quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Engolir em seco
Ahmed (chamemos-lhe assim) deu à costa numa praia turca. Viajava num barco de refugiados sírios que procuravam chegar à Grécia, fugindo de uma guerra que os ocidentais desejaram e incentivaram. Ahmed era apenas uma criança como outras que seguiam no barco naufragado e que amanheceram mortos com a cara enterrada no areal. Parece um boneco escangalhado, mas é um menino que talvez pudesse ter chegado à Alemanha, crescido, estudado e descoberto a cura para uma doença rara. Era, enfim, uma criança com direito a um futuro qualquer. Que a imagem de Ahmed nunca nos abandone a cabeça. Talvez, ao menos, nos previna um pouco da estupidez, da indiferença e da intolerância
Foto de Nilufer Demir/Reuters
P.S.: o menino da fotografia chama-se Aylan e tem três anos - terá para sempre três anos.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Cabeça no ar
Os jornais de ontem anunciavam a ocorrência de uma chuva de estrelas. Não vi nenhuma - talvez porque a manhã de hoje me pareceu perfeita para ficar na rua a fotografar nuvens. Qualquer pretexto parece ser bom quando se tem vontade de andar de cabeça no ar.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Tão farto disto
A pós-modernidade é fodida. Quando a morte de um leão numa caçada, por muito lamentável que seja, parece ser mais importante do que a morte de milhões de pessoas (à fome, à sede, a tentar passar uma fronteira), está tudo dito. Antigo, bota-de-elástico e fora de moda, lamento, claro, a sorte de Cecil, o felino mais famoso do Zimbabwe. Mas preocupa-me muito mais a sorte dos que fogem do apocalipse africano e a hipocrisia ocidental: os curdos são bons como carne para canhão na guerra contra o Estado Islâmico, mas péssimos enquanto vizinhos dos turcos. De dia são nossos aliados, à noite apoiamos aqueles que os bombardeiam. Estou tão farto disto. Tão farto.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Início e fim
Regressei há dias ao lugar da Cal. A casa onde viveu a minha bisavó Emília - e onde passei tantos momentos felizes a despeito de o lugar ser pouco mais do que um tugúrio miserável sem água canalizada, sem tectos, sem conforto nenhum - é agora uma ruína serena que o mato selvagem vai cobrindo aos poucos.
Já caíram os telhados e algumas paredes, e tudo me parece muito mais pequeno e acanhado do que na memória que guardo. A cozinha negra de fumo desabou, soterrando a noite em que, adolescentes à roda do fogo, fumámos cigarros de palha sem que a avó, cega, fosse capaz de nos ver. A varanda de madeira também já não existe e o terraço em cujo pó a avó conseguia adivinhar as horas parece agora demasiado pequeno para as histórias que lá vivi.
A despeito da ruína e da decrepitude, do aspecto quase arqueológico que agora tem, o lugar da Cal e as coisas que há em redor não perdem a sua condição essencial. São, como Castelo de Vide, o lugar das raízes, do começo. A origem e a justificação de uma parte do que sou e do que faço está nos sítios que percorro como se o intervalo da ausência fosse uma abstracção.
Não regresso a Castelo de Vide como nunca regresso à Cal, em Avitoure, Cinfães: sou dali. De um modo cuja explicação exigiria meditações rebuscadas, o miúdo magro que fui continua a correr pelas pedras irregulares dos caminhos agora calcetados, saltando de quelha em quelha ou nas pedras do leito do Bestança. Ao lado da ruína da Cal, num recanto onde as águas da rega formavam um pequeno charco, ainda estou capturando os girinos (a que chamávamos "cabeçudos") quando vêm à tona para respirar.
Voltar à Cal foi como mergulhar no início, num charco matricial a cuja superfície acedo às vezes para respirar o ar reparador da memória. Regressar e sentir os lugares pequenos e acanhados implica que alguma coisa se alterou na própria escala em que medimos as coisas que nos cercam. Talvez a Cal pareça pequena porque cresci. Talvez pareça pequena porque o mundo ao seu redor inchou. Não interessa. Na Cal estou como que de regresso a coisas essenciais e honestas, longe do buzz e das ribaltas, alheio à contabilidade dos likes nas redes sociais e às estatísticas de acessos ao blogue, distante da necessidade de que desconhecidos validem e aceitem o que faço e o que sou.
Na Cal, nas ruínas das minhas origens em Avitoure, Cinfães, sou tudo aquilo que era antes de tudo o que aconteceu depois. Sou aquilo que não faz sentido ser aqui.
Já caíram os telhados e algumas paredes, e tudo me parece muito mais pequeno e acanhado do que na memória que guardo. A cozinha negra de fumo desabou, soterrando a noite em que, adolescentes à roda do fogo, fumámos cigarros de palha sem que a avó, cega, fosse capaz de nos ver. A varanda de madeira também já não existe e o terraço em cujo pó a avó conseguia adivinhar as horas parece agora demasiado pequeno para as histórias que lá vivi.
A despeito da ruína e da decrepitude, do aspecto quase arqueológico que agora tem, o lugar da Cal e as coisas que há em redor não perdem a sua condição essencial. São, como Castelo de Vide, o lugar das raízes, do começo. A origem e a justificação de uma parte do que sou e do que faço está nos sítios que percorro como se o intervalo da ausência fosse uma abstracção.
Não regresso a Castelo de Vide como nunca regresso à Cal, em Avitoure, Cinfães: sou dali. De um modo cuja explicação exigiria meditações rebuscadas, o miúdo magro que fui continua a correr pelas pedras irregulares dos caminhos agora calcetados, saltando de quelha em quelha ou nas pedras do leito do Bestança. Ao lado da ruína da Cal, num recanto onde as águas da rega formavam um pequeno charco, ainda estou capturando os girinos (a que chamávamos "cabeçudos") quando vêm à tona para respirar.
Voltar à Cal foi como mergulhar no início, num charco matricial a cuja superfície acedo às vezes para respirar o ar reparador da memória. Regressar e sentir os lugares pequenos e acanhados implica que alguma coisa se alterou na própria escala em que medimos as coisas que nos cercam. Talvez a Cal pareça pequena porque cresci. Talvez pareça pequena porque o mundo ao seu redor inchou. Não interessa. Na Cal estou como que de regresso a coisas essenciais e honestas, longe do buzz e das ribaltas, alheio à contabilidade dos likes nas redes sociais e às estatísticas de acessos ao blogue, distante da necessidade de que desconhecidos validem e aceitem o que faço e o que sou.
Na Cal, nas ruínas das minhas origens em Avitoure, Cinfães, sou tudo aquilo que era antes de tudo o que aconteceu depois. Sou aquilo que não faz sentido ser aqui.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Lavagem a jacto
"O outono - escreveu Cortázar no início do conto Não se culpe ninguém - é um vestir e despir de pullovers, um ir-se fechando e alheando". E o inverno, já se sabe, é mais ou menos a mesma coisa (com picos gripais acentuados, mais muco no nariz e caos nas urgências hospitalares). Das notícias, ainda assim, chama-me sobretudo a atenção o nome de Hermes Freitas Magnus, brasileiro e denunciante de um caso de lavagem de dinheiro que envolve outra vez (e sempre) o BES. Leio o nome de Hermes Freitas Magnus e imediatamente me ocorre que este podia ser o nome de um personagem antigo do escritor Rubem Fonseca. Só depois me lembro que há de facto, no romance A Grande Arte, um personagem chamado Hermes, especialista no uso de facas e no chamado Percor (perfurar e cortar). No livro, Hermes ensina Mandrake, o advogado, a manejar as facas para se defender, mas acaba morto quando vai recolher uma cassete de video que comprometia Roberto Mitry, um personagem que, com a família Lima Prado e as organizações Aquiles, parece saído directamente da comissão de inquérito do BES. Thales Lima Prado, o primo, corrompe políticos e dedica-se a lavar dinheiro proveniente do tráfico de droga e de outros negócios ilegais. Na insânia que é viver, parece mesmo que a verdade e a ficção se confundem - como dois pullovers que se vestem e despem no longo calvário do outono-inverno.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Cereja
As eleições na Grécia aproximam-se e parece que o Syriza pode realmente ganhar (depois de toda a chantagem e de todo o preconceito). Entusiasmo-me um pouco com o Syriza, mas não já grande coisa, como me entusiasmei com Lula e com Obama. Gosto de acreditar ainda um pouco, mas não muito (que já não tenho idade para grandes desilusões), que ainda é possível ver um país com um governo realmente de esquerda, que governe para as pessoas reais (para as quais a inflação não é motivo para deitar foguetes) e que não acabe acobardado, corrompido, comprado, acomodado, bem comportado e bom aluno, transformado num mal menor e tolerado pelos cabrões da banca e da finança, e comendo à mesa com eles - igual aos outros enfim. Gosto do Syriza e gosto dos gregos que têm coragem de votar no Syriza e de dar uma vitória eleitoral ao Syriza, que ao menos têm coragem e tentam mudar a merda para atordoar e confundir um pouco as moscas de sempre. Gosto do Syriza e, se calhar, é apenas porque syriza, a palavra syriza, me faz lembrar a palavra cereja e, por causa disso, ouço e leio a palavra syriza e penso na Primavera e nos seus dias longos, na vida renascendo e no sabor doce da cereja acabada de romper com os dentes.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Matinal
De manhã cedo, pouco depois que o dia nasce, há uma animação febril diante das portas dos restaurantes e das confeitarias. Do bojo dos camiões saem grandes sacas de batatas e de cenouras, caixas de legumes frescos. De outro veículo, estacionado ao lado, dois homens acartam enormes embalagens de papel cheias de pedaços do carvão que, daí a pouco, há-de estar em brasa na grande labareda da churrascaria. Um outro camião detém-se mais adiante e as lonas abertas revelam sacos enormes de farinha de trigo. Cheira a terra, a húmus, a coisas essenciais e concretas, mas o trânsito passa e segue indiferente ao labor dos homens que carregam e descarregam o que havemos de comer - um pouco como se fossem seres invisíveis ou inexistentes e todas as coisas nascessem já prontas a consumir nos sítios onde as compramos. E, todavia, adquiro uma estranha consciência do mundo no momento em que vejo descarregar mais uma saca de carvão. O carregador, percebo, é uma máquina eficiente e discreta, tanto mais eficaz quanto mais invisível for, o que parece encerrar uma lição qualquer sobre a vida. Parece-me, enfim, que ver o carvão sendo descarregado me transforma num indivíduo mais sábio, embora não haja neste conhecimento senão força, suor e banalidade; nem haja naquilo que penso, observo e sinto mais do que banalidade, preguiça e sinais de um trágico sedentarismo burguês.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Avenida do Brasil (work in progress)
Porto, Janeiro de 2015
Arrefece sempre um pouco à hora
incerta do lusco-fusco.
As nuvens passam voando como bandos
de pássaros lentos
e, para o sul, o horizonte é um incêndio
aceso
ardendo em lume laranja brando.
À Avenida do Brasil não chegam os terrores
cruéis dos boulevards de Paris,
nem as quotidianas misérias da pátria.
Ignoramos
por teimosia as carrancas dos telejornais
para que nenhuma notícia urgente venha
sobressaltar-nos enquanto escutamos
o gratuito rumor do crepúsculo.
Embriagados de maresia e vento, de ocaso
e melancolia, encolhemos o pescoço na gola
do casaco, como cágados,
e assalta-nos o receio de que, um
dia,
também a beleza das coisas simples
caia sob a grotesca alçada da autoridade
tributária e aduaneira
- e nos transforme a todos
em clandestinos traficantes do pôr-do-sol.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
A criança armadilhada
Apenas isto: uma frase no título de um jornal que inclui a expressão "criança armadilhada". Pode imaginar-se depois o horror. O corpo explodindo entre os clientes de um mercado da Nigéria como uma manga madura caindo da árvore e despedaçando-se no chão, os corpos esfacelados, mutilados, sangrando. Mas todo o mal está concentrado em duas palavras. Criança armadilhada. Repito-as. Criança armadilhada - e é como se, dizendo-o, estivesse já transformando o horror em alguma coisa mais tolerável do que era antes de alguém se ter lembrado de inventar a criança-bomba.
Escuro
Enxergar às escuras é uma faculdade sem grandes exigências. Basta fechar os olhos com força e ver tudo: o branco das paredes, o candeeiro apagado pendendo do tecto, os móveis quietos como coisas mortas, os chinelos pacientes, o retrato dela sorrindo na moldura, o corpo e o rosto da mulher que amas.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
A jihad também ri
Um dos silogismos resultantes do atentado jihadista à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, postula que os fanáticos radicais do islamismo não têm sentido de humor. Uma notícia da agência Reuters, que hoje vem reproduzida na última página do Jornal de Notícias, permite, porém, discordar daquela conclusão. O jihadista, fica demonstrado, também é capaz de fazer humor. Que o diga o emir do Estado Islâmico que foi encontrado morto e decapitado na Síria. Depois de o ISIS ter imposto a proibição de fumar nos territórios que controla, o dito emir, não identificado na notícia, não foi capaz de abandonar o vício. Agora foi encontrado com a cabeça separada no corpo, compondo uma anedota macabra. Tinha um cigarro na boca e, no tronco, alguém escreveu a frase "isto é o mal, xeique". De certeza que o autor da piada não conseguiu evitar um sorrisinho cabrão.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
O ano novo
Por irónica casualidade, a melhor metáfora dos tempos que correm chega-nos da China, de onde também vieram as luzes de natal, os presentes, as árvores, os enfeites e provavelmente algum do fogo-de-artifício do reveillon. Em Xangai, no coração do império supostamente comunista, pelo menos 36 pessoas morreram esmagadas quando a multidão que festejava o ano novo ocidental se precipitou para tentar apanhar uns papelitos que se pareciam com notas de um dólar (oitenta e dois cêntimos pela cotação de hoje). O papa católico apostólico romano bem pode clamar contra o deus-dinheiro - há-de perceber, mais cedo ou mais tarde, que ninguém realmente o escuta.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Epigrama
Não fossem os cães selvagens do vento encarniçando-se contra o arrepio da pele e o sossego das manhãs de Inverno seria um encolhimento quase tolerável.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Coisas do ano
Na mais recente crónica que escreveu para o El País, Enrique Vila-Matas conta como a luz mortiça das termas de Marienbad se parece com o ambiente dos romances de Sebald. Talvez nisto, aliás, todas as termas velhas se assemelhem e exista nos amplos balneários antigos e azulejados alguma coisa de um tempo que teima em persistir num espaço que não lhe pertence já (ou vice-versa?).
Lembrei-me inexplicavelmente desta crónica por causa de uns velhos que vi pescando à beira-rio, enregelados ao ponto de apenas manterem o nariz no exterior dos agasalhos escuros - e todavia pescando pacientemente, melancólicos e trágicos como personagens secundárias de um romance de Sebald ou de Walser (morto na neve no Natal de 1956). Fui, por isso, reler o texto de Vila-Matas e constatei que me tinha esquecido completamente que não se tratava de uma crónica sobre a sebaldiana luz de Marienbad, reflectindo, em vez disso, sobre o peso de chumbo que nos assalta quando pensamos em todas as listas que os críticos produziram sobre as melhores coisas que se fizeram durante o ano que finda.
Na crónica, Vila-Matas inteira-se por telefone das listas dos melhores livros do ano e curva-se ao peso da subjectividade, do tumultuo, da inutilidade e do esquecimento - como se carregasse às costas uma enorme pilha de livros do ano, esmagadora e ainda assim cheia de lacunas inexplicáveis. Reli-o depois de também eu ter passado a manhã a atravessar à pressa os jornais do fim-de-semana e as suas intermináveis listas de coisas do ano, das quais não retive quase coisa nenhuma (quanto muito uma escolha tão bizarra e inesperada que apenas qualifica a boçalidade do crítico a crédito e a braços com uma lista de livros que talvez nem sequer tenha lido).
No limiar quase do ano que finda, olho também para trás e não me ocorrem livros, discos, exposições ou filmes. Lembro-me de coisas da vida. Mas qualquer lista que fizesse seria tão inútil como a enumeração dos dias que ainda viverá a minha avó que vai morrer.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
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