terça-feira, 11 de setembro de 2018

Sobre a selvajaria

Leio num jornal (cujo nome também não quero recordar) que, "para as imobiliárias, a 'selvajaria' na habitação não se revolve com taxa do BE". Bruxo. Os especuladores têm a mesma opinião. Tal como os partidos que os defendem, nomeadamente a gosma liderada pela se'dona Assunção. Aqueles que enriquecem graças à selvajaria, chamem-se Robles, Botelho ou Moreira, não aceitam que a selvajaria possa ser regulada, nem que os lucros dela resultante paguem impostos justos. A carga fiscal da pátria, já o sabemos, deve ser integralmente alombada por quem vive do seu trabalho e que, graças à selvajaria, já vai sendo incapaz de pagar um tecto sob o qual possa abrigar-se da chuva.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Cristas de pernas para o ar (salvo seja)















Em tempo de fraca memória, as notícias e os soundbytes duram o tempo de um fósforo. Talvez já poucos se lembrem, por isso, deste cartaz do CDS-PP da dona Assunção. Desmentida pela realidade, Cristas arranjou outra mentira qualquer, outras frases de ocasião. Os jornalistas, mansos e obedientes, vão sempre atrás.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Línguas podres

Se o mundo houvesse de ser um sítio decente e pulcro, a natureza teria criado um mecanismo automático de punição dos energúmenos que, sem pudor nenhum de serem o que são, tomam a liberdade de continuamente proferir alarvidades monstruosas. Mas não: cada qual é livre de dizer e de insultar como bem entende e não há notícia de que alguma vez tenha apodrecido automaticamente a língua a algum destes palermas, quando dizem, por exemplo, que os mexicanos são violadores, ou traficantes de droga ou bad hombres.

Veja-se o caso de David Ribeiro, um indivíduo que é deputado municipal do Porto e que se entreteve a chamar aos romenos "energúmenos" e ladrões de supermercado . Soube-se hoje que o vil sujeito vai responder num processo instaurado pela Comissão Contra a Discriminação Racial - uma boa notícia que, todavia, está muito distante de resolver o problema de fundo. Basta ver que, no mesmo dia, os jornais dão eco de declarações do presidente das Filipinas, de cujo nome sujo não quero sequer recordar-me, o qual declarou que, "se houver muitas mulheres bonitas, haverá muitas violações".

O problema da gente que vomita coisas desta jaez é, pois, que não lhes cai um piano de cauda na cabeça de cada vez que abrem a boca (ou que chafurdam na lama dos facebooks e dos twiters). Em vez disso, chegam a deputados municipais e a presidentes de coisas que deviam ser tão sérias como uma república ou duas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Palhaçada migrante

O líder do PS/primeiro-ministro aproveitou o arraial de Caminha para anunciar que os emigrantes que regressem ao país vão pagar apenas metade do IRS, podendo deduzir as despesas de reinstalação nos impostos. Não se percebe.

Os que, empurrados por Passos Coelho e pela crise, foram embora de Portugal, fizeram-no por opção consciente. Foram ganhar melhores salários e viver em países decentes, pondo a formação aqui obtida ao serviço de outras economias e de outras nações.

Os que optaram por ficar, e são a esmagadora maioria, alombaram com um país deprimente e mesquinho, colocando, ainda assim, a sua força de trabalho, a sua energia e a sua criatividade ao serviço da recuperação da economia portuguesa, das empresas que cá estão e do país em geral.

A medida anunciada por António Costa representa, assim, uma dupla penalização para todos aqueles que, por opção ou falta dela, não abandonaram Portugal, aqui ficaram a trabalhar e a pagar impostos. Trata-se, pois, de uma palhaçada eleitoralista. Talvez lhes saia pela culatra.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Este extraordinário calor de Agosto

Trata-se de um ultraje, um escândalo, um despautério. O mês de Agostou começou e, pasme-se, faz um certo calor e está sol. As televisões, e bem, abrem os noticiários com notícias deste absurdo. Por este caminho, é bem possível que se chegue a Dezembro e esteja frio. Talvez até chegue a chover.

Ironia à parte, constato que os órgãos de comunicação social estão cada vez mais empenhados em seguir uma linha editorial próxima da adoptada nas conversa de elevador: perante o incómodo da falta da assunto, falam da meteorologia.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Kentaro

Foi há muito tempo que li a notícia da morte de Kentaro. Durante quase dois anos, desde que foi libertado do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves, percorreu cerca de três mil quilómetros de montes e vales da Península Ibérica, livre como uma corrente de ar. Imaginei, lendo a notícia, que Kentaro corria pelo deserto manchego, nos montes de Castela, pelos bosques galegos, entre as vinhas do Minho – veloz, vibrante e furtivo, um raio passando na dobra da tarde –, para vir, afinal, morrer atropelado numa estrada do concelho da Maia. E depois nunca mais o esqueci, provavelmente porque a vida de Kentaro, rápida como a de James Dean, me pareceu uma metáfora demasiado bela do confuso sentido que a vida tem.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Sítios para não ir

À luz da lei, Israel passou hoje a ser uma nação judaica, "lar nacional" do povo judaico. Trata-se, não se duvide, de uma forma de excluir ainda um pouco mais aqueles que, não sendo judeus, possam sentir-se também parte daquele território.

Há um ano atrás, enquanto visitava (outra vez) a sinagoga de Castelo de Vide, vi-me rodeado de um grupo de turistas cujo idioma imediatamente reconheci. Quando soube que, para além de israelitas, eram descendentes de antigos habitantes de Castelo de Vide, chorei - por imaginar que houvesse entre eles algum familiar meu e pela violência que obrigou os antigos judeus a fugirem de Portugal ou a tornarem-se cristãos, separando-nos irremediavelmente.

Não sendo judeu, cristão ou praticante de qualquer fé, enojam-me todas as etnias, religiões, culturas ou comunidades que vivem e se afirmam pela exclusão. Dado que não me interessa, à partida, conhecer quem me repudia, sou capaz de chorar entre judeus em Castelo de Vide, mas não pretendo visitar Israel. Do mesmo modo, não tenho vontade de visitar os EUA governados por Trump, a Polónia ou a Hungria neofascistas, a Turquia, a Birmânia, o Sudão do Sul, a Venezuela, a Coreia do Norte, a Rússia ou a República Centro-Africana.

Também não pretendo regressar ao Brasil tão cedo. Amo o Brasil, amo-o há muito tempo e de uma forma sem explicações, mas detesto o país em que o Brasil está transformado, corrupto, golpista e com uma justiça arbitrária que não parece garantir nenhum tipo de equidade. É mais um sítio para não ir.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Donald Trump, uma definição (work in progress)

Mentiroso, arrogante, vigarista, trampolineiro, inadimplente, manipulador, inconsistente, aldrabão, gordo, nojento, intolerante, estúpido, seboso, alaranjado, ridículo, prepotente, xenófobo, imbecil, inconsequente, cara de caralho, falso, impostor, trapaceiro, embusteiro, intrujão, burlão, desumano, perigoso, putanheiro, Mussolini de carnaval, inconsciente, enganador, infiel, ignorante, incongruente, ilógico, inconveniente, impróprio, impreparado, indecente, energúmeno, indecoroso, intempestivo, batráquio, ectoplasma, sacripanta, coruja mal empalhada, verme, flibusteiro, troglodita, invertebrado, arlequim, palhaço.

Esta é uma lista em construção e que poderá nunca estar terminada.

Que os norte-americanos tenham eleito semelhante besta é um problema que lhes devia tocar só a eles.

Perde-se, na minha modesta opinião, demasiado tempo a tentar analisar as imbecilidades deste energúmeno. São apenas imbecilidades e, a bem da saúde mental dos povos, não se devia falar mais disso.

terça-feira, 17 de julho de 2018

O único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado

Não tenho qualquer predileção especial pela mistura de erudição e escatologia (no sentido mais comum do termo), embora nada mo desaconselhe especialmente. A javardice em doses homeopáticas é, aliás, bastante libertadora.

Devo esta reflexão prévia, e respetiva profundidade, a uma frase de Julio Cortázar que li no romance Os Prémios e que anotei num documento word, para que ali, envolta de esquecimento e descaso, marinasse e adquirisse musgos e bolores, e talvez a condição de semente ou génese de ponderações e pensamentos mais vastos e vitais.

Considera a aludida frase, proferida por uma das personagens daquela ficção, que "os livros vão sendo o único lugar da casa onde ainda se consegue estar sossegado". Trata-se, com efeito, de um dos melhores argumentos a favor da leitura e que talvez pudesse e devesse ser citado em eventuais campanhas de promoção do anacrónico objecto de papel e tinta.

Se a frase produz um certo efeito em favor do uso do livro e da literatura enquanto espaço de refúgio e evasão, sendo frequentemente mais relaxante e instrutivo do que umas férias em Bali com tudo incluído (até mesmo os outros turistas), não é menos verdade que não formula uma verdade absoluta. É frequentemente possível encontrar em casa outros locais "onde ainda se consegue estar sossegado", nomeadamente aquele que se usa para a prática de algumas abluções.

Ai que prazer, como diria Pessoa, ter um livro para ler e poder aceder ao suave benefício do corpo e da mente que proporciona a coincidência dos dois únicos lugares onde se pode estar tranquilo e alheado de tudo, longe, longe, longe, e dedicando aos aborrecimentos aquilo que eles merecem sem carecer de metáfora nenhuma.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Excesso de realidade*

Dobrei há muitos anos o canto de uma página da 22ª edição do livro que contém as “200 Crônicas Escolhidas” do escritor brasileiro Rubem Braga (1913-1990). No fólio marcado está o texto "Os Jornais", originalmente publicado em 1951 e que narra duas simples cenas do quotidiano. Termina assim: «Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redacção, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida...».

A frase de Rubem Braga produz, é verdade, um certo efeito poético. Mas não passa de uma falácia. Os jornais (e também as televisões, as rádios e os sites) estão soterrados de vida e tresandam a uma realidade sórdida, suja e vil, muito semelhante àquela que, nos anos 1950, inspirou as melhores crónicas do também brasileiro Nélson Rodrigues (1912-1980): crimes passionais, raptos e violações, mulheres queimadas pelos maridos diante dos filhos, parricídios, vandalismo, cadáveres apodrecendo em casas abandonadas, corrupção e enriquecimento ilícito, gente que não tem onde tomar banho nem uma casa para morar.

Há tanta vida nos órgãos de comunicação social que, para escrever o parágrafo anterior, apenas necessitei de folhear uma única edição de um jornal diário do mês passado. Mas há dias piores. E pasquins ainda mais sugestivos e absolutamente empenhados em produzir um «jornalismo que se cruze com a vida das pessoas» (sobretudo naquilo que ela tem de mais desagradável e torpe). E existe sobretudo uma quantidade inacreditável de sites e edições online onde se tem acesso gratuito e instantâneo à repetição ad nauseam das mesmas notícias, profusamente comentadas por uma multidão igualmente viva e também mesquinha e analfabeta – um flagelo de gente incapaz sequer do pudor de se abster de redigir umas sucessões de palavras enraivecidas e que não chegam a compor frases seja em que idioma for.

Numa entrevista de 1991 ao Expresso, o escritor José Saramago (1922-2010) dizia que há momentos na história em que «a esperança ocupa o espaço todo». Este não é um desses momentos. Soterrado pelas cataratas de mediocridade, estupidez, vileza e imbecilidade que a comunicação social produz e reproduz a cada instante, qualquer indivíduo acordado, informado e livre de psicotrópicos tem grandes dificuldades para manter ao menos algum optimismo.


*Crónica ilustrada de Fevereiro na revista Notícias Magazine

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Muro das lamentações

A frase "não há muros suficientemente altos para parar estas correntes migratórias", proferida há dias por Barack Obama (e que, por estas ou outras palavras, tem sido repetida por dirigentes e personalidades do mundo civilizado), corresponde, no essencial, a uma falácia. Basta ver como o muro da Cisjordânia consegue manter os palestinianos afastados dos territórios ilegalmente ocupados por Israel, o mesmo país que os dirigentes e personalidades tanto gostam de proteger. A questão não devia, pois, ser a eficiência dos muros, mas a sua simples existência, independentemente da localização ou dos pretextos usados.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Isto é um assalto*

No início do mundo, e durante muito tempo, a terra e todas as coisas que sobre ela havia não tinham dono nenhum. Mas depois alguns homens, os mais fortes ou os mais pérfidos, inventaram a violência como forma de tomar posse – e o registo de propriedade para oficializar o esbulho. De então para cá, aquilo que pertencia a todos passou a servir para que alguns ficassem mais ricos e mais poderosos do que os outros.

A apropriação da terra e daquilo que nela existia – incluindo, durante muito tempo, os seres humanos que tinham o azar de lá estar –, e a cadeia de valor acrescentado que a propriedade gerou, constituíram, assim, uma espécie de génesis da civilização ocidental e do capitalismo. Não foi o melhor dos começos: filósofos como Santo Ambrósio, São Basílio Magno ou Pierre-Joseph Proudhon consideraram mesmo que a propriedade constitui um roubo, igualmente praticado por monarcas selvagens e pelo clero, que nem sequer se coibiu de lucrar alarvemente, e durante vários séculos, com a escravatura.

Os autores do assalto não se limitaram, todavia, a prosperar com ele. Criaram também mecanismos legais e éticos capazes de impedir que outros fizessem o mesmo. O Marquês de Sade explica-o de modo cristalino: «O roubo só é punido porque viola o direito de propriedade, ainda que este direito tenha na sua origem nada mais do que o próprio roubo».

Quase ninguém se atreve, pois, a lesar um grande proprietário, nem sequer ao abrigo do adágio segundo o qual «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Não faltam, todavia, exemplos de empresas e pessoas que continuam a apropriar-se de bens, recursos e propriedades que, sendo do Estado, deviam pertencer a todos os cidadãos. Beneficiam os usurpadores, para isso, da corrupção e/ou conivência de políticos e funcionários, e de figuras jurídicas tão burlescas como a usucapião, que parece uma cínica homenagem do legislador aos primeiros selvagens que se tornaram proprietários.

Embora a desigual distribuição da riqueza gerada ab initio pelo roubo da terra nunca tenha penalizado tantos indivíduos como hoje, o assunto quase não se discute. Entretemo-nos, em vez disso, com as férias dos famosos, os seus romances tumultuosos, as respetivas dietas, a substância dos abraços ou o último rebento da monarquia inglesa – apenas o mais recente de uma longa linhagem de larápios.

*Última Crónica Ilustrada que escrevi para a Notícias Magazine, publicada em Maio último

Comedores de lixo

De acordo com um estudo qualquer, citado num jornal português, "Donald Trump tornou-se o líder mundial mais seguido no Twitter em outubro de 2017, altura em que ultrapassou o Papa Francisco, o segundo líder mais visualizado". Trump terá, assim, 52 milhões de "seguidores" - a simples formulação desta frase é assustadora e motivo mais do que suficiente para manter afastada das redes sociais qualquer pessoa minimamente preocupada com a sua higiene básica.

O Porto deles

Odete Patrício, Álvaro Domingues e Rio Fernandes formulam aqui questões bastante pertinentes sobre o processo que está a permitir a construção de condomínios para ricos na escarpa da Arrábida, em terrenos cuja simples propriedade é duvidosa. São perguntas, digamos assim, jornalísticas, pelo menos se ainda existisse entre os praticantes da actividade alguma propensão natural para a formulação de perguntas incómodas para o burgomestre e para o gangue de bem nascidos que parece ter sequestrado a cidade do Porto, pondo-a ao serviço dos seus interesses particulares e do seu enriquecimento desmesurado.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A mentira da verdade

A simples ideia de executar um programa televisivo dedicado a assuntos da esfera da Filosofia parece, por si só, um propósito de alienados. Basta ver, porém, "A Mentira da Verdade" ("Mentira la verdade", no título original), a série argentina que passa antes do Jornal 2 da RTP, para que se perceba que pode ser feito e que é possível fazê-lo com qualidade, actualidade e de uma forma cativante. É provavelmente um dos programas mais interessantes da televisão portuguesa e, todavia, nunca ouvi ninguém discuti-lo ou conversar sobre ele. É até possível que ninguém o veja, eventualidade que não me espanta, não me aborrece e, muito menos, me escandaliza. Os indivíduos da espécie humana possuem, no geral, uma propensão natural para comer merda, gostar de merda e ter orgulho nisso. Não faltará muito, pois, para que voltemos todos a ser governados por fascistas tecnotrogloditas que farão o Big Brother do Orwell parecer uma brincadeira de crianças. Quase ninguém se há-de incomodar com tão pouco.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Regressar talvez

Hei-de ter passado ao lado de uma grande carreira - como médio centro, como jornalista, como escritor e como assessor de imprensa, evidentemente, mas também como autor de blogues sem préstimo. Jamais alguma empresa, pequena ou grande, enxergou neste vosso criado potencial para protagonizar campanhas publicitárias conforme as que agora parecem estar tão na moda. Não bumbarei suficientemente na fofinha, suponho, embora não me faltem outros atributos aparentemente essenciais para a função (a cara de parvo, por exemplo). Não me magoa, porém, a falta de reconhecimento, somente o facto de nunca ter conseguido pagar as contas recorrendo à eventual receita gerada por este ameníssimo desperdício de tempo. Agora, porém, que me extinguiram o último espaço aonde escrevia textos pagos em forma de crónica, pondero vir mais vezes destilar fel e vinagre neste sítio, casquinando das coisas atrozes de que o mundo vai tão cheio. Se ninguém ouvir, o defeito será sempre meu e só meu.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ao pó






















Deixarás que o pó venha tomar posse de todas as coisas da casa. As aranhas estenderão a teia entre uma e outra letra, preenchendo o espaço vazio das palavras com a seda delicada das suas rendas. Talvez ainda aqui venha morrer algum insecto, alguma ideia vaga e confusa, uma réstia resistente de luz - mas a casa estará vazia e obscura, em silêncio. Não ambicionarás. Não ousarás. Não terás ilusões. Não criarás acima das tuas possibilidades. Pó apenas, descansa em paz.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Mau ambiente

De acordo com uma lenda familiar que gosto de manter viva, fui pela primeira vez a Castelo de Vide, a terra dos meus avós paternos, há 44 anos. De então para cá, tenho procurado regressar sempre que posso. Mas há um período do ano, no final do verão, em que a terrinha fica muito mal frequentada.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Minha Luta

Estive duas tardes inteiras na Feira do Livro de Lisboa no fim-de-semana passado. Ao todo, foram nove horas a ver passar pessoas de um lado para o outro. Assinei quatro livros enquanto a multidão esgotava as existências do Mein Kampf num stand mais acima, a despeito de Adolf Hitler já não estar em condições de dar autógrafos.

Leio agora a entrevista em que o inglês Howard Jacobsen ironiza com a ideia de que tem cada vez menos leitores à medida que escreve mais livros e se torna mais conhecido. Talvez não seja um fenómeno tão bizarro assim. Entre um criminoso morto e um escritor disponível para escrever, conversar e dar autógrafos, as pessoas preferem o criminoso com o ridículo bigodinho de palhaço, ou o palhaço rico com o penteado esquisito de esquilo morto.

À minha luta perco-a, assim, a cada dia que passa e a cada livro que escrevo. Cada vez me doem mais os dias e os livros. Cada vez magoa mais a certeza de que os escrevo para (quase) ninguém.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Infância*
















Como quase tudo o que é humano, imperfeito e transitório, as frases “Escrevo o que quero escrever, nunca escrevo o que quero”, que são o mote deste encontro, só aparentemente constituem uma contradição. A incoerência, se for disso que se trata, reside na própria vida e nas suas múltiplas e diversas manifestações, na maravilha que é não ter certezas e, mesmo assim, continuar a fazer isto ou aquilo cumprindo o subjectivo desígnio que é viver. Quer se empregue o tempo a escrever, a desenhar, a amar ou a colar cartazes, existir é, em si, um paradoxo essencial e muito humanamente alheio às certezas aritméticas daqueles que, nunca tendo dúvidas, também se enganam (e nem sempre tão raramente como julgam). Viver é essencialmente a arte de falhar, aprender com o erro e seguir adiante. Com a literatura não sucede de forma diferente.

Escrever livros, ou proferir conferências em festivais literários como este, é quase sempre o caminho mais curto e recto para o ridículo ou para que alguém se veja recoberto com uma camada de alcatrão com penas com a qual se castigavam os farsantes e os larápios nas histórias de Lucky Luke, o cowboy mais rápido do que a própria sombra.

Ainda que metafóricos, o alcatrão e as penas do faroeste (e do ridículo) constituem o principal medo atávico de uma boa parte os escritores, quer dos escritores que escrevem quer daqueles que adquirem o complexo de Bartleby e preferem não o fazer. É-o também para os escritores postos a falar diante de uma audiência como esta. Escrever ou falar para que outros o leiam, escutem e avaliem é quase sempre um número tão arriscado quanto um qualquer funambulismo de circo. Não se quebra a espinha na queda, mas é o próprio ego que padece e geme, contundido pelo vexame do severo juiz que trazem dentro as pessoas não demasiado cheias de si próprias (ou que não se alimentem da empáfia que produzem).

Dito isto, peço que notem que ninguém me obrigou a estar neste palco, atrás desta mesa, e que, tal como sucede quando escrevo, aqui estou apenas a produzir as frases que quero e as suaves irrelevâncias em que milhões de neurónios chafurdaram enquanto tentava escrever isto que agora leio.

Assim como sucede enquanto faço aquilo a que se convencionou chamar literatura, limito-me aqui, esta tarde, a tentar empurrar ladeira acima a proverbial pedra de mármore desta alocução, a qual rolará montanha abaixo antes de ter conseguido levá-la até ao cume. No próximo ano, ou noutro qualquer festival de escritores, é quase certo que, qual Sísifo, voltarei a cumprir o bem pouco divino castigo de tentar espantar ou, ao menos, satisfazer a curiosidade de quem me escute, correndo outra vez o risco de fracassar. E, outra vez, a pedra rolará montanha abaixo, e eu com ela, quebrando nisto todos os ossos do meu anémico ego.

Sou, esta é a verdade, um indivíduo que padece de horror ao vexame e à vergonha da queda pública, e que, ao mesmo tempo, sofre de uma indómita e irrefreável atracção pelo abismo. Vivo entre a hesitação, a insegurança e o escrúpulo excessivo, por um lado, e um exibicionismo quase inconsciente, por outro. E por isso aqui estou expondo-me outra vez ao piche e às penas da vossa indiferença ou do vosso desdém, incorrendo exactamente no mesmo lapso de carácter que me leva a escrever um e outro livros com a certeza prévia e clara que nunca serei capaz de “escrever o que quero” — se calhar por não estar bem certo do que quero, se calhar por ser incapaz de perceber distintamente a formidável distância que vai do meu projecto à minha capacidade para o executar.

Talvez mais importante e essencial do que determinar se apenas escrevo o que realmente quero — e juro sobre o gargalo da minha melhor garrafa de vinho que o faço mesmo quando me limito a dar resposta a uma encomenda —, será questionar-me sobre os motivos pelos quais escrevo. Só a partir daqui, creio, será possível avaliar o resultado deste labor.

Ora, tanto quanto é possível auto-analisar-me, são vários os motivos que me levaram, há mais de 20 anos, a iniciar-me nesta venturosa perda de tempo que é a literatura. Fi-lo, desde logo, por não saber fazer mais nada, mas também, não nego, para obter reconhecimento, para que as outras pessoas gostem de mim e do que escrevo, e porque me agrada a possibilidade algo demiúrgica de reconstruir o mundo e recontá-lo à medida dos meus medos e dos sonhos, das minhas angústias, desilusões, entusiasmos e fantasmas.

Poderia, neste ponto, e sem faltar à verdade, invocar a já quase clássica definição de Gabriel García Márquez nos “Cem Anos de Solidão” e dizer que escrevo livros desde que percebi que a literatura é “o melhor brinquedo (...) para gozar com as outras pessoas”, acrescentando, porém, que a literatura também é a forma mais saudável de troçar de mim e de me pôr em causa.

Ainda melhor: como sugeria o Manuel António Pina numa crónica com muitos anos, a literatura é a melhor forma de fugir para o país de exílio que é a infância, onde me posso esconder e refugiar sempre que os ladrões da realidade venham para me roubar a inocência e os sonhos.

Escreveu o Pina que, embora as estatísticas não o refiram, há na nossa sociedade - liberal, fiscalista, economicista e austera - “uma enorme e perigosa carência de infância, de sonhos e de coisas verdadeiramente grandes”. Ora, escrever livros é, de certa forma, ser capaz de transcender e superar esta realidade. Enquanto escrevo, sou tão livre e louco como o filósofo Diógenes, que vivia dentro de um barril e carregava uma lamparina durante o dia a ver se encontrava um homem honesto que fosse — ou uma qualquer verdade essencial, íntegra e alheia à insensatez do quotidiano.

Escrevo, pois, carregando a minha tíbia lamparina de sonhador ou louco ao sol do meio dia. Faço-o como quem pratica um jogo infantil e lúdico, no qual o prazer e o desafio da busca são o único critério realmente válido. De todas as vezes julgo que erro e que fracasso; que não “escrevo o que quero”. Mas, se penso nisso mais detidamente, ocorre-me que esta permanente insatisfação, esta sensação de incompetência, não é outra coisa que uma forma de me enganar-me e de me fornecer o pretexto necessário para voltar a tentar uma e outra vez — como a criança que fui e construía castelos de areia demasiado próximos da espuma das ondas.

*Texto lido na edição de 2016 do festival literário Correntes d'Escritas