Se não contar com a minha fisioterapeuta, que parece divertir-se bastante enquanto tenta esticar-me o pernil e eu me contorço com dores, a utente mais bem-disposta da fisioterapia é a senhora gorda que avança pelo corredor como uma animal pesado e lento e que, a cada passo, diz que vai ser violada. Através das cortinas, ouço-a repetir várias vezes a expressão, mas não me parece que o faça para se queixar de alguma coisa em concreto. Dito por ela, a frase "estão-me a violar" (sic) soa um pouco como uma ameaça nem sequer particularmente velada.
Esta manhã vi-a pela primeira vez quando entrou no corredor dos cubículos e passou diante da frincha da minha cortina. Usa o cabelo curto, penteado com água para disfarçar a falta de banho matinal (procedimento equivalente, em política, à frase "cometemos muitos erros" proferida por Pedro Passos Coelho). Enquanto passava pelo corredor, a mulher comentou que lhe faltava o homem e seguiu adiante. Daí a um pedaço, ouvi-a anunciar que se ia pôr de cu para o ar. Não sei bem porquê, mas também me lembrei de Passos Coelho e da posição preferida do governo a que este trampolineiro presidiu.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Mundos alienígenas
Um dos motivos pelos quais ainda tenho algum gosto por este
blogue está relacionado com o facto de, noutros tempos, os textos que aqui
publiquei terem sido lidos pelo Manuel António Pina – e que saudades temos do
Pina e que falta que nos faz aquilo que ele escrevia para os jornais e para as
revistas.
Esta manhã, enquanto lia a colectânea póstuma “Crónicas,
Saudade da Literatura” para me distrair da electro-estimulação dos músculos da
perna direita e das conversas dos outros idosos da fisioterapia – a vida nos
bairros sociais, as casas sem condições, o hálito a vinho de um homem qualquer,
a mãe que matou as duas filhas – encontrei a crónica “Mundos Alienígenas”, da
qual o Pina me falou uma vez: disse-me que tinha escrito na Notícias Magazine
alguma coisa sobre as minhas viagens de autocarro, mas eu nunca cheguei a ler o
texto. Li-a apenas esta manhã, constatando que o Pina cometeu a proeza de
incluir o meu nome da mesma frase onde também aparece o do energúmeno Pedro
Passos Coelho.
Ora a minha convivência, numa mesma frase, com Passos Coelho
é, assim de repente, uma das coisas mais alienígenas que me aconteceram, muito
mais estranha do que todas as conversas destrambelhadas dos autocarros, do que
o mundo cor-de-rosa das Bibás e das Mituxas, ou do que a vida das outras idosas
da clínica fisiátrica. Lida cinco anos depois, a crónica do Pina parece-me
produto de um universo paralelo e de um mundo que era um pouco melhor pelo
simples facto de o Manuel António Pina ainda nele viver, fumando cigarrilhas e
telefonando para contar anedotas e histórias intermináveis.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Princípio da protecção da confiança
Em 1990, quando comecei a trabalhar oficialmente, a pagar impostos e a descontar para a segurança social, a lei previa, salvo erro, que teria direito a aposentar-me ao fim de 30 anos de trabalho. Se a matemática não me trai, poderia, se me apetecesse, pedir a reforma daqui a 4 anos, ocupando o resto do tempo que tiver de vida como bem entender, talvez de um modo criativo e benemérito, talvez escrevendo livros, talvez fazendo voluntariado, talvez, epicurista como um nababo ou um turista inglês no Algarve, esfregando manteiga na barriga ao sol. Espero, por isso, que o Tribunal Constitucional tenha em conta as legítimas expectativas que criei e que, defendendo o princípio da protecção da confiança, impeça o Estado de me forçar à violência de trabalhar até aos 67, 70 ou sabe-se lá quantos anos. Obrigado.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Mastigar com moderação: um programa eleitoral para a presidência da república
O vasto conjunto de indivíduos muito desagradáveis que se candidataram à presidência da república com o singular intuito de estorvar Marcelo Rebelo de Sousa até podem empenhar-se em negá-lo com veemência, mas o ex-comentador da TVI tem demonstrado à exaustão que não só é a absoluta personificação da "moderação" como, além disso, é também muito diferente de Cavaco Silva.
Tanto quanto tenho podido acompanhar pelos órgãos de comunicação social, Marcelo aparece quase todos os dias a mastigar alguma coisa em algum canto do país, antes ou depois de proferir alguma declaração neutra e irrelevante. Seja fogaça, croquete, lasca de presunto, pastel de nata, banana, lanche ou outra coisa qualquer, o candidato come tudo o que lhe surja pela frente - e com que soberba classe o faz!
Cavaco, sabe-se, mastiga de uma modo alarve e capaz de envergonhar tanto a pátria como a família mais chegada. Marcelo, pelo contrário, mastiga com a elegância e a elevação de alguém que tem Cascais no sangue e que frequentou com igual à-vontade os grandes salões de pelo menos dois regimes políticos. A sua mastigação é, assim, cuidada e muitíssimo telegénica, à altura de um chefe de Estado de qualquer país civilizado. O "professor" não se limita a pregar a moderação: exemplifica-a a cada paragem da sua caravana, mastigando com enorme equilíbrio e ponderação. E nisto se distingue absolutamente da múmia que actualmente ocupa o cargo.
Pelo que tenho podido perceber, a mastigação com moderação resume todo o programa do candidato mais bem colocado para ser o próximo presidente da república do meu país. Estamos, pois, bem arranjados.
Tanto quanto tenho podido acompanhar pelos órgãos de comunicação social, Marcelo aparece quase todos os dias a mastigar alguma coisa em algum canto do país, antes ou depois de proferir alguma declaração neutra e irrelevante. Seja fogaça, croquete, lasca de presunto, pastel de nata, banana, lanche ou outra coisa qualquer, o candidato come tudo o que lhe surja pela frente - e com que soberba classe o faz!
Cavaco, sabe-se, mastiga de uma modo alarve e capaz de envergonhar tanto a pátria como a família mais chegada. Marcelo, pelo contrário, mastiga com a elegância e a elevação de alguém que tem Cascais no sangue e que frequentou com igual à-vontade os grandes salões de pelo menos dois regimes políticos. A sua mastigação é, assim, cuidada e muitíssimo telegénica, à altura de um chefe de Estado de qualquer país civilizado. O "professor" não se limita a pregar a moderação: exemplifica-a a cada paragem da sua caravana, mastigando com enorme equilíbrio e ponderação. E nisto se distingue absolutamente da múmia que actualmente ocupa o cargo.
Pelo que tenho podido perceber, a mastigação com moderação resume todo o programa do candidato mais bem colocado para ser o próximo presidente da república do meu país. Estamos, pois, bem arranjados.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Tradutor automático do jornalismo português para português#1
As notícias desta manhã diziam que um banco em dificuldades (vocês sabem de que estou a falar) será socorrido por "um fundo para absorver activos tóxicos". Em português é: os portugueses vão ser chamados a tapar com os seus impostos o buraco nas contas do banco deixado pelo roubo de um grupo de engravatados com boa relações com o poder.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Boas notícias
Inicio no próximo domingo uma nova crónica regular na revista nacional de maior circulação, a Notícias Magazine, distribuída com o Jornal de Notícias e com o Diário de Notícias . Depois haverá texto novo a cada quatro semanas, alternando com o José Luís Peixoto, com o Afonso Cruz e com a Ana Bacalhau.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Promoção da leitura: o empolgante exemplo angolano
Hoje, num jornal cujo nome não quero recordar, o advogado Francisco Teixeira da Mota escreve: "Por estes dias, em Luanda, está a escrever-se uma página triste do Poder Judicial angolano".
Na página anterior, um editorialista anónimo considera que o julgamento de um grupo de activista pró-democracia em Angola é "um triste simulacro de justiça".
Eu, que gosto de ver o lado positivo que há em todas as coisas (ou que, pelo menos, gosto de dar esta impressão quando me convém), defendo que ambas as análises estão inquinadas pela má fé, dando razão aos sempre perspicazes editoriais do Jornal de Angola (os quais, quando não são perspicazes, são, pelo menos, belas peças de humor e muito divertidos de ler). Para mitigar o colonialismo e a óbvia má vontade, bastaria, porém, que os articulistas ressabiados tivessem lido a página 27 do mesmo inominável diário.
Ali se lê que o juiz do processo dos activistas decidiu que o livro "Da Ditadura à Democracia", do norte-americano Gene Sharp, será integralmente lido na sala do tribunal. Ontem, por exemplo, já se escutou o conteúdo de 32 das 180 páginas que o compõem.
Em países civilizados como a Alemanha, as pessoas pagam para assistir a sessões públicas de leitura de livros, reconhecendo que tais espectáculos são importantes para uma formação cultural sólida. Em Angola, o estado social de José Eduardo dos Santos oferece gratuitamente sessões públicas de leitura, ainda por cima de livros de autores estrangeiros e abordando temas fracturantes, mas, ainda assim, tudo o que a gentalha consegue fazer é dizer mal.
E que tal se, em vez de procurarem criticar e desacreditar o Poder Judicial angolano, dessem o braço a torcer e elogiassem o exemplar programa de promoção da leitura?
P.S,: A gerência deste blogue faz votos para que, no próximo julgamento de um homicídio perpetrado contra uma senhora idosa, a instrutiva justiça angolana promova a leitura de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, na sala de audiência.
Na página anterior, um editorialista anónimo considera que o julgamento de um grupo de activista pró-democracia em Angola é "um triste simulacro de justiça".
Eu, que gosto de ver o lado positivo que há em todas as coisas (ou que, pelo menos, gosto de dar esta impressão quando me convém), defendo que ambas as análises estão inquinadas pela má fé, dando razão aos sempre perspicazes editoriais do Jornal de Angola (os quais, quando não são perspicazes, são, pelo menos, belas peças de humor e muito divertidos de ler). Para mitigar o colonialismo e a óbvia má vontade, bastaria, porém, que os articulistas ressabiados tivessem lido a página 27 do mesmo inominável diário.
Ali se lê que o juiz do processo dos activistas decidiu que o livro "Da Ditadura à Democracia", do norte-americano Gene Sharp, será integralmente lido na sala do tribunal. Ontem, por exemplo, já se escutou o conteúdo de 32 das 180 páginas que o compõem.
Em países civilizados como a Alemanha, as pessoas pagam para assistir a sessões públicas de leitura de livros, reconhecendo que tais espectáculos são importantes para uma formação cultural sólida. Em Angola, o estado social de José Eduardo dos Santos oferece gratuitamente sessões públicas de leitura, ainda por cima de livros de autores estrangeiros e abordando temas fracturantes, mas, ainda assim, tudo o que a gentalha consegue fazer é dizer mal.
E que tal se, em vez de procurarem criticar e desacreditar o Poder Judicial angolano, dessem o braço a torcer e elogiassem o exemplar programa de promoção da leitura?
P.S,: A gerência deste blogue faz votos para que, no próximo julgamento de um homicídio perpetrado contra uma senhora idosa, a instrutiva justiça angolana promova a leitura de Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, na sala de audiência.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Desagravo formal e urgente à vilipendiada banana da Madeira
Um dia destes, prometo, hei-de ser capaz de desligar o rádio e a televisão, evitando, deste modo, aborrecer-me com o abundante caudal de esterco que produzem os representantes das instituições que concentram a atenção dos jornalistas, essa massa infecta que vai dos presidentes de clubes de futebol ao presidente da república (sem esquecer os bitaiteiros e líderes do PàF, da CIP, da CCP, da UGT, da UE, do BCE e das siglas bancárias em geral). Hoje, porém, tomei conhecimento das declarações elogiosas proferidas pelo indivíduo senil que é a primeira figura do Estado e que tiveram por alvo a banana da Madeira, nomeadamente o seu tamanho e sabor. Ora a banana da Madeira é, com efeito, um magnífico fruto, sobretudo quando é pequeno por não ter crescido à pressa dentro dos sacos de plástico azuis que agora pintam as encostas da ilha. Quando limpa e honesta, não há banana mais saborosa, pelo que, embora conspurcada pelo elogio de Cavaco, importa deixar claro que as bananas da Madeira não podem ser todas confundidas com a badalhoca turbinada que o presidente da república mastigou. Nem o Cavaco consegue estragar todas as bananas da ilha.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Não mexam na minha chouriça
Um dia, se obedecermos cegamente aos alertas cancerígenos da Organização Mundial de Saúde, havemos de morrer todos muitíssimo saudáveis. Desta vez, o dictat sanitário recaiu sobre as salsichas, o fiambre, o bacon, a carne vermelha e os enchidos, essa ameaça insidiosa e vil. As minhas chouriças estão desde ontem cabisbaixas e tristonhas, os presuntos todos que hei-de comer puseram-se macambúzios e até me parece que agora manquejam um pouco por causa de uma dor que os apanha pelos quartos e que talvez seja uma espécie de ciática post mortem. Safaram-se, mesmo à justa, as duas alheiras que, furtivo, ingeri no fim-de-semana passado, indiferente à histeria da botulina, mas, ainda assim, tenho agora necessidade de me sentar perto das chouriças que tenho em casa e de ficar muito tempo a conversar com elas enquanto fumo escandalosas cigarrilhas. Digo-lhes que não há-de ser nada. Que a OMS também em tempos decretou o malefício cancerígeno do diesel e que não foi por isso que a Volkswagen ou as outras marcas deixaram de produzir os diabólicos motores, nem os carros fatais cessaram de andar por aí poluindo e envenenando o ar alheio. À minha chouriça, porém, não a abandona uma certa melancolia, a soturnidade injustiçada que ontem a acometeu. Digo-lhe que não queira saber dos títulos dos jornais, dos alarmes das televisões. Que hei-de comê-la até que a morte nos separe, prometo. Ela afasta os olhos para a janela, para ver Outubro declinando, o cortejo de morte das folhas dos plátanos, o velório dos aguaceiros. Hei-de comer-te até que a morte nos separe, repito. Sem me encarar, porém, ela verte uma lágrima furtiva e sussurra-me que digo a mesma coisa a todas.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
BemMarMeQuer
Caso interesse a alguém, gostei bastante da peça "BemMarMeQuer", centésima quinta produção do Teatro Art'Imagem, que está em cena no Teatro do Campo Alegre. Baseado na obra "Mar Me Quer", de Mia Couto, é uma demonstração viva da possibilidade de fazer um bom espectáculo de teatro com poucos meios, muita humildade, bom senso e quase nenhum apoio. Como diz o avô Celestino, "quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós". Ide ver.
Cada macaco no seu embondeiro
Assinei há algum tempo o documento da Amnistia Internacional pela libertação dos quinze presos políticos do regime angolano (chamo-lhe assim por não ser capaz de conceber uma democracia onde haja pessoas presas por terem lido um determinado livro), mas procurarei manter a sensatez de não escrever nenhum apelo aos líderes do regime. Tenho a certeza absoluta de que eles não o leriam.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Leitores vivos e mortos
Palavra de honra: acabo de ler numa revista de referência a frase "se [Luaty Beirão] ainda estiver vivo quando ler estas linhas".
Também eu, às vezes, acalento a improvável esperança de que algum leitor venha ainda tropeçar neste blogue moribundo e que, quem sabe, se interesse pelo que aqui está escrito. Também nesse caso não cuidarei de saber se está vivo ou morto, ou que marca de perfume usa. Se é leitor, só pode ser coisa boa.
Também eu, às vezes, acalento a improvável esperança de que algum leitor venha ainda tropeçar neste blogue moribundo e que, quem sabe, se interesse pelo que aqui está escrito. Também nesse caso não cuidarei de saber se está vivo ou morto, ou que marca de perfume usa. Se é leitor, só pode ser coisa boa.
domingo, 18 de outubro de 2015
Chão em chamas
O romance "As Sereias do Mindelo" tinha sido editado há mais de um ano quando um jornalista galego, num programa de televisão gravado na Faculdade de Filologia de Santiago de Compostela, me perguntou por que motivo o livro tinha um capítulo relativo a cada mês do ano excepto aquele que caberia ao mês de Fevereiro. Eu não tinha reparado nessa ausência, nessa falha. Os editores e os revisores também não tinham notado. Nenhum leitor que eu conhecesse havia apontado esse lapso. No entando, a falha lá estava e era inegável: após os capítulos Dezembro e Janeiro vinha o capítulo Março. Na entrevista, respondi como pude, tentando dissimular a surpresa e o embaraço, mas é possível que a dúvida nunca me tenha abandonado. Ontem, enquanto escutava mais um dos monumentais concertos da Orquestra Jazz de Matosinhos (à qual só se dá a devida atenção e reconhecimento quando actua em Lisboa ou Barcelona), lembrei-me do conto "Crescendo and diminuendo in blue", inspirado num músico de jazz cabo-verdiano e que, de algum modo, é uma pequena sequela da história de nha Irene, uma das sereias do Mindelo. Mas só esta manhã, depois de acordar, é que as coisas acabaram de encaixar-se. "Crescendo and diminuendo in blue" é o capítulo perdido do livro que, caso estivesse completo, devia ter-se chamado "Chão em chamas" e que teria exactamente doze capítulos, um por cada mês do ano.
Mulher triste
Passei esta tarde por uma mulher singular: tinha o cabelo pintado de vermelho, um vermelho escuro e triste, quase roxo, e estava sentada num daqueles mecos destinados a impedir que os carros estacionem em cima dos passeios. Enquanto me aproximava, percebi que a mulher estava a ler um livro e, por isso, entusiasmei-me um pouco. Talvez fosse uma leitora excêntrica e obsessiva, incapaz de resistir à maravilha de um capítulo qualquer, de uma frase. Quando fiquei suficientemente próximo da mulher, vi o título do livro: "Reveja os ensinamentos todos os dias". Tratava-se só de uma mulher triste, afinal.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Estrebuchar
Exceptuando os lucrativos casos em que são apascentados pelas mesmas celebridades que preenchem as páginas das revistas dedicadas à futilidade, os blogues estão mortos. Este blogue não é excepção: está morto e jaz na mesa de um teatro anatómico vazio, envolto em penumbra e moscas. Estando morto, tresanda. Mas, às vezes, ainda estrebucha.
A tragédia, o caos, o apocalipse
Também eu estou em sobressalto. Tal como as bolsas, os mercados financeiros, a matilha selvagem dos interesses instalados e a gatunagem em geral, acordo de noite aterrorizado com a possibilidade de um governo que junte o PS e a esquerda parlamentar, a qual, conforme se sabe, tem o hábito perverso de devorar criancinhas e de não frequentar o arco da governação nem as arcadas do Terreiro do Paço. Os meus pesadelos passaram a incluir cenários em que os juros sobem impulsionados pela gárgula assustadora da Catarina Martins, em que as cotações do PSI 20 desfalecem à simples menção do nome de algum Jerónimo que não seja também Martins e em que a banca afunda assim que lhe "cheira a Syriza". Imagino e temo um cenário em que os drogados chiques da bolsa, em plena trip de coca, provoquem um pandemónio e levem as empresas a destruir postos de trabalho; que, enfim, também eu perco o meu emprego. Mas depois acordo e ocorre-me que já não tenho um emprego e que passei a ser um prestador de serviços a termo certo, felizmente não tão mal remunerado como a maioria dos que ainda trabalham e sobreviveram a quatro anos de um governo de coligação de dois partidos que também concorreram a eleições separados, mas que, pelos vistos, já então eram um só corpo e um só espírito juntos por um só programa sem diferenças nem divergências irrevogáveis. Acordo e quero que se forniquem todos os Barrosos e todos os Pires de Lima, mais as respectivas trombetas do apocalipse. Volto-me na cama e constato que é para o lado que durmo melhor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Portugal. tenho vontade de vomitar. na tua boca
Tenho pensado bastante naquele poema do Jorge de Sousa Braga em que o poeta manifesta a vontade de beijar Portugal "muito apaixonadamente. na boca". Os versos vêm-me à cabeça na exacta medida em que tenho quase a certeza de que Portugal sofre de mau hálito, aftas, micose oral e outras doenças do foro estomatológico. Beijar Portugal na boca há-de, pois, ser muito nojento. Não tenho a mais pequena vontade de beijar um país pusilânime que elegeu quatro vezes um indivíduo como Cavaco Silva, a indigna figurinha que nem sequer estará presente nas comemorações da república de que é presidente (e que até já hasteou a respectiva bandeira de pernas para o ar). O Portugal mesquinho, pequenino, paroquial e medroso, o Portugal que há 80 anos venera, elege e teme os mesmos políticos, provoca-me um asco profundo. Penso nesse país que para aí vai em campanhas e sondagens, vejo-lhe a boca aberta, malcheirosa, desdentada — e só tenho vontade de vomitar.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Às portas da Europa
É uma coincidência que esteja a ler "Danúbio", o livro de Claudio Magris, enquanto volta a estar na ordem do dia o rio (e o eixo geográfico) para onde a História da Europa parece confluir ciclicamente. Da Sérvia para a Hungria, e depois para a Áustria e para a Alemanha, centenas de milhares de seres humanos desesperados voltam a percorrer o incontornável trilho. Recordo, por isso, o que Magris escreveu no capítulo "Os Turcos às portas de Viena", dedicado à batalha que, em 1863, manteve o islão fora da Europa, mas também a uma exposição que evocava aquela batalha. Aqui, uma fotografia de um moderno artista turco tinha como legenda a frase "Os nossos avós passaram por aqui a cavalo e nós varremos hoje estas ruas. A culpa é nossa e não dos austríacos". Regresso a esta frase e à catadupa de imagens que todos os dias chegam da Hungria, da Grécia, da Áustria e da Alemanha, ao menino sírio afogado e lançado como um destroço para uma praia turca, à imensa maré que outra vez procura subir o Danúbio - não já para cavalgar e conquistar, nem sequer para varrer as nossas ruas em busca de uma vida melhor. Estas pessoas que aí vêm procuram apenas, mas desesperadamente, algo tão simples como sobreviver. E pouco lhes interessa de quem é a culpa. Releio Magris: "O Danúbio corre, largo, e o vento da tarde passa pelo café ao ar livre como a respiração de uma velha Europa que talvez esteja já hoje nas margens do mundo, sem já produzir mas apenas consumindo História". Devagar, um dia após o outro, empanturrámo-nos da História e da realidade que bate com estrondo às portas da Europa.
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