segunda-feira, 26 de outubro de 2015
BemMarMeQuer
Caso interesse a alguém, gostei bastante da peça "BemMarMeQuer", centésima quinta produção do Teatro Art'Imagem, que está em cena no Teatro do Campo Alegre. Baseado na obra "Mar Me Quer", de Mia Couto, é uma demonstração viva da possibilidade de fazer um bom espectáculo de teatro com poucos meios, muita humildade, bom senso e quase nenhum apoio. Como diz o avô Celestino, "quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós". Ide ver.
Cada macaco no seu embondeiro
Assinei há algum tempo o documento da Amnistia Internacional pela libertação dos quinze presos políticos do regime angolano (chamo-lhe assim por não ser capaz de conceber uma democracia onde haja pessoas presas por terem lido um determinado livro), mas procurarei manter a sensatez de não escrever nenhum apelo aos líderes do regime. Tenho a certeza absoluta de que eles não o leriam.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Leitores vivos e mortos
Palavra de honra: acabo de ler numa revista de referência a frase "se [Luaty Beirão] ainda estiver vivo quando ler estas linhas".
Também eu, às vezes, acalento a improvável esperança de que algum leitor venha ainda tropeçar neste blogue moribundo e que, quem sabe, se interesse pelo que aqui está escrito. Também nesse caso não cuidarei de saber se está vivo ou morto, ou que marca de perfume usa. Se é leitor, só pode ser coisa boa.
Também eu, às vezes, acalento a improvável esperança de que algum leitor venha ainda tropeçar neste blogue moribundo e que, quem sabe, se interesse pelo que aqui está escrito. Também nesse caso não cuidarei de saber se está vivo ou morto, ou que marca de perfume usa. Se é leitor, só pode ser coisa boa.
domingo, 18 de outubro de 2015
Chão em chamas
O romance "As Sereias do Mindelo" tinha sido editado há mais de um ano quando um jornalista galego, num programa de televisão gravado na Faculdade de Filologia de Santiago de Compostela, me perguntou por que motivo o livro tinha um capítulo relativo a cada mês do ano excepto aquele que caberia ao mês de Fevereiro. Eu não tinha reparado nessa ausência, nessa falha. Os editores e os revisores também não tinham notado. Nenhum leitor que eu conhecesse havia apontado esse lapso. No entando, a falha lá estava e era inegável: após os capítulos Dezembro e Janeiro vinha o capítulo Março. Na entrevista, respondi como pude, tentando dissimular a surpresa e o embaraço, mas é possível que a dúvida nunca me tenha abandonado. Ontem, enquanto escutava mais um dos monumentais concertos da Orquestra Jazz de Matosinhos (à qual só se dá a devida atenção e reconhecimento quando actua em Lisboa ou Barcelona), lembrei-me do conto "Crescendo and diminuendo in blue", inspirado num músico de jazz cabo-verdiano e que, de algum modo, é uma pequena sequela da história de nha Irene, uma das sereias do Mindelo. Mas só esta manhã, depois de acordar, é que as coisas acabaram de encaixar-se. "Crescendo and diminuendo in blue" é o capítulo perdido do livro que, caso estivesse completo, devia ter-se chamado "Chão em chamas" e que teria exactamente doze capítulos, um por cada mês do ano.
Mulher triste
Passei esta tarde por uma mulher singular: tinha o cabelo pintado de vermelho, um vermelho escuro e triste, quase roxo, e estava sentada num daqueles mecos destinados a impedir que os carros estacionem em cima dos passeios. Enquanto me aproximava, percebi que a mulher estava a ler um livro e, por isso, entusiasmei-me um pouco. Talvez fosse uma leitora excêntrica e obsessiva, incapaz de resistir à maravilha de um capítulo qualquer, de uma frase. Quando fiquei suficientemente próximo da mulher, vi o título do livro: "Reveja os ensinamentos todos os dias". Tratava-se só de uma mulher triste, afinal.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Estrebuchar
Exceptuando os lucrativos casos em que são apascentados pelas mesmas celebridades que preenchem as páginas das revistas dedicadas à futilidade, os blogues estão mortos. Este blogue não é excepção: está morto e jaz na mesa de um teatro anatómico vazio, envolto em penumbra e moscas. Estando morto, tresanda. Mas, às vezes, ainda estrebucha.
A tragédia, o caos, o apocalipse
Também eu estou em sobressalto. Tal como as bolsas, os mercados financeiros, a matilha selvagem dos interesses instalados e a gatunagem em geral, acordo de noite aterrorizado com a possibilidade de um governo que junte o PS e a esquerda parlamentar, a qual, conforme se sabe, tem o hábito perverso de devorar criancinhas e de não frequentar o arco da governação nem as arcadas do Terreiro do Paço. Os meus pesadelos passaram a incluir cenários em que os juros sobem impulsionados pela gárgula assustadora da Catarina Martins, em que as cotações do PSI 20 desfalecem à simples menção do nome de algum Jerónimo que não seja também Martins e em que a banca afunda assim que lhe "cheira a Syriza". Imagino e temo um cenário em que os drogados chiques da bolsa, em plena trip de coca, provoquem um pandemónio e levem as empresas a destruir postos de trabalho; que, enfim, também eu perco o meu emprego. Mas depois acordo e ocorre-me que já não tenho um emprego e que passei a ser um prestador de serviços a termo certo, felizmente não tão mal remunerado como a maioria dos que ainda trabalham e sobreviveram a quatro anos de um governo de coligação de dois partidos que também concorreram a eleições separados, mas que, pelos vistos, já então eram um só corpo e um só espírito juntos por um só programa sem diferenças nem divergências irrevogáveis. Acordo e quero que se forniquem todos os Barrosos e todos os Pires de Lima, mais as respectivas trombetas do apocalipse. Volto-me na cama e constato que é para o lado que durmo melhor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Portugal. tenho vontade de vomitar. na tua boca
Tenho pensado bastante naquele poema do Jorge de Sousa Braga em que o poeta manifesta a vontade de beijar Portugal "muito apaixonadamente. na boca". Os versos vêm-me à cabeça na exacta medida em que tenho quase a certeza de que Portugal sofre de mau hálito, aftas, micose oral e outras doenças do foro estomatológico. Beijar Portugal na boca há-de, pois, ser muito nojento. Não tenho a mais pequena vontade de beijar um país pusilânime que elegeu quatro vezes um indivíduo como Cavaco Silva, a indigna figurinha que nem sequer estará presente nas comemorações da república de que é presidente (e que até já hasteou a respectiva bandeira de pernas para o ar). O Portugal mesquinho, pequenino, paroquial e medroso, o Portugal que há 80 anos venera, elege e teme os mesmos políticos, provoca-me um asco profundo. Penso nesse país que para aí vai em campanhas e sondagens, vejo-lhe a boca aberta, malcheirosa, desdentada — e só tenho vontade de vomitar.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Às portas da Europa
É uma coincidência que esteja a ler "Danúbio", o livro de Claudio Magris, enquanto volta a estar na ordem do dia o rio (e o eixo geográfico) para onde a História da Europa parece confluir ciclicamente. Da Sérvia para a Hungria, e depois para a Áustria e para a Alemanha, centenas de milhares de seres humanos desesperados voltam a percorrer o incontornável trilho. Recordo, por isso, o que Magris escreveu no capítulo "Os Turcos às portas de Viena", dedicado à batalha que, em 1863, manteve o islão fora da Europa, mas também a uma exposição que evocava aquela batalha. Aqui, uma fotografia de um moderno artista turco tinha como legenda a frase "Os nossos avós passaram por aqui a cavalo e nós varremos hoje estas ruas. A culpa é nossa e não dos austríacos". Regresso a esta frase e à catadupa de imagens que todos os dias chegam da Hungria, da Grécia, da Áustria e da Alemanha, ao menino sírio afogado e lançado como um destroço para uma praia turca, à imensa maré que outra vez procura subir o Danúbio - não já para cavalgar e conquistar, nem sequer para varrer as nossas ruas em busca de uma vida melhor. Estas pessoas que aí vêm procuram apenas, mas desesperadamente, algo tão simples como sobreviver. E pouco lhes interessa de quem é a culpa. Releio Magris: "O Danúbio corre, largo, e o vento da tarde passa pelo café ao ar livre como a respiração de uma velha Europa que talvez esteja já hoje nas margens do mundo, sem já produzir mas apenas consumindo História". Devagar, um dia após o outro, empanturrámo-nos da História e da realidade que bate com estrondo às portas da Europa.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Engolir em seco
Ahmed (chamemos-lhe assim) deu à costa numa praia turca. Viajava num barco de refugiados sírios que procuravam chegar à Grécia, fugindo de uma guerra que os ocidentais desejaram e incentivaram. Ahmed era apenas uma criança como outras que seguiam no barco naufragado e que amanheceram mortos com a cara enterrada no areal. Parece um boneco escangalhado, mas é um menino que talvez pudesse ter chegado à Alemanha, crescido, estudado e descoberto a cura para uma doença rara. Era, enfim, uma criança com direito a um futuro qualquer. Que a imagem de Ahmed nunca nos abandone a cabeça. Talvez, ao menos, nos previna um pouco da estupidez, da indiferença e da intolerância
Foto de Nilufer Demir/Reuters
P.S.: o menino da fotografia chama-se Aylan e tem três anos - terá para sempre três anos.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Cabeça no ar
Os jornais de ontem anunciavam a ocorrência de uma chuva de estrelas. Não vi nenhuma - talvez porque a manhã de hoje me pareceu perfeita para ficar na rua a fotografar nuvens. Qualquer pretexto parece ser bom quando se tem vontade de andar de cabeça no ar.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Tão farto disto
A pós-modernidade é fodida. Quando a morte de um leão numa caçada, por muito lamentável que seja, parece ser mais importante do que a morte de milhões de pessoas (à fome, à sede, a tentar passar uma fronteira), está tudo dito. Antigo, bota-de-elástico e fora de moda, lamento, claro, a sorte de Cecil, o felino mais famoso do Zimbabwe. Mas preocupa-me muito mais a sorte dos que fogem do apocalipse africano e a hipocrisia ocidental: os curdos são bons como carne para canhão na guerra contra o Estado Islâmico, mas péssimos enquanto vizinhos dos turcos. De dia são nossos aliados, à noite apoiamos aqueles que os bombardeiam. Estou tão farto disto. Tão farto.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Início e fim
Regressei há dias ao lugar da Cal. A casa onde viveu a minha bisavó Emília - e onde passei tantos momentos felizes a despeito de o lugar ser pouco mais do que um tugúrio miserável sem água canalizada, sem tectos, sem conforto nenhum - é agora uma ruína serena que o mato selvagem vai cobrindo aos poucos.
Já caíram os telhados e algumas paredes, e tudo me parece muito mais pequeno e acanhado do que na memória que guardo. A cozinha negra de fumo desabou, soterrando a noite em que, adolescentes à roda do fogo, fumámos cigarros de palha sem que a avó, cega, fosse capaz de nos ver. A varanda de madeira também já não existe e o terraço em cujo pó a avó conseguia adivinhar as horas parece agora demasiado pequeno para as histórias que lá vivi.
A despeito da ruína e da decrepitude, do aspecto quase arqueológico que agora tem, o lugar da Cal e as coisas que há em redor não perdem a sua condição essencial. São, como Castelo de Vide, o lugar das raízes, do começo. A origem e a justificação de uma parte do que sou e do que faço está nos sítios que percorro como se o intervalo da ausência fosse uma abstracção.
Não regresso a Castelo de Vide como nunca regresso à Cal, em Avitoure, Cinfães: sou dali. De um modo cuja explicação exigiria meditações rebuscadas, o miúdo magro que fui continua a correr pelas pedras irregulares dos caminhos agora calcetados, saltando de quelha em quelha ou nas pedras do leito do Bestança. Ao lado da ruína da Cal, num recanto onde as águas da rega formavam um pequeno charco, ainda estou capturando os girinos (a que chamávamos "cabeçudos") quando vêm à tona para respirar.
Voltar à Cal foi como mergulhar no início, num charco matricial a cuja superfície acedo às vezes para respirar o ar reparador da memória. Regressar e sentir os lugares pequenos e acanhados implica que alguma coisa se alterou na própria escala em que medimos as coisas que nos cercam. Talvez a Cal pareça pequena porque cresci. Talvez pareça pequena porque o mundo ao seu redor inchou. Não interessa. Na Cal estou como que de regresso a coisas essenciais e honestas, longe do buzz e das ribaltas, alheio à contabilidade dos likes nas redes sociais e às estatísticas de acessos ao blogue, distante da necessidade de que desconhecidos validem e aceitem o que faço e o que sou.
Na Cal, nas ruínas das minhas origens em Avitoure, Cinfães, sou tudo aquilo que era antes de tudo o que aconteceu depois. Sou aquilo que não faz sentido ser aqui.
Já caíram os telhados e algumas paredes, e tudo me parece muito mais pequeno e acanhado do que na memória que guardo. A cozinha negra de fumo desabou, soterrando a noite em que, adolescentes à roda do fogo, fumámos cigarros de palha sem que a avó, cega, fosse capaz de nos ver. A varanda de madeira também já não existe e o terraço em cujo pó a avó conseguia adivinhar as horas parece agora demasiado pequeno para as histórias que lá vivi.
A despeito da ruína e da decrepitude, do aspecto quase arqueológico que agora tem, o lugar da Cal e as coisas que há em redor não perdem a sua condição essencial. São, como Castelo de Vide, o lugar das raízes, do começo. A origem e a justificação de uma parte do que sou e do que faço está nos sítios que percorro como se o intervalo da ausência fosse uma abstracção.
Não regresso a Castelo de Vide como nunca regresso à Cal, em Avitoure, Cinfães: sou dali. De um modo cuja explicação exigiria meditações rebuscadas, o miúdo magro que fui continua a correr pelas pedras irregulares dos caminhos agora calcetados, saltando de quelha em quelha ou nas pedras do leito do Bestança. Ao lado da ruína da Cal, num recanto onde as águas da rega formavam um pequeno charco, ainda estou capturando os girinos (a que chamávamos "cabeçudos") quando vêm à tona para respirar.
Voltar à Cal foi como mergulhar no início, num charco matricial a cuja superfície acedo às vezes para respirar o ar reparador da memória. Regressar e sentir os lugares pequenos e acanhados implica que alguma coisa se alterou na própria escala em que medimos as coisas que nos cercam. Talvez a Cal pareça pequena porque cresci. Talvez pareça pequena porque o mundo ao seu redor inchou. Não interessa. Na Cal estou como que de regresso a coisas essenciais e honestas, longe do buzz e das ribaltas, alheio à contabilidade dos likes nas redes sociais e às estatísticas de acessos ao blogue, distante da necessidade de que desconhecidos validem e aceitem o que faço e o que sou.
Na Cal, nas ruínas das minhas origens em Avitoure, Cinfães, sou tudo aquilo que era antes de tudo o que aconteceu depois. Sou aquilo que não faz sentido ser aqui.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Lavagem a jacto
"O outono - escreveu Cortázar no início do conto Não se culpe ninguém - é um vestir e despir de pullovers, um ir-se fechando e alheando". E o inverno, já se sabe, é mais ou menos a mesma coisa (com picos gripais acentuados, mais muco no nariz e caos nas urgências hospitalares). Das notícias, ainda assim, chama-me sobretudo a atenção o nome de Hermes Freitas Magnus, brasileiro e denunciante de um caso de lavagem de dinheiro que envolve outra vez (e sempre) o BES. Leio o nome de Hermes Freitas Magnus e imediatamente me ocorre que este podia ser o nome de um personagem antigo do escritor Rubem Fonseca. Só depois me lembro que há de facto, no romance A Grande Arte, um personagem chamado Hermes, especialista no uso de facas e no chamado Percor (perfurar e cortar). No livro, Hermes ensina Mandrake, o advogado, a manejar as facas para se defender, mas acaba morto quando vai recolher uma cassete de video que comprometia Roberto Mitry, um personagem que, com a família Lima Prado e as organizações Aquiles, parece saído directamente da comissão de inquérito do BES. Thales Lima Prado, o primo, corrompe políticos e dedica-se a lavar dinheiro proveniente do tráfico de droga e de outros negócios ilegais. Na insânia que é viver, parece mesmo que a verdade e a ficção se confundem - como dois pullovers que se vestem e despem no longo calvário do outono-inverno.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Cereja
As eleições na Grécia aproximam-se e parece que o Syriza pode realmente ganhar (depois de toda a chantagem e de todo o preconceito). Entusiasmo-me um pouco com o Syriza, mas não já grande coisa, como me entusiasmei com Lula e com Obama. Gosto de acreditar ainda um pouco, mas não muito (que já não tenho idade para grandes desilusões), que ainda é possível ver um país com um governo realmente de esquerda, que governe para as pessoas reais (para as quais a inflação não é motivo para deitar foguetes) e que não acabe acobardado, corrompido, comprado, acomodado, bem comportado e bom aluno, transformado num mal menor e tolerado pelos cabrões da banca e da finança, e comendo à mesa com eles - igual aos outros enfim. Gosto do Syriza e gosto dos gregos que têm coragem de votar no Syriza e de dar uma vitória eleitoral ao Syriza, que ao menos têm coragem e tentam mudar a merda para atordoar e confundir um pouco as moscas de sempre. Gosto do Syriza e, se calhar, é apenas porque syriza, a palavra syriza, me faz lembrar a palavra cereja e, por causa disso, ouço e leio a palavra syriza e penso na Primavera e nos seus dias longos, na vida renascendo e no sabor doce da cereja acabada de romper com os dentes.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Matinal
De manhã cedo, pouco depois que o dia nasce, há uma animação febril diante das portas dos restaurantes e das confeitarias. Do bojo dos camiões saem grandes sacas de batatas e de cenouras, caixas de legumes frescos. De outro veículo, estacionado ao lado, dois homens acartam enormes embalagens de papel cheias de pedaços do carvão que, daí a pouco, há-de estar em brasa na grande labareda da churrascaria. Um outro camião detém-se mais adiante e as lonas abertas revelam sacos enormes de farinha de trigo. Cheira a terra, a húmus, a coisas essenciais e concretas, mas o trânsito passa e segue indiferente ao labor dos homens que carregam e descarregam o que havemos de comer - um pouco como se fossem seres invisíveis ou inexistentes e todas as coisas nascessem já prontas a consumir nos sítios onde as compramos. E, todavia, adquiro uma estranha consciência do mundo no momento em que vejo descarregar mais uma saca de carvão. O carregador, percebo, é uma máquina eficiente e discreta, tanto mais eficaz quanto mais invisível for, o que parece encerrar uma lição qualquer sobre a vida. Parece-me, enfim, que ver o carvão sendo descarregado me transforma num indivíduo mais sábio, embora não haja neste conhecimento senão força, suor e banalidade; nem haja naquilo que penso, observo e sinto mais do que banalidade, preguiça e sinais de um trágico sedentarismo burguês.
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