quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Avenida do Brasil (work in progress)

















Porto, Janeiro de 2015

Arrefece sempre um pouco à hora
incerta do lusco-fusco.
As nuvens passam voando como bandos
de pássaros lentos
e, para o sul, o horizonte é um incêndio aceso
ardendo em lume laranja brando.
À Avenida do Brasil não chegam os terrores
cruéis dos boulevards de Paris,
nem as quotidianas misérias da pátria. Ignoramos
por teimosia as carrancas dos telejornais
para que nenhuma notícia urgente venha
sobressaltar-nos enquanto escutamos 
o gratuito rumor do crepúsculo.
Embriagados de maresia e vento, de ocaso
e melancolia, encolhemos o pescoço na gola
do casaco, como cágados, 
e assalta-nos o receio de que, um dia, 
também a beleza das coisas simples
caia sob a grotesca alçada da autoridade
tributária e aduaneira
- e nos transforme a todos
em clandestinos traficantes do pôr-do-sol.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A criança armadilhada

Apenas isto: uma frase no título de um jornal que inclui a expressão "criança armadilhada". Pode imaginar-se depois o horror. O corpo explodindo entre os clientes de um mercado da Nigéria como uma manga madura caindo da árvore e despedaçando-se no chão, os corpos esfacelados, mutilados, sangrando. Mas todo o mal está concentrado em duas palavras. Criança armadilhada. Repito-as. Criança armadilhada - e é como se, dizendo-o, estivesse já transformando o horror em alguma coisa mais tolerável do que era antes de alguém se ter lembrado de inventar a criança-bomba.

Escuro

Enxergar às escuras é uma faculdade sem grandes exigências. Basta fechar os olhos com força e ver tudo: o branco das paredes, o candeeiro apagado pendendo do tecto, os móveis quietos como coisas mortas, os chinelos pacientes, o retrato dela sorrindo na moldura, o corpo e o rosto da mulher que amas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A jihad também ri

Um dos silogismos resultantes do atentado jihadista à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, postula que os fanáticos radicais do islamismo não têm sentido de humor. Uma notícia da agência Reuters, que hoje vem reproduzida na última página do Jornal de Notícias, permite, porém, discordar daquela conclusão. O jihadista, fica demonstrado, também é capaz de fazer humor. Que o diga o emir do Estado Islâmico que foi encontrado morto e decapitado na Síria. Depois de o ISIS ter imposto a proibição de fumar nos territórios que controla, o dito emir, não identificado na notícia, não foi capaz de abandonar o vício. Agora foi encontrado com a cabeça separada no corpo, compondo uma anedota macabra. Tinha um cigarro na boca e, no tronco, alguém escreveu a frase "isto é o mal, xeique". De certeza que o autor da piada não conseguiu evitar um sorrisinho cabrão.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade de expressão















Todos juntos contra toda a estupidez do mundo.
#jesuischarlie

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ano novo

Por irónica casualidade, a melhor metáfora dos tempos que correm chega-nos da China, de onde também vieram as luzes de natal, os presentes, as árvores, os enfeites e provavelmente algum do fogo-de-artifício do reveillon. Em Xangai, no coração do império supostamente comunista, pelo menos 36 pessoas morreram esmagadas quando a multidão que festejava o ano novo ocidental se precipitou para tentar apanhar uns papelitos que se pareciam com notas de um dólar (oitenta e dois cêntimos pela cotação de hoje). O papa católico apostólico romano bem pode clamar contra o deus-dinheiro - há-de perceber, mais cedo ou mais tarde, que ninguém realmente o escuta.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Epigrama

Não fossem os cães selvagens do vento encarniçando-se contra o arrepio da pele e o sossego das manhãs de Inverno seria um encolhimento quase tolerável.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Coisas do ano






















Na mais recente crónica que escreveu para o El País, Enrique Vila-Matas conta como a luz mortiça das termas de Marienbad se parece com o ambiente dos romances de Sebald. Talvez nisto, aliás, todas as termas velhas se assemelhem e exista nos amplos balneários antigos e azulejados alguma coisa de um tempo que teima em persistir num espaço que não lhe pertence já (ou vice-versa?).

Lembrei-me inexplicavelmente desta crónica por causa de uns velhos que vi pescando à beira-rio, enregelados ao ponto de apenas manterem o nariz no exterior dos agasalhos escuros - e todavia pescando pacientemente, melancólicos e trágicos como personagens secundárias de um romance de Sebald ou de Walser (morto na neve no Natal de 1956). Fui, por isso, reler o texto de Vila-Matas e constatei que me tinha esquecido completamente que não se tratava de uma crónica sobre a sebaldiana luz de Marienbad, reflectindo, em vez disso, sobre o peso de chumbo que nos assalta quando pensamos em todas as listas que os críticos produziram sobre as melhores coisas que se fizeram durante o ano que finda.

Na crónica, Vila-Matas inteira-se por telefone das listas dos melhores livros do ano e curva-se ao peso da subjectividade, do tumultuo, da inutilidade e do esquecimento - como se carregasse às costas uma enorme pilha de livros do ano, esmagadora e ainda assim cheia de lacunas inexplicáveis. Reli-o depois de também eu ter passado a manhã a atravessar à pressa os jornais do fim-de-semana e as suas intermináveis listas de coisas do ano, das quais não retive quase coisa nenhuma (quanto muito uma escolha tão bizarra e inesperada que apenas qualifica a boçalidade do crítico a crédito e a braços com uma lista de livros que talvez nem sequer tenha lido).

No limiar quase do ano que finda, olho também para trás e não me ocorrem livros, discos, exposições ou filmes. Lembro-me de coisas da vida. Mas qualquer lista que fizesse seria tão inútil como a enumeração dos dias que ainda viverá a minha avó que vai morrer.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Esta cidade assim ao sol





















Porto/Gaia, Dezembro 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

Carminha parecia fazer adeus

Uma frase. Às vezes uma frase é quanto basta para te agarrar. Uma frase como "Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas". Lês a frase, relês e pensas. Tens o livro quieto há mais de seis meses, paciente e esperando a sua vez. A frase já lá estava e era a mesma há muito tempo. Então, um dia, tanto tempo depois, abres o livro e lês: "Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas". Visualizas Carminha e entras no romance para ver melhor. Não sabes se "Dia dos Prodígios", de Lidía Jorge, está em alguma daquelas listas de frases inesquecíveis que são o início de romances. Talvez não conste de nenhuma. Mas parece-te que não vais esquecer: "Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas".

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Amálgama: conjunto de coisas várias; confusão; miscelânia












Tomou agora mesmo o seu lugar na estante o meu vigésimo quarto Rubem da Fonseca. Amálgama, porém, não está ao nível de outros livros do escritor brasileiro. Só o conto "Best-seller" não desmerece o resto da obra de Rubem.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Os entardeceres também têm sido frescos

















Estrada de Circunvalação, Porto/Matosinhos, Dezembro de 2014

Desconheço quanto vale um instante na bolsa de valores, qual a cotação dele face ao dólar ou se de algum modo é possível viver de instantes acima das nossas possibilidades. Não quero saber. Mas há um momento qualquer, quando a rotação da terra oculta o sol para lá da linha do horizonte, no instante que eclode depois disto, em que o céu, a terra e o mar se enchem de uma vaga magia pagã - um truque de ilusionista de circo transbordando o céu de lona das tendas. O mar adquire um tom de chumbo quente e móvel e as ondas desfazem-se mais lentamente no murmúrio da areia. Corro, vejo e ouço. O rio pinta-se de céu como se fora um espelho e, no alto das palmeiras do Passeio Alegre, milhares de pequenos pássaros invisíveis chilreiam em festa como se gorjeassem num país quente e distante. Escuto-os e comovo-me enquanto passo correndo. Mesmo que a maravilha dure só um instante, vale a vida toda e (ainda) não paga imposto.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Segundo ensaio breve sobre as manhãs geladas















08h03. 2ºc. Frio. Muito frio.

E se numa manhã de Inverno um...


Ontem à noite, enquanto Marius e Hanna subiam as escadas de uma ruína de Berlim num dos capítulos de Uma Menina Está Perdida No Seu Século À Procura do Pai, do Gonçalo M. Tavares, voltei a ter vontade de escrever. Mas só esta manhã recebi o catálogo para 2015 da A1 Verlag, que vai acolher a tradução alemã de Uma Mentira Mil Vezes Repetida.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Breve ensaio sobre as manhãs geladas





















Vila Nova de Gaia, Dezembro de 2014

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O riso que aprendeste a sorrir






















Jardim de Serralves, Porto, Novembro de 2013

Cante

Olha as folhas correndo em bando pelo meio da auto-estrada: vê as folhas secas e velhas, que felizes parecem agora que, ao vento, podem ir aos pinotes pelo asfalto. Repara que as árvores nuas, indecentes, já não pedem que lhes espreites para o decote: abrem os braços e mostram-se como vieram ao mundo. Nota que as nuvens escuras do céu estão compondo obras-primas que nenhuma fotografia imitará; e que a chuva lava e limpa, e que o vento sopra e apenas liberta os cabelos que estavam presos e amarrados. Constata que o tempo passa, os anos passam e os dias passam, e que alguma beleza guardam as rugas em volta dos teus olhos, no riso que só agora, velho, sabes sorrir.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Coisas extraordinárias

«O meu herói é sempre um homem comum a quem acontecem coisas extraordinárias, e não o contrário. Por esse mesmo motivo faço com que os maus sejam encantadores e educados. (...) O que é verdadeiramente aterrador nas pessoas perversas é o seu charme superficial, o seu ar amistoso»

Alfred Hitchcock, 1957

E depois tomou a cicuta e morreu politicamente





















Campo Pequeno, Lisboa, Novembro de 2014