quarta-feira, 11 de julho de 2018

Isto é um assalto*

No início do mundo, e durante muito tempo, a terra e todas as coisas que sobre ela havia não tinham dono nenhum. Mas depois alguns homens, os mais fortes ou os mais pérfidos, inventaram a violência como forma de tomar posse – e o registo de propriedade para oficializar o esbulho. De então para cá, aquilo que pertencia a todos passou a servir para que alguns ficassem mais ricos e mais poderosos do que os outros.

A apropriação da terra e daquilo que nela existia – incluindo, durante muito tempo, os seres humanos que tinham o azar de lá estar –, e a cadeia de valor acrescentado que a propriedade gerou, constituíram, assim, uma espécie de génesis da civilização ocidental e do capitalismo. Não foi o melhor dos começos: filósofos como Santo Ambrósio, São Basílio Magno ou Pierre-Joseph Proudhon consideraram mesmo que a propriedade constitui um roubo, igualmente praticado por monarcas selvagens e pelo clero, que nem sequer se coibiu de lucrar alarvemente, e durante vários séculos, com a escravatura.

Os autores do assalto não se limitaram, todavia, a prosperar com ele. Criaram também mecanismos legais e éticos capazes de impedir que outros fizessem o mesmo. O Marquês de Sade explica-o de modo cristalino: «O roubo só é punido porque viola o direito de propriedade, ainda que este direito tenha na sua origem nada mais do que o próprio roubo».

Quase ninguém se atreve, pois, a lesar um grande proprietário, nem sequer ao abrigo do adágio segundo o qual «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Não faltam, todavia, exemplos de empresas e pessoas que continuam a apropriar-se de bens, recursos e propriedades que, sendo do Estado, deviam pertencer a todos os cidadãos. Beneficiam os usurpadores, para isso, da corrupção e/ou conivência de políticos e funcionários, e de figuras jurídicas tão burlescas como a usucapião, que parece uma cínica homenagem do legislador aos primeiros selvagens que se tornaram proprietários.

Embora a desigual distribuição da riqueza gerada ab initio pelo roubo da terra nunca tenha penalizado tantos indivíduos como hoje, o assunto quase não se discute. Entretemo-nos, em vez disso, com as férias dos famosos, os seus romances tumultuosos, as respetivas dietas, a substância dos abraços ou o último rebento da monarquia inglesa – apenas o mais recente de uma longa linhagem de larápios.

*Última Crónica Ilustrada que escrevi para a Notícias Magazine, publicada em Maio último

Comedores de lixo

De acordo com um estudo qualquer, citado num jornal português, "Donald Trump tornou-se o líder mundial mais seguido no Twitter em outubro de 2017, altura em que ultrapassou o Papa Francisco, o segundo líder mais visualizado". Trump terá, assim, 52 milhões de "seguidores" - a simples formulação desta frase é assustadora e motivo mais do que suficiente para manter afastada das redes sociais qualquer pessoa minimamente preocupada com a sua higiene básica.

O Porto deles

Odete Patrício, Álvaro Domingues e Rio Fernandes formulam aqui questões bastante pertinentes sobre o processo que está a permitir a construção de condomínios para ricos na escarpa da Arrábida, em terrenos cuja simples propriedade é duvidosa. São perguntas, digamos assim, jornalísticas, pelo menos se ainda existisse entre os praticantes da actividade alguma propensão natural para a formulação de perguntas incómodas para o burgomestre e para o gangue de bem nascidos que parece ter sequestrado a cidade do Porto, pondo-a ao serviço dos seus interesses particulares e do seu enriquecimento desmesurado.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

A mentira da verdade

A simples ideia de executar um programa televisivo dedicado a assuntos da esfera da Filosofia parece, por si só, um propósito de alienados. Basta ver, porém, "A Mentira da Verdade" ("Mentira la verdade", no título original), a série argentina que passa antes do Jornal 2 da RTP, para que se perceba que pode ser feito e que é possível fazê-lo com qualidade, actualidade e de uma forma cativante. É provavelmente um dos programas mais interessantes da televisão portuguesa e, todavia, nunca ouvi ninguém discuti-lo ou conversar sobre ele. É até possível que ninguém o veja, eventualidade que não me espanta, não me aborrece e, muito menos, me escandaliza. Os indivíduos da espécie humana possuem, no geral, uma propensão natural para comer merda, gostar de merda e ter orgulho nisso. Não faltará muito, pois, para que voltemos todos a ser governados por fascistas tecnotrogloditas que farão o Big Brother do Orwell parecer uma brincadeira de crianças. Quase ninguém se há-de incomodar com tão pouco.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Regressar talvez

Hei-de ter passado ao lado de uma grande carreira - como médio centro, como jornalista, como escritor e como assessor de imprensa, evidentemente, mas também como autor de blogues sem préstimo. Jamais alguma empresa, pequena ou grande, enxergou neste vosso criado potencial para protagonizar campanhas publicitárias conforme as que agora parecem estar tão na moda. Não bumbarei suficientemente na fofinha, suponho, embora não me faltem outros atributos aparentemente essenciais para a função (a cara de parvo, por exemplo). Não me magoa, porém, a falta de reconhecimento, somente o facto de nunca ter conseguido pagar as contas recorrendo à eventual receita gerada por este ameníssimo desperdício de tempo. Agora, porém, que me extinguiram o último espaço aonde escrevia textos pagos em forma de crónica, pondero vir mais vezes destilar fel e vinagre neste sítio, casquinando das coisas atrozes de que o mundo vai tão cheio. Se ninguém ouvir, o defeito será sempre meu e só meu.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ao pó






















Deixarás que o pó venha tomar posse de todas as coisas da casa. As aranhas estenderão a teia entre uma e outra letra, preenchendo o espaço vazio das palavras com a seda delicada das suas rendas. Talvez ainda aqui venha morrer algum insecto, alguma ideia vaga e confusa, uma réstia resistente de luz - mas a casa estará vazia e obscura, em silêncio. Não ambicionarás. Não ousarás. Não terás ilusões. Não criarás acima das tuas possibilidades. Pó apenas, descansa em paz.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Mau ambiente

De acordo com uma lenda familiar que gosto de manter viva, fui pela primeira vez a Castelo de Vide, a terra dos meus avós paternos, há 44 anos. De então para cá, tenho procurado regressar sempre que posso. Mas há um período do ano, no final do verão, em que a terrinha fica muito mal frequentada.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Minha Luta

Estive duas tardes inteiras na Feira do Livro de Lisboa no fim-de-semana passado. Ao todo, foram nove horas a ver passar pessoas de um lado para o outro. Assinei quatro livros enquanto a multidão esgotava as existências do Mein Kampf num stand mais acima, a despeito de Adolf Hitler já não estar em condições de dar autógrafos.

Leio agora a entrevista em que o inglês Howard Jacobsen ironiza com a ideia de que tem cada vez menos leitores à medida que escreve mais livros e se torna mais conhecido. Talvez não seja um fenómeno tão bizarro assim. Entre um criminoso morto e um escritor disponível para escrever, conversar e dar autógrafos, as pessoas preferem o criminoso com o ridículo bigodinho de palhaço, ou o palhaço rico com o penteado esquisito de esquilo morto.

À minha luta perco-a, assim, a cada dia que passa e a cada livro que escrevo. Cada vez me doem mais os dias e os livros. Cada vez magoa mais a certeza de que os escrevo para (quase) ninguém.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Infância*
















Como quase tudo o que é humano, imperfeito e transitório, as frases “Escrevo o que quero escrever, nunca escrevo o que quero”, que são o mote deste encontro, só aparentemente constituem uma contradição. A incoerência, se for disso que se trata, reside na própria vida e nas suas múltiplas e diversas manifestações, na maravilha que é não ter certezas e, mesmo assim, continuar a fazer isto ou aquilo cumprindo o subjectivo desígnio que é viver. Quer se empregue o tempo a escrever, a desenhar, a amar ou a colar cartazes, existir é, em si, um paradoxo essencial e muito humanamente alheio às certezas aritméticas daqueles que, nunca tendo dúvidas, também se enganam (e nem sempre tão raramente como julgam). Viver é essencialmente a arte de falhar, aprender com o erro e seguir adiante. Com a literatura não sucede de forma diferente.

Escrever livros, ou proferir conferências em festivais literários como este, é quase sempre o caminho mais curto e recto para o ridículo ou para que alguém se veja recoberto com uma camada de alcatrão com penas com a qual se castigavam os farsantes e os larápios nas histórias de Lucky Luke, o cowboy mais rápido do que a própria sombra.

Ainda que metafóricos, o alcatrão e as penas do faroeste (e do ridículo) constituem o principal medo atávico de uma boa parte os escritores, quer dos escritores que escrevem quer daqueles que adquirem o complexo de Bartleby e preferem não o fazer. É-o também para os escritores postos a falar diante de uma audiência como esta. Escrever ou falar para que outros o leiam, escutem e avaliem é quase sempre um número tão arriscado quanto um qualquer funambulismo de circo. Não se quebra a espinha na queda, mas é o próprio ego que padece e geme, contundido pelo vexame do severo juiz que trazem dentro as pessoas não demasiado cheias de si próprias (ou que não se alimentem da empáfia que produzem).

Dito isto, peço que notem que ninguém me obrigou a estar neste palco, atrás desta mesa, e que, tal como sucede quando escrevo, aqui estou apenas a produzir as frases que quero e as suaves irrelevâncias em que milhões de neurónios chafurdaram enquanto tentava escrever isto que agora leio.

Assim como sucede enquanto faço aquilo a que se convencionou chamar literatura, limito-me aqui, esta tarde, a tentar empurrar ladeira acima a proverbial pedra de mármore desta alocução, a qual rolará montanha abaixo antes de ter conseguido levá-la até ao cume. No próximo ano, ou noutro qualquer festival de escritores, é quase certo que, qual Sísifo, voltarei a cumprir o bem pouco divino castigo de tentar espantar ou, ao menos, satisfazer a curiosidade de quem me escute, correndo outra vez o risco de fracassar. E, outra vez, a pedra rolará montanha abaixo, e eu com ela, quebrando nisto todos os ossos do meu anémico ego.

Sou, esta é a verdade, um indivíduo que padece de horror ao vexame e à vergonha da queda pública, e que, ao mesmo tempo, sofre de uma indómita e irrefreável atracção pelo abismo. Vivo entre a hesitação, a insegurança e o escrúpulo excessivo, por um lado, e um exibicionismo quase inconsciente, por outro. E por isso aqui estou expondo-me outra vez ao piche e às penas da vossa indiferença ou do vosso desdém, incorrendo exactamente no mesmo lapso de carácter que me leva a escrever um e outro livros com a certeza prévia e clara que nunca serei capaz de “escrever o que quero” — se calhar por não estar bem certo do que quero, se calhar por ser incapaz de perceber distintamente a formidável distância que vai do meu projecto à minha capacidade para o executar.

Talvez mais importante e essencial do que determinar se apenas escrevo o que realmente quero — e juro sobre o gargalo da minha melhor garrafa de vinho que o faço mesmo quando me limito a dar resposta a uma encomenda —, será questionar-me sobre os motivos pelos quais escrevo. Só a partir daqui, creio, será possível avaliar o resultado deste labor.

Ora, tanto quanto é possível auto-analisar-me, são vários os motivos que me levaram, há mais de 20 anos, a iniciar-me nesta venturosa perda de tempo que é a literatura. Fi-lo, desde logo, por não saber fazer mais nada, mas também, não nego, para obter reconhecimento, para que as outras pessoas gostem de mim e do que escrevo, e porque me agrada a possibilidade algo demiúrgica de reconstruir o mundo e recontá-lo à medida dos meus medos e dos sonhos, das minhas angústias, desilusões, entusiasmos e fantasmas.

Poderia, neste ponto, e sem faltar à verdade, invocar a já quase clássica definição de Gabriel García Márquez nos “Cem Anos de Solidão” e dizer que escrevo livros desde que percebi que a literatura é “o melhor brinquedo (...) para gozar com as outras pessoas”, acrescentando, porém, que a literatura também é a forma mais saudável de troçar de mim e de me pôr em causa.

Ainda melhor: como sugeria o Manuel António Pina numa crónica com muitos anos, a literatura é a melhor forma de fugir para o país de exílio que é a infância, onde me posso esconder e refugiar sempre que os ladrões da realidade venham para me roubar a inocência e os sonhos.

Escreveu o Pina que, embora as estatísticas não o refiram, há na nossa sociedade - liberal, fiscalista, economicista e austera - “uma enorme e perigosa carência de infância, de sonhos e de coisas verdadeiramente grandes”. Ora, escrever livros é, de certa forma, ser capaz de transcender e superar esta realidade. Enquanto escrevo, sou tão livre e louco como o filósofo Diógenes, que vivia dentro de um barril e carregava uma lamparina durante o dia a ver se encontrava um homem honesto que fosse — ou uma qualquer verdade essencial, íntegra e alheia à insensatez do quotidiano.

Escrevo, pois, carregando a minha tíbia lamparina de sonhador ou louco ao sol do meio dia. Faço-o como quem pratica um jogo infantil e lúdico, no qual o prazer e o desafio da busca são o único critério realmente válido. De todas as vezes julgo que erro e que fracasso; que não “escrevo o que quero”. Mas, se penso nisso mais detidamente, ocorre-me que esta permanente insatisfação, esta sensação de incompetência, não é outra coisa que uma forma de me enganar-me e de me fornecer o pretexto necessário para voltar a tentar uma e outra vez — como a criança que fui e construía castelos de areia demasiado próximos da espuma das ondas.

*Texto lido na edição de 2016 do festival literário Correntes d'Escritas


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Fisioterapia

Se não contar com a minha fisioterapeuta, que parece divertir-se bastante enquanto tenta esticar-me o pernil e eu me contorço com dores, a utente mais bem-disposta da fisioterapia é a senhora gorda que avança pelo corredor como uma animal pesado e lento e que, a cada passo, diz que vai ser violada. Através das cortinas, ouço-a repetir várias vezes a expressão, mas não me parece que o faça para se queixar de alguma coisa em concreto. Dito por ela, a frase "estão-me a violar" (sic) soa um pouco como uma ameaça nem sequer particularmente velada.

Esta manhã vi-a pela primeira vez quando entrou no corredor dos cubículos e passou diante da frincha da minha cortina. Usa o cabelo curto, penteado com água para disfarçar a falta de banho matinal (procedimento equivalente, em política, à frase "cometemos muitos erros" proferida por Pedro Passos Coelho). Enquanto passava pelo corredor, a mulher comentou que lhe faltava o homem e seguiu adiante. Daí a um pedaço, ouvi-a anunciar que se ia pôr de cu para o ar. Não sei bem porquê, mas também me lembrei de Passos Coelho e da posição preferida do governo a que este trampolineiro presidiu.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Mundos alienígenas

Um dos motivos pelos quais ainda tenho algum gosto por este blogue está relacionado com o facto de, noutros tempos, os textos que aqui publiquei terem sido lidos pelo Manuel António Pina – e que saudades temos do Pina e que falta que nos faz aquilo que ele escrevia para os jornais e para as revistas.

Esta manhã, enquanto lia a colectânea póstuma “Crónicas, Saudade da Literatura” para me distrair da electro-estimulação dos músculos da perna direita e das conversas dos outros idosos da fisioterapia – a vida nos bairros sociais, as casas sem condições, o hálito a vinho de um homem qualquer, a mãe que matou as duas filhas – encontrei a crónica “Mundos Alienígenas”, da qual o Pina me falou uma vez: disse-me que tinha escrito na Notícias Magazine alguma coisa sobre as minhas viagens de autocarro, mas eu nunca cheguei a ler o texto. Li-a apenas esta manhã, constatando que o Pina cometeu a proeza de incluir o meu nome da mesma frase onde também aparece o do energúmeno Pedro Passos Coelho.

Ora a minha convivência, numa mesma frase, com Passos Coelho é, assim de repente, uma das coisas mais alienígenas que me aconteceram, muito mais estranha do que todas as conversas destrambelhadas dos autocarros, do que o mundo cor-de-rosa das Bibás e das Mituxas, ou do que a vida das outras idosas da clínica fisiátrica. Lida cinco anos depois, a crónica do Pina parece-me produto de um universo paralelo e de um mundo que era um pouco melhor pelo simples facto de o Manuel António Pina ainda nele viver, fumando cigarrilhas e telefonando para contar anedotas e histórias intermináveis.

Sinto, às vezes, falta das viagens no autocarro e de escrever as histórias que ouvia e imaginava distorcendo-as. Mas o pior de tudo é saber que o Pina não voltará a escrever aquelas ironias certeiras que vinham todas as manhãs com o JN.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Princípio da protecção da confiança













Em 1990, quando comecei a trabalhar oficialmente, a pagar impostos e a descontar para a segurança social, a lei previa, salvo erro, que teria direito a aposentar-me ao fim de 30 anos de trabalho. Se a matemática não me trai, poderia, se me apetecesse, pedir a reforma daqui a 4 anos, ocupando o resto do tempo que tiver de vida como bem entender, talvez de um modo criativo e benemérito, talvez escrevendo livros, talvez fazendo voluntariado, talvez, epicurista como um nababo ou um turista inglês no Algarve, esfregando manteiga na barriga ao sol. Espero, por isso, que o Tribunal Constitucional tenha em conta as legítimas expectativas que criei e que, defendendo o princípio da protecção da confiança, impeça o Estado de me forçar à violência de trabalhar até aos 67, 70 ou sabe-se lá quantos anos. Obrigado.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Mastigar com moderação: um programa eleitoral para a presidência da república

O vasto conjunto de indivíduos muito desagradáveis que se candidataram à presidência da república com o singular intuito de estorvar Marcelo Rebelo de Sousa até podem empenhar-se em negá-lo com veemência, mas o ex-comentador da TVI tem demonstrado à exaustão que não só é a absoluta personificação da "moderação" como, além disso, é também muito diferente de Cavaco Silva.

Tanto quanto tenho podido acompanhar pelos órgãos de comunicação social, Marcelo aparece quase todos os dias a mastigar alguma coisa em algum canto do país, antes ou depois de proferir alguma declaração neutra e irrelevante. Seja fogaça, croquete, lasca de presunto, pastel de nata, banana, lanche ou outra coisa qualquer, o candidato come tudo o que lhe surja pela frente - e com que soberba classe o faz!

Cavaco, sabe-se, mastiga de uma modo alarve e capaz de envergonhar tanto a pátria como a família mais chegada. Marcelo, pelo contrário, mastiga com a elegância e a elevação de alguém que tem Cascais no sangue e que frequentou com igual à-vontade os grandes salões de pelo menos dois regimes políticos. A sua mastigação é, assim, cuidada e muitíssimo telegénica, à altura de um chefe de Estado de qualquer país civilizado. O "professor" não se limita a pregar a moderação: exemplifica-a a cada paragem da sua caravana, mastigando com enorme equilíbrio e ponderação. E nisto se distingue absolutamente da múmia que actualmente ocupa o cargo.

Pelo que tenho podido perceber, a mastigação com moderação resume todo o programa do candidato mais bem colocado para ser o próximo presidente da república do meu país. Estamos, pois, bem arranjados.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Que os festejos comecem


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Orientações

As crónicas mensais na revista Notícias Magazine podem ser lidas aqui.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Tradutor automático do jornalismo português para português#1

As notícias desta manhã diziam que um banco em dificuldades (vocês sabem de que estou a falar) será socorrido por "um fundo para absorver activos tóxicos". Em português é: os portugueses vão ser chamados a tapar com os seus impostos o buraco nas contas do banco deixado pelo roubo de um grupo de engravatados com boa relações com o poder.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Boas notícias















Inicio no próximo domingo uma nova crónica regular na revista nacional de maior circulação, a Notícias Magazine, distribuída com o Jornal de Notícias e com o Diário de Notícias . Depois haverá texto novo a cada quatro semanas, alternando com o José Luís Peixoto, com o Afonso Cruz e com a Ana Bacalhau.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Promoção da leitura: o empolgante exemplo angolano

Hoje, num jornal cujo nome não quero recordar, o advogado Francisco Teixeira da Mota escreve: "Por estes dias, em Luanda, está a escrever-se uma página triste do Poder Judicial angolano".
Na página anterior, um editorialista anónimo considera que o julgamento de um grupo de activista pró-democracia em Angola é "um triste simulacro de justiça".
Eu, que gosto de ver o lado positivo que há em todas as coisas (ou que, pelo menos, gosto de dar esta impressão quando me convém), defendo que ambas as análises estão inquinadas pela má fé, dando razão aos sempre perspicazes editoriais do Jornal de Angola (os quais, quando não são perspicazes, são, pelo menos, belas peças de humor e muito divertidos de ler). Para mitigar o colonialismo e a óbvia má vontade, bastaria, porém, que os articulistas ressabiados tivessem lido a página 27 do mesmo inominável diário.
Ali se lê que o juiz do processo dos activistas decidiu que o livro "Da Ditadura à Democracia", do norte-americano Gene Sharp, será integralmente lido na sala do tribunal. Ontem, por exemplo, já se escutou o conteúdo de 32 das 180 páginas que o compõem.
Em países civilizados como a Alemanha, as pessoas pagam para assistir a sessões públicas de leitura de livros, reconhecendo que tais espectáculos são importantes para uma formação cultural sólida. Em Angola, o estado social de José Eduardo dos Santos oferece gratuitamente sessões públicas de leitura, ainda por cima de livros de autores estrangeiros e abordando temas fracturantes, mas, ainda assim, tudo o que a gentalha consegue fazer é dizer mal.
E que tal se, em vez de procurarem criticar e desacreditar o Poder Judicial angolano, dessem o braço a torcer e elogiassem o exemplar programa de promoção da leitura?

P.S,: A gerência deste blogue faz votos para que, no próximo julgamento de um homicídio perpetrado contra uma senhora idosa, a instrutiva justiça angolana promova a leitura de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, na sala de audiência.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Desagravo formal e urgente à vilipendiada banana da Madeira
















Um dia destes, prometo, hei-de ser capaz de desligar o rádio e a televisão, evitando, deste modo, aborrecer-me com o abundante caudal de esterco que produzem os representantes das instituições que concentram a atenção dos jornalistas, essa massa infecta que vai dos presidentes de clubes de futebol ao presidente da república (sem esquecer os bitaiteiros e líderes do PàF, da CIP, da CCP, da UGT, da UE, do BCE e das siglas bancárias em geral). Hoje, porém, tomei conhecimento das declarações elogiosas proferidas pelo indivíduo senil que é a primeira figura do Estado e que tiveram por alvo a banana da Madeira, nomeadamente o seu tamanho e sabor. Ora a banana da Madeira é, com efeito, um magnífico fruto, sobretudo quando é pequeno por não ter crescido à pressa dentro dos sacos de plástico azuis que agora pintam as encostas da ilha. Quando limpa e honesta, não há banana mais saborosa, pelo que, embora conspurcada pelo elogio de Cavaco, importa deixar claro que as bananas da Madeira não podem ser todas confundidas com a badalhoca turbinada que o presidente da república mastigou. Nem o Cavaco consegue estragar todas as bananas da ilha.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Não mexam na minha chouriça















Um dia, se obedecermos cegamente aos alertas cancerígenos da Organização Mundial de Saúde, havemos de morrer todos muitíssimo saudáveis. Desta vez, o dictat sanitário recaiu sobre as salsichas, o fiambre, o bacon, a carne vermelha e os enchidos, essa ameaça insidiosa e vil. As minhas chouriças estão desde ontem cabisbaixas e tristonhas, os presuntos todos que hei-de comer puseram-se macambúzios e até me parece que agora manquejam um pouco por causa de uma dor que os apanha pelos quartos e que talvez seja uma espécie de ciática post mortem. Safaram-se, mesmo à justa, as duas alheiras que, furtivo, ingeri no fim-de-semana passado, indiferente à histeria da botulina, mas, ainda assim, tenho agora necessidade de me sentar perto das chouriças que tenho em casa e de ficar muito tempo a conversar com elas enquanto fumo escandalosas cigarrilhas. Digo-lhes que não há-de ser nada. Que a OMS também em tempos decretou o malefício cancerígeno do diesel e que não foi por isso que a Volkswagen ou as outras marcas deixaram de produzir os diabólicos motores, nem os carros fatais cessaram de andar por aí poluindo e envenenando o ar alheio. À minha chouriça, porém, não a abandona uma certa melancolia, a soturnidade injustiçada que ontem a acometeu. Digo-lhe que não queira saber dos títulos dos jornais, dos alarmes das televisões. Que hei-de comê-la até que a morte nos separe, prometo. Ela afasta os olhos para a janela, para ver Outubro declinando, o cortejo de morte das folhas dos plátanos, o velório dos aguaceiros. Hei-de comer-te até que a morte nos separe, repito. Sem me encarar, porém, ela verte uma lágrima furtiva e sussurra-me que digo a mesma coisa a todas.