquer plataforma reivindicativa minimamente coerente, mas não houve televisão, rádio ou jornaleco online que não tenha dedicado ao fenómeno vários e elucidativo directos a partir dos mais diversos pontos do país. Impressiona como uma mão cheia de animadores de claque e outros tantos ressabiados das ditas redes sociais conseguem incomodar tão significativamente a vida dos cidadãos e contribuintes comuns, polícias e jornalistas incluídos (os quais, aliás, estavam presentes nas manifestações em muito maior número que o dos manifestantes propriamente ditos).
Não menos impressionantes eram as palavras dos manifestantes que se escutavam nas já referidas reportagens, nas quais se misturavam a ignorância pura e simples, a falta de informação, o desequilíbrio psiquiátrico mais básico, os lugares-comuns contra os políticos, a desconfiança relativamente à banca, os insultos banais, mero aproveitamento por parte de outros movimentos de contestação social e um ou outro descontentamento justo, ali transformados, porém, em desabafos um pouco desfasados do cenário paranormal instalado. O que querem, afinal, os coletes amarelos? Ninguém parece ter a mais pálida ideia. Tudo e mais um par de botas? Nada ao certo?
O único traço comum aos vários manifestantes que escutei consistia, aliás, no uso do colete amarelo que serve para mudar pneus furados na estrada. Graças ao avassalador impulso da mais chã imitação, um punhado de portugueses pôde assim desfrutar do poder de incomodar o pagode e de falar para os microfones da televisão, trazendo o mais sórdido das redes sociais para a luz do dia. Equacionei, de resto, juntar-me ao protesto, reivindicando um dia de manifestação mais soalheiro ou no qual, ao menos, não chovesse. Tenho a certeza de que a culpa é do governo.
Não menos impressionantes eram as palavras dos manifestantes que se escutavam nas já referidas reportagens, nas quais se misturavam a ignorância pura e simples, a falta de informação, o desequilíbrio psiquiátrico mais básico, os lugares-comuns contra os políticos, a desconfiança relativamente à banca, os insultos banais, mero aproveitamento por parte de outros movimentos de contestação social e um ou outro descontentamento justo, ali transformados, porém, em desabafos um pouco desfasados do cenário paranormal instalado. O que querem, afinal, os coletes amarelos? Ninguém parece ter a mais pálida ideia. Tudo e mais um par de botas? Nada ao certo?
O único traço comum aos vários manifestantes que escutei consistia, aliás, no uso do colete amarelo que serve para mudar pneus furados na estrada. Graças ao avassalador impulso da mais chã imitação, um punhado de portugueses pôde assim desfrutar do poder de incomodar o pagode e de falar para os microfones da televisão, trazendo o mais sórdido das redes sociais para a luz do dia. Equacionei, de resto, juntar-me ao protesto, reivindicando um dia de manifestação mais soalheiro ou no qual, ao menos, não chovesse. Tenho a certeza de que a culpa é do governo.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Imaginar demais
O título na primeira página do jornal, em letras brancas sobre um fundo rubro, prometia: "Casal de reformados usa cruzeiros de luxo para traficar cocaína". Imaginei os dois velhotes de camisas havainas e óculos de sol, com chapéus de palha, vendendo amistosas doses de droga ao balcão das esplanadas do navio, os outros velhos fazendo fila para comprar o pó que depois cheiravam sem grandes cautelas.
A vida, eles sabem, já não vai durar muito e o melhor a fazer é aproveitar o cruzeiro até à última gota. As piscinas do cruzeiro enchiam-se de corpos enrugados e festivos que dançavam ao som de música tecno e se roçavam sem decoro nenhum. Pela noite, após uma sesta antes do jantar, o ambiente orgíaco repetia-se no salão de baile, de onde alguns velhotes saíam para copular nos corredores dos camarotes, nas piscinas, na casa das máquinas, experimentando uma liberdade definitiva e, de calhar, final. Talvez alguns morressem a bordo, vítimas de excesso de felicidade - e, por isso, os cadáveres eram desembarcados com embaraço, devido aos sorrisos libidinosos que os velhos mortos levavam nos lábios.
Não devia, por tudo isto, ter lido a notícia nas páginas interiores, a qual só serviu para demonstrar o quanto havia imaginado demais. Os dois velhos detidos, septuagenários mesquinhos e demasiado ambiciosos, limitaram-se, afinal, a receptar numa paragem das Caraíbas cocaína no valor de 63 milhões de euros, a qual se destinava a ser traficada na Europa, após o desembarque. Foram detidos em Lisboa. Agora, na catacumba onde vão esperar pelos trâmites judiciais, talvez lamentem não ter cheirado a coca toda em alto mar, ao sol, bebendo daiquiris na borda da piscina.
A vida, eles sabem, já não vai durar muito e o melhor a fazer é aproveitar o cruzeiro até à última gota. As piscinas do cruzeiro enchiam-se de corpos enrugados e festivos que dançavam ao som de música tecno e se roçavam sem decoro nenhum. Pela noite, após uma sesta antes do jantar, o ambiente orgíaco repetia-se no salão de baile, de onde alguns velhotes saíam para copular nos corredores dos camarotes, nas piscinas, na casa das máquinas, experimentando uma liberdade definitiva e, de calhar, final. Talvez alguns morressem a bordo, vítimas de excesso de felicidade - e, por isso, os cadáveres eram desembarcados com embaraço, devido aos sorrisos libidinosos que os velhos mortos levavam nos lábios.
Não devia, por tudo isto, ter lido a notícia nas páginas interiores, a qual só serviu para demonstrar o quanto havia imaginado demais. Os dois velhos detidos, septuagenários mesquinhos e demasiado ambiciosos, limitaram-se, afinal, a receptar numa paragem das Caraíbas cocaína no valor de 63 milhões de euros, a qual se destinava a ser traficada na Europa, após o desembarque. Foram detidos em Lisboa. Agora, na catacumba onde vão esperar pelos trâmites judiciais, talvez lamentem não ter cheirado a coca toda em alto mar, ao sol, bebendo daiquiris na borda da piscina.
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Coligação infame
Ainda a propósito deste post, devo fazer alguma justiça aos deputados socialistas. Propuseram a redução do IVA das touradas (e também uma palhaçada qualquer com velcros), mas nem se dignaram a votá-la favoravelmente. A coisa, porém, vai mesmo acontecer, graças ao voto conjugado do CDS, do PSD e do PCP, a mesma coligação infame que se tinha juntado para impedir o direito a uma morte digna, planeada e de cabeça erguida. Fico a saber com quem não posso contar sempre que estiverem em causa avanços civilizacionais, respeito pela liberdade individual e o supremo direito à soberania sobre o meu corpo.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Uma questão de fé
O indivíduo desgovernado do penteado esquisito não acredita nas alterações do clima. Viktor Orban não acredita no liberalismo europeu. Os cristão não acreditam em Alá. Os muçulmanos não acreditam no menino jesus. Os extirpadores sauditas não acreditam no Estado de Direito. O terceiro Kim não acredita na liberdade. Maduro não acredita na Democracia ocidental. Xi Jinping também não. Theresa May não acredita na Europa. Assunção Cristas não acredita na liberdade individual. O crentes não acreditam na evolução das espécies. Os comunistas não acreditam no capitalismo. Os autarcas não acreditam que as estradas caiam. Os governos não acreditam na oposição. Rui Rio não acredita que os seus amigos dão ordem para validarem a presença no parlamento sem lá porem os pés.
É muito difícil entendermo-nos quando tudo pode ser confundido e transformado numa questão de fé. Sinto falta de pessoas que sejam capazes de utilizar o cérebro.
É muito difícil entendermo-nos quando tudo pode ser confundido e transformado numa questão de fé. Sinto falta de pessoas que sejam capazes de utilizar o cérebro.
quarta-feira, 21 de novembro de 2018
Thin red line
Passei há coisa de dois anos na estrada que esta semana ruiu entre Vila Viçosa e Borba. Embora tenha percebido que havia pedreiras de mármore de ambos os lados da estrada, só compreendi o risco que havia corrido quando, no último Verão, a transmissão em directo da Volta a Portugal em Bicicleta mostrou imagens aéreas da inacreditável escarpa que ali estava criada, uma fina tira de estrada entre dois buracos gigantescos.
Agora que a estrada caiu, não falta quem aponte responsáveis e garanta que já tinha alertado para o perigo. Haverá sempre o autarca que não mandou fechar a estrada a tempo de evitar o desastre, os técnicos que atestaram a segurança da exploração de mármore naquelas incríveis condições, os responsáveis do organismo público que licencia as pedreiras. Talvez tenham todos as mãos proverbialmente untadas ou sejam, pelo menos, cúmplices da tragédia, mas tenho ouvido falar muito pouco dos proprietários das pedreiras, os quais, movidos pelo lucro a todo o custo, criaram a insustentável parede que agora ruiu sob a estrada, causando não se sabe ainda quantas vítimas. E foram, afinal, os únicos que realmente lucraram com estas mortes.
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
Proposta de alteração na especialidade
Depois dos moches nos festivais de verão e da carnificina de animais em redondel público, também o presidente da Liga de Clubes Profissionais considera "inexplicável a exclusão do futebol" da lista de atividades que pagarão IVA a uma taxa reduzida. Trata-se, com efeito, de um escândalo.
Aos perdulários deputados do PS que pretendem que os bilhetes para as touradas apenas paguem 6% de IVA (contra os 13% que pagam actualmente e os 23% a que está sujeito um bem tão essencial como a eletricidade), e que até poderão ponderar o alargamento da benesse ao futebol, permito-me, pois, recordar outros bens de primeira necessidade cuja fiscalidade talvez seja conveniente desagravar: as tochas pirotécnicas que servem para galvanizar os atletas profissionais (e, de vez em quando, também para ensiná-los quem manda na Juve Leo), o vestuário dos toureiros e forcados amadores, o pensativo tabaco que relaxa e inspira os artistas, a factura das barbearias onde os futebolistas trocam de penteado, as carabinas de caça, os zagalotes, os bilhetes para o circo, as fichas para jogar matraquilhos, a roupa dos anões acrobatas, a assinatura da TV 7 Dias, as portagens da auto-estrada para Fátima, as gravatas de seda, a contratação de anúncios de relax, o vinho verde... É uma contribuição modesta, e limitada, mas estou certo de que a proposta de alteração ao orçamento dos deputados do PS ainda pode ser muito melhorada.
Se calhar já não vão a tempo de criar um bolsonaro em condições, mas talvez ainda sejam capazes de ressuscitar um Rui Rio qualquer.
Aos perdulários deputados do PS que pretendem que os bilhetes para as touradas apenas paguem 6% de IVA (contra os 13% que pagam actualmente e os 23% a que está sujeito um bem tão essencial como a eletricidade), e que até poderão ponderar o alargamento da benesse ao futebol, permito-me, pois, recordar outros bens de primeira necessidade cuja fiscalidade talvez seja conveniente desagravar: as tochas pirotécnicas que servem para galvanizar os atletas profissionais (e, de vez em quando, também para ensiná-los quem manda na Juve Leo), o vestuário dos toureiros e forcados amadores, o pensativo tabaco que relaxa e inspira os artistas, a factura das barbearias onde os futebolistas trocam de penteado, as carabinas de caça, os zagalotes, os bilhetes para o circo, as fichas para jogar matraquilhos, a roupa dos anões acrobatas, a assinatura da TV 7 Dias, as portagens da auto-estrada para Fátima, as gravatas de seda, a contratação de anúncios de relax, o vinho verde... É uma contribuição modesta, e limitada, mas estou certo de que a proposta de alteração ao orçamento dos deputados do PS ainda pode ser muito melhorada.
Se calhar já não vão a tempo de criar um bolsonaro em condições, mas talvez ainda sejam capazes de ressuscitar um Rui Rio qualquer.
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
A tecnologia é bestial, o problema são as pessoas
Em 1930, década de péssima memória, os fascistas ainda tiveram de fazer algum esforço para conseguirem que os idiotas úteis votassem neles. Hoje nem precisam de se aborrecer com isso. Um qualquer algoritmo trata do assunto e o fascista de serviço nem sequer precisa de sair de casa para fazer campanha eleitoral.
De acordo com uma notícia que hoje li, não faltará muito também para que os fascistas e outros cabrões possam igualmente circular pelas estradas ou pelos ares sem qualquer preocupação com acidentes: os veículos conduzir-se-ão sozinhos e, em caso de conflito de tráfego, o algoritmo matará os mais pobres, os mais fracos, os doentes, os velhos, os pretos, os judeus, os comunistas... É apenas uma questão de tempo para que mais esta maravilha se transforme em realidade.
P.S.: hoje voltei a ler a expressão "país irmão" para designar o Brasil. Senti um nó no estômago (para não sair do beco dos lugares comuns). Eu cá não sou irmão de nenhum fascista ignorante filho da puta, incapaz de perceber a diferença entre um partido (apesar de tudo) democrático e uma praga de proporções bíblicas.
De acordo com uma notícia que hoje li, não faltará muito também para que os fascistas e outros cabrões possam igualmente circular pelas estradas ou pelos ares sem qualquer preocupação com acidentes: os veículos conduzir-se-ão sozinhos e, em caso de conflito de tráfego, o algoritmo matará os mais pobres, os mais fracos, os doentes, os velhos, os pretos, os judeus, os comunistas... É apenas uma questão de tempo para que mais esta maravilha se transforme em realidade.
P.S.: hoje voltei a ler a expressão "país irmão" para designar o Brasil. Senti um nó no estômago (para não sair do beco dos lugares comuns). Eu cá não sou irmão de nenhum fascista ignorante filho da puta, incapaz de perceber a diferença entre um partido (apesar de tudo) democrático e uma praga de proporções bíblicas.
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
Brasil, meu amor:
Desculpa. Continuarei a ler os teus escritores, a ouvir as tuas canções, a ver o teu cinema, a mexer-me desajeitadamente ao som do teu samba, a pasmar com as curvas dos morros do Rio, com as curvas dos edifícios de Brasília, com as curvas dos teus sorrisos todos e com as curvas das tuas crioulas mais belas, mas não pretendo voltar a pôr os pés num sítio onde 50 milhões de pessoas são capazes de votar num celerado fascista. Precisamos de dar um tempo. Adeus.
terça-feira, 11 de setembro de 2018
Sobre a selvajaria
Leio num jornal (cujo nome também não quero recordar) que, "para as imobiliárias, a 'selvajaria' na habitação não se revolve com taxa do BE". Bruxo. Os especuladores têm a mesma opinião. Tal como os partidos que os defendem, nomeadamente a gosma liderada pela se'dona Assunção. Aqueles que enriquecem graças à selvajaria, chamem-se Robles, Botelho ou Moreira, não aceitam que a selvajaria possa ser regulada, nem que os lucros dela resultante paguem impostos justos. A carga fiscal da pátria, já o sabemos, deve ser integralmente alombada por quem vive do seu trabalho e que, graças à selvajaria, já vai sendo incapaz de pagar um tecto sob o qual possa abrigar-se da chuva.
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Cristas de pernas para o ar (salvo seja)
Em tempo de fraca memória, as notícias e os soundbytes duram o tempo de um fósforo. Talvez já poucos se lembrem, por isso, deste cartaz do CDS-PP da dona Assunção. Desmentida pela realidade, Cristas arranjou outra mentira qualquer, outras frases de ocasião. Os jornalistas, mansos e obedientes, vão sempre atrás.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Línguas podres
Se o mundo houvesse de ser um sítio decente e pulcro, a natureza teria criado um mecanismo automático de punição dos energúmenos que, sem pudor nenhum de serem o que são, tomam a liberdade de continuamente proferir alarvidades monstruosas. Mas não: cada qual é livre de dizer e de insultar como bem entende e não há notícia de que alguma vez tenha apodrecido automaticamente a língua a algum destes palermas, quando dizem, por exemplo, que os mexicanos são violadores, ou traficantes de droga ou bad hombres.
Veja-se o caso de David Ribeiro, um indivíduo que é deputado municipal do Porto e que se entreteve a chamar aos romenos "energúmenos" e ladrões de supermercado . Soube-se hoje que o vil sujeito vai responder num processo instaurado pela Comissão Contra a Discriminação Racial - uma boa notícia que, todavia, está muito distante de resolver o problema de fundo. Basta ver que, no mesmo dia, os jornais dão eco de declarações do presidente das Filipinas, de cujo nome sujo não quero sequer recordar-me, o qual declarou que, "se houver muitas mulheres bonitas, haverá muitas violações".
O problema da gente que vomita coisas desta jaez é, pois, que não lhes cai um piano de cauda na cabeça de cada vez que abrem a boca (ou que chafurdam na lama dos facebooks e dos twiters). Em vez disso, chegam a deputados municipais e a presidentes de coisas que deviam ser tão sérias como uma república ou duas.
Veja-se o caso de David Ribeiro, um indivíduo que é deputado municipal do Porto e que se entreteve a chamar aos romenos "energúmenos" e ladrões de supermercado . Soube-se hoje que o vil sujeito vai responder num processo instaurado pela Comissão Contra a Discriminação Racial - uma boa notícia que, todavia, está muito distante de resolver o problema de fundo. Basta ver que, no mesmo dia, os jornais dão eco de declarações do presidente das Filipinas, de cujo nome sujo não quero sequer recordar-me, o qual declarou que, "se houver muitas mulheres bonitas, haverá muitas violações".
O problema da gente que vomita coisas desta jaez é, pois, que não lhes cai um piano de cauda na cabeça de cada vez que abrem a boca (ou que chafurdam na lama dos facebooks e dos twiters). Em vez disso, chegam a deputados municipais e a presidentes de coisas que deviam ser tão sérias como uma república ou duas.
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
Palhaçada migrante
O líder do PS/primeiro-ministro aproveitou o arraial de Caminha para anunciar que os emigrantes que regressem ao país vão pagar apenas metade do IRS, podendo deduzir as despesas de reinstalação nos impostos. Não se percebe.
Os que, empurrados por Passos Coelho e pela crise, foram embora de Portugal, fizeram-no por opção consciente. Foram ganhar melhores salários e viver em países decentes, pondo a formação aqui obtida ao serviço de outras economias e de outras nações.
Os que optaram por ficar, e são a esmagadora maioria, alombaram com um país deprimente e mesquinho, colocando, ainda assim, a sua força de trabalho, a sua energia e a sua criatividade ao serviço da recuperação da economia portuguesa, das empresas que cá estão e do país em geral.
A medida anunciada por António Costa representa, assim, uma dupla penalização para todos aqueles que, por opção ou falta dela, não abandonaram Portugal, aqui ficaram a trabalhar e a pagar impostos. Trata-se, pois, de uma palhaçada eleitoralista. Talvez lhes saia pela culatra.
Os que, empurrados por Passos Coelho e pela crise, foram embora de Portugal, fizeram-no por opção consciente. Foram ganhar melhores salários e viver em países decentes, pondo a formação aqui obtida ao serviço de outras economias e de outras nações.
Os que optaram por ficar, e são a esmagadora maioria, alombaram com um país deprimente e mesquinho, colocando, ainda assim, a sua força de trabalho, a sua energia e a sua criatividade ao serviço da recuperação da economia portuguesa, das empresas que cá estão e do país em geral.
A medida anunciada por António Costa representa, assim, uma dupla penalização para todos aqueles que, por opção ou falta dela, não abandonaram Portugal, aqui ficaram a trabalhar e a pagar impostos. Trata-se, pois, de uma palhaçada eleitoralista. Talvez lhes saia pela culatra.
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Este extraordinário calor de Agosto
Trata-se de um ultraje, um escândalo, um despautério. O mês de Agostou começou e, pasme-se, faz um certo calor e está sol. As televisões, e bem, abrem os noticiários com notícias deste absurdo. Por este caminho, é bem possível que se chegue a Dezembro e esteja frio. Talvez até chegue a chover.
Ironia à parte, constato que os órgãos de comunicação social estão cada vez mais empenhados em seguir uma linha editorial próxima da adoptada nas conversa de elevador: perante o incómodo da falta da assunto, falam da meteorologia.
Ironia à parte, constato que os órgãos de comunicação social estão cada vez mais empenhados em seguir uma linha editorial próxima da adoptada nas conversa de elevador: perante o incómodo da falta da assunto, falam da meteorologia.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Kentaro
Foi há muito tempo que li a notícia da morte de Kentaro. Durante quase dois anos, desde que foi libertado do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves, percorreu cerca de
três mil quilómetros de montes e vales da Península Ibérica, livre como uma corrente de ar. Imaginei, lendo a notícia, que Kentaro corria pelo deserto manchego, nos montes de Castela, pelos bosques galegos, entre as vinhas do Minho – veloz, vibrante e furtivo, um raio passando na dobra da tarde –, para vir, afinal, morrer atropelado numa estrada do concelho da Maia. E depois nunca mais o esqueci, provavelmente porque a vida de Kentaro, rápida como a de James Dean, me pareceu uma metáfora demasiado bela do confuso sentido que a vida tem.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Sítios para não ir
À luz da lei, Israel passou hoje a ser uma nação judaica, "lar nacional" do povo judaico. Trata-se, não se duvide, de uma forma de excluir ainda um pouco mais aqueles que, não sendo judeus, possam sentir-se também parte daquele território.
Há um ano atrás, enquanto visitava (outra vez) a sinagoga de Castelo de Vide, vi-me rodeado de um grupo de turistas cujo idioma imediatamente reconheci. Quando soube que, para além de israelitas, eram descendentes de antigos habitantes de Castelo de Vide, chorei - por imaginar que houvesse entre eles algum familiar meu e pela violência que obrigou os antigos judeus a fugirem de Portugal ou a tornarem-se cristãos, separando-nos irremediavelmente.
Não sendo judeu, cristão ou praticante de qualquer fé, enojam-me todas as etnias, religiões, culturas ou comunidades que vivem e se afirmam pela exclusão. Dado que não me interessa, à partida, conhecer quem me repudia, sou capaz de chorar entre judeus em Castelo de Vide, mas não pretendo visitar Israel. Do mesmo modo, não tenho vontade de visitar os EUA governados por Trump, a Polónia ou a Hungria neofascistas, a Turquia, a Birmânia, o Sudão do Sul, a Venezuela, a Coreia do Norte, a Rússia ou a República Centro-Africana.
Também não pretendo regressar ao Brasil tão cedo. Amo o Brasil, amo-o há muito tempo e de uma forma sem explicações, mas detesto o país em que o Brasil está transformado, corrupto, golpista e com uma justiça arbitrária que não parece garantir nenhum tipo de equidade. É mais um sítio para não ir.
Há um ano atrás, enquanto visitava (outra vez) a sinagoga de Castelo de Vide, vi-me rodeado de um grupo de turistas cujo idioma imediatamente reconheci. Quando soube que, para além de israelitas, eram descendentes de antigos habitantes de Castelo de Vide, chorei - por imaginar que houvesse entre eles algum familiar meu e pela violência que obrigou os antigos judeus a fugirem de Portugal ou a tornarem-se cristãos, separando-nos irremediavelmente.
Não sendo judeu, cristão ou praticante de qualquer fé, enojam-me todas as etnias, religiões, culturas ou comunidades que vivem e se afirmam pela exclusão. Dado que não me interessa, à partida, conhecer quem me repudia, sou capaz de chorar entre judeus em Castelo de Vide, mas não pretendo visitar Israel. Do mesmo modo, não tenho vontade de visitar os EUA governados por Trump, a Polónia ou a Hungria neofascistas, a Turquia, a Birmânia, o Sudão do Sul, a Venezuela, a Coreia do Norte, a Rússia ou a República Centro-Africana.
Também não pretendo regressar ao Brasil tão cedo. Amo o Brasil, amo-o há muito tempo e de uma forma sem explicações, mas detesto o país em que o Brasil está transformado, corrupto, golpista e com uma justiça arbitrária que não parece garantir nenhum tipo de equidade. É mais um sítio para não ir.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
Donald Trump, uma definição (work in progress)
Mentiroso, arrogante, vigarista, trampolineiro, inadimplente, manipulador, inconsistente, aldrabão, gordo, nojento, intolerante, estúpido, seboso, alaranjado, ridículo, prepotente, xenófobo, imbecil, inconsequente, cara de caralho, falso, impostor, trapaceiro, embusteiro, intrujão, burlão, desumano, perigoso, putanheiro, Mussolini de carnaval, inconsciente, enganador, infiel, ignorante, incongruente, ilógico, inconveniente, impróprio, impreparado, indecente, energúmeno, indecoroso, intempestivo, batráquio, ectoplasma, sacripanta, coruja mal empalhada, verme, flibusteiro, troglodita, invertebrado, arlequim, palhaço.
Esta é uma lista em construção e que poderá nunca estar terminada.
Que os norte-americanos tenham eleito semelhante besta é um problema que lhes devia tocar só a eles.
Perde-se, na minha modesta opinião, demasiado tempo a tentar analisar as imbecilidades deste energúmeno. São apenas imbecilidades e, a bem da saúde mental dos povos, não se devia falar mais disso.
Esta é uma lista em construção e que poderá nunca estar terminada.
Que os norte-americanos tenham eleito semelhante besta é um problema que lhes devia tocar só a eles.
Perde-se, na minha modesta opinião, demasiado tempo a tentar analisar as imbecilidades deste energúmeno. São apenas imbecilidades e, a bem da saúde mental dos povos, não se devia falar mais disso.
terça-feira, 17 de julho de 2018
O único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado
Não tenho qualquer predileção especial pela mistura de erudição e escatologia (no sentido mais comum do termo), embora nada mo desaconselhe especialmente. A javardice em doses homeopáticas é, aliás, bastante libertadora.
Devo esta reflexão prévia, e respetiva profundidade, a uma frase de Julio Cortázar que li no romance Os Prémios e que anotei num documento word, para que ali, envolta de esquecimento e descaso, marinasse e adquirisse musgos e bolores, e talvez a condição de semente ou génese de ponderações e pensamentos mais vastos e vitais.
Considera a aludida frase, proferida por uma das personagens daquela ficção, que "os livros vão sendo o único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado". Trata-se, com efeito, de um dos melhores argumentos a favor da leitura e que talvez pudesse e devesse ser citado em eventuais campanhas de promoção do anacrónico objecto de papel e tinta.
Se a frase produz um certo efeito em favor do uso do livro e da literatura enquanto espaço de refúgio e evasão, sendo frequentemente mais relaxante e instrutivo do que umas férias em Bali com tudo incluído (até mesmo os outros turistas), não é menos verdade que não formula uma verdade absoluta. É frequentemente possível encontrar em casa outros locais "onde ainda se consegue estar sossegado", nomeadamente aquele que se usa para a prática de algumas abluções.
Ai que prazer, como diria Pessoa, ter um livro para ler e poder aceder ao suave benefício do corpo e da mente que proporciona a coincidência dos dois únicos lugares onde se pode estar tranquilo e alheado de tudo, longe, longe, longe, e dedicando aos aborrecimentos aquilo que eles merecem sem carecer de metáfora nenhuma.
Devo esta reflexão prévia, e respetiva profundidade, a uma frase de Julio Cortázar que li no romance Os Prémios e que anotei num documento word, para que ali, envolta de esquecimento e descaso, marinasse e adquirisse musgos e bolores, e talvez a condição de semente ou génese de ponderações e pensamentos mais vastos e vitais.
Considera a aludida frase, proferida por uma das personagens daquela ficção, que "os livros vão sendo o único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado". Trata-se, com efeito, de um dos melhores argumentos a favor da leitura e que talvez pudesse e devesse ser citado em eventuais campanhas de promoção do anacrónico objecto de papel e tinta.
Se a frase produz um certo efeito em favor do uso do livro e da literatura enquanto espaço de refúgio e evasão, sendo frequentemente mais relaxante e instrutivo do que umas férias em Bali com tudo incluído (até mesmo os outros turistas), não é menos verdade que não formula uma verdade absoluta. É frequentemente possível encontrar em casa outros locais "onde ainda se consegue estar sossegado", nomeadamente aquele que se usa para a prática de algumas abluções.
Ai que prazer, como diria Pessoa, ter um livro para ler e poder aceder ao suave benefício do corpo e da mente que proporciona a coincidência dos dois únicos lugares onde se pode estar tranquilo e alheado de tudo, longe, longe, longe, e dedicando aos aborrecimentos aquilo que eles merecem sem carecer de metáfora nenhuma.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Excesso de realidade*
Dobrei há muitos anos o canto de uma página da 22ª edição
do livro que contém as “200 Crônicas Escolhidas” do escritor brasileiro Rubem
Braga (1913-1990). No fólio marcado está o texto "Os Jornais",
originalmente publicado em 1951 e que narra duas simples cenas do quotidiano.
Termina assim: «Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um
secretário de redacção, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo,
tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...».
A frase de Rubem Braga produz, é verdade, um certo efeito
poético. Mas não passa de uma falácia. Os jornais (e também as televisões, as
rádios e os sites) estão soterrados de vida e tresandam a uma realidade
sórdida, suja e vil, muito semelhante àquela que, nos anos 1950, inspirou as
melhores crónicas do também brasileiro Nélson Rodrigues (1912-1980): crimes
passionais, raptos e violações, mulheres queimadas pelos maridos diante dos
filhos, parricídios, vandalismo, cadáveres apodrecendo em casas abandonadas,
corrupção e enriquecimento ilícito, gente que não tem onde tomar banho nem uma
casa para morar.
Há tanta vida nos órgãos de comunicação social que, para
escrever o parágrafo anterior, apenas necessitei de folhear uma única edição de
um jornal diário do mês passado. Mas há dias piores. E pasquins ainda mais
sugestivos e absolutamente empenhados em produzir um «jornalismo que se cruze
com a vida das pessoas» (sobretudo naquilo que ela tem de mais desagradável e
torpe). E existe sobretudo uma quantidade inacreditável de sites e edições
online onde se tem acesso gratuito e instantâneo à repetição ad nauseam das mesmas notícias,
profusamente comentadas por uma multidão igualmente viva e também mesquinha e
analfabeta – um flagelo de gente incapaz sequer do pudor de se abster de
redigir umas sucessões de palavras enraivecidas e que não chegam a compor
frases seja em que idioma for.
Numa entrevista de 1991 ao Expresso, o escritor José Saramago (1922-2010) dizia que há momentos
na história em que «a esperança ocupa o espaço todo». Este não é um desses
momentos. Soterrado pelas cataratas de mediocridade, estupidez, vileza e
imbecilidade que a comunicação social produz e reproduz a cada instante,
qualquer indivíduo acordado, informado e livre de psicotrópicos tem grandes
dificuldades para manter ao menos algum optimismo.
*Crónica ilustrada de Fevereiro na revista Notícias Magazine
*Crónica ilustrada de Fevereiro na revista Notícias Magazine
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Muro das lamentações
A frase "não há muros suficientemente altos para parar estas correntes migratórias", proferida há dias por Barack Obama (e que, por estas ou outras palavras, tem sido repetida por dirigentes e personalidades do mundo civilizado), corresponde, no essencial, a uma falácia. Basta ver como o muro da Cisjordânia consegue manter os palestinianos afastados dos territórios ilegalmente ocupados por Israel, o mesmo país que os dirigentes e personalidades tanto gostam de proteger. A questão não devia, pois, ser a eficiência dos muros, mas a sua simples existência, independentemente da localização ou dos pretextos usados.
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