terça-feira, 25 de novembro de 2014
O julgamento de Sócrates (ou de como a coincidência de um nome se pode transformar numa perversa ironia)
No ano de 399 a.c., o filósofo Sócrates foi acusado de corromper a juventude e, entre outras coisas, de ganhar dinheiro a troco da instrução que providenciava. Apesar de ter garantido a falsidade das "caluniosas acusações" de que foi objecto, acabou condenado à morte na praça pública, diante dos atenienses. Platão, seu discípulo, descreveu a defesa do mestre e, a dado passo da Apologia, põe Sócrates a meditar em voz alta como se o fizesse com os seus botões: "Mas Sócrates, o que é que fazes? De onde nasceram tais calúnias? Se não te tivesses ocupado em alguma coisa tão diversa das coisas que os outros fazem, na verdade não terias ganho tal fama, e não teriam nascido estas acusações contra ti".
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Baralhar mais um pouco
Uma das perguntas mais frequentes que me foram colocadas a propósito da publicação de O Tempo Morto É Um Bom Lugar é aquela que se relaciona com o facto de um dos personagens ser, como eu era quando o escrevi, um jornalista desempregado. Claro que Herculano Vermelho está preso, coisa que eu nunca estive, mas sempre há quem queira ver na ficção mais biografia do que aquela que lá está de facto.
Parece-me que Mark Twain, enquanto incorrigível praticante de paradoxos, sintetizou a coisa admiravelmente, baralhando-a mais ainda (como, aliás, convém). Numa entrevista que concedeu a Rudyard Kipling, em 1889, disse que as passagens de Tom Sawyer no Mississipi são tão autobiográficas quanto é possível quando um homem escreve um livro sobre si, logo acrescentando, porém, que “numa autobiografia autêntica creio que é impossível que um homem conte a verdade sobre si mesmo, assim como é impossível que consiga impedir que o leitor perceba essa verdade."
Confuso? Talvez seja. Mas quem lê não deve procurar a clareza cristalina dos compêndios de matemática e dos manuais de economia. Os romances não são escritos para proporcionar certezas e nisto reside a sua maior fiabilidade. Há mais honestidade no Quixote do que nas contas de uma empresa cotada em bolsa.
Parece-me que Mark Twain, enquanto incorrigível praticante de paradoxos, sintetizou a coisa admiravelmente, baralhando-a mais ainda (como, aliás, convém). Numa entrevista que concedeu a Rudyard Kipling, em 1889, disse que as passagens de Tom Sawyer no Mississipi são tão autobiográficas quanto é possível quando um homem escreve um livro sobre si, logo acrescentando, porém, que “numa autobiografia autêntica creio que é impossível que um homem conte a verdade sobre si mesmo, assim como é impossível que consiga impedir que o leitor perceba essa verdade."
Confuso? Talvez seja. Mas quem lê não deve procurar a clareza cristalina dos compêndios de matemática e dos manuais de economia. Os romances não são escritos para proporcionar certezas e nisto reside a sua maior fiabilidade. Há mais honestidade no Quixote do que nas contas de uma empresa cotada em bolsa.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Arte pura
Quando, em Junho de 1936, lhe perguntaram se acreditava na arte pela arte, Federico García Lorca respondeu que "já nenhum homem verdadeiro acredita nesta léria da arte pura, de arte pela arte". E acrescentou: "Neste momento dramático do mundo, o artista deve chorar e rir com o seu povo". Dois meses depois, em Agosto, o poeta foi fuzilado pelos fascistas que, apoiados por Hitler, tomaram pelas armas o país que tinham perdido nas urnas.
domingo, 16 de novembro de 2014
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Quando morre um poeta (Manoel de Barros, 1916-2014)
«Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.»
Sempre que morre um bom poeta há menos um raio de sol nas esquinas da manhã. Também acontece que o mundo fica mais velho. Os bons poetas têm sempre a idade de uma criança e apenas escrevem por já não serem capazes de correr atrás de uma bola ou de um papagaio de papel. Mas nunca morrem com a idade que têm nas articulações: vão embora tristes por não poderem continuar a pregar partidas com as palavras. O pior de tudo, porém, é que, quando morre um poeta, eu creio que o universo se distrai com a tristeza e permite que nasça um economista algures, o qual, não tarda, estará a falar de défice e investimento externo, rácios de rentabilidade e taxas disto e daquilo. E depois o economista morre. E não acontece nada.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Proibida a entrada aos uruguaios
Uma coisa leva à outra. Por falar em Llach, na catalunha e em Roberto Bolaño, li numa crónica relativamente recente do Enrique Vila-Matas, do catalão Enrique Vila-Matas, que "detectives selvagens", a expressão que deu título ao melhor romance de Bolaño, foi, antes disso, o nome de uma conjura de poetas que, em 1900, conspirava sonhos a partir do minúsculo quarto de uma casa art-deco de Montevideu, no Uruguai. À frente dessa vanguardista conjura da Torre de los Panoramas, diante do Rio da Prata, estava, então, um jovem poeta, Herrera Y Reissig, do qual nada sei, mas que apenas consigo imaginar parecido com Arturo Belano, o insensato e irresistível personagem d'Os Detectives Selvagens de Bolaño. Ainda na crónica de Vila-Matas, leio que o quarto onde se reuniam os poetas insurgentes, os verdadeiros, uruguaios e originais detectives selvagens, que à porta desse cubículo de sonhadores havia um cartaz preso na porta, no qual se avisava que era proibida a entrada aos uruguaios. Vejo a frase escrita a tinta-da-china numa folha de papel grosso e amarelecido pelo tempo: "Proibida a entrada aos uruguaios". E é como se uma nova história começasse.
Afinidades electivas
Tendo ou não lido o livro de Goethe, que cunhou a expressão, quase toda a gente sabe hoje o que são afinidades electivas. Dizemos que temos afinidades electivas com esta ou aquela pessoa quando gostamos dos mesmos livros, dos mesmos discos ou dos mesmos filmes. A mim, por exemplo, acontece-se frequentemente encontrar afinidades electivas com o Fernando Alves da TSF: na semana passada, a propósito do dia do saxofone, ele lembrou-se de Cortázar e do saxofone de Johnny Carter, o inesquecível personagem do conto El Perseguidor. Esta manhã, por causa de uma entrevista com Paolo Conte, o cantautor italiano, Fernando Alves lembrou-se de Lluís Llach, o cantautor catalão do qual, reconheceu, andava esquecido. Eu também não me lembrava de Llach há algum tempo e vim escutando na auto-estrada as palavras do Fernando Alves sobre as coisas antigas e as almas antigas como se, de algum modo, me pertencesse também um desses vagos, gasosos e abstractos apetrechos que as pessoas pouco práticas acreditam poder salvar depois da morte. Lembrei-me de Lluís Llach enquanto acelerava no túnel da auto-estrada e ocorreu-me também que talvez devesse ter escutado as canções dele enquanto lia algumas das melancolias catalãs de Roberto Bolaño, que talvez tenha também uma alma antiga, ou aquilo a que Paolo Conte chama uma alma antiga, mesmo que a palavra alma não signifique nada e que ser antigo ou moderno não passe, afinal, de uma afinidade electiva com coisas ou pessoas que passaram de moda e já não cabem no turbilhão pós-moderno das "cosmovidas".
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Kulumani parece-se com um sítio que conhecemos bem
«Os de Kulumani são hospitaleiros para quem é longínquo e estranho. Mas entre eles reina a inveja e a maledicência. Por isso o nosso avô sempre relembrava:
- Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos.»
- Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos.»
Mia Couto, A Confissão da Leoa
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Ver, saber e reagir
Às vezes imagino um mundo onde fôssemos obrigados a conviver diariamente com fotografias como aquelas que o Rui Oliveira captou para o projecto Two Square Meters (ou como as que o Paulo Pimenta e o Alfredo Cunha mostram regularmente). Não sei se as coisas seriam muito diferentes, mas, pelo menos, seria um pouco mais difícil vivermos fazendo de conta que não vemos e que não sabemos. Talvez, então, reagíssemos.
domingo, 9 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Só falta chamarem-lhe União Nacional
Rui Rio e Miguel Cadilhe (olha de que dois) terão aproveitado uma conferência qualquer para defender que o PSD e o PS (mais o CDS, claro) devem chegar a um acordo para reformar o Estado. Mas ainda não se atreveram a chamar União Nacional à infeliz criatura gerada pelo unânime monstro. De resto, pedir ao PS e ao PSD (mais o CDS, claro) para reformarem o Estado é algo equivalente a pedir a um cancro que se cure sozinho. Para reformar o Estado, bastaria que o PSD e o PS (mais o CDS, claro) se dispusessem a expurgar a administração dos milhares de boys que lá colocaram ao longo de 40 anos. Mas isto seria o mesmo que pedir ao PS e ao PSD para desistirem de serem o que são.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Como se fosse um livro de Bolaño
Tenho acompanhado com algum interesse o caso dos 43 estudantes mexicanos desaparecidos no estado de Guerrero, no México, depois de terem participado numa manifestação e de terem sido vistos a entrar em carros da polícia. As investigações já conduziram à detenção de um ex-autarca e da respectiva esposa, ambos com ligações aos cartéis de droga locais, e têm-se centrado nos corpos existentes em valas comuns que, segundo as notícias, "abundam em Guerrero". Imagino, por um instante, um mundo assim, no qual abundam valas comuns, cartéis de droga, autarcas corruptos e estudantes que, depois da explosão crepuscular de Guerrero, desaparecem como se se tivessem evaporado - e parece-me que é tudo exactamente como num livro do Roberto Bolaño: excessivo, fantástico, opressivo e teatral, como um grito mudo ou o gume de uma faca.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
sábado, 1 de novembro de 2014
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
A assombrosa história do cabo Almeida e da sua triste filhinha
Tencionava, admito, debruçar-me sobre uma das muitas frases que Durão Barroso, o futuro ex-presidente da Comissão Europeia, tem debitado esta semana. Refiro-me, em concreto, ao momento em que o demente declara, como os da ala psiquiátrica que garantem ser Napoleão Bonaparte, que foi o timoneiro certo para levar a barca europeia a bom porto - e que a história assim há-de reconhecê-lo.
Perdi, entretanto, a vontade de desperdiçar tempo com mitómanos comuns, tanto mais que, enquanto folheava o Correio da Manhã, constatei que Nelson Rodrigues ali servia de bandeja mais um episódio da incrível e assombrosa história do cabo da GNR que fazia espectáculos de strip-tease com a farda de serviço. Também neste caso, parece-me, o dramaturgo brasileiro homónimo teria abundante material de reflexão em torno da condição humana.
Numa só noite, segundo leio, o cabo Almeida esteve animando festividades dedicadas ao Dia da Mulher em pelo menos quatro localidades portuguesas, a saber: Viana do Castelo, Esposende, Esmoriz e Oliveira de Azeméis. A duzentos euros cada actuação, e sempre sem perder de vista a Glock de serviço, o indómito militar arrecadou oitocentas mocas, mais algum eventual troco com que a selecta assistência o tenha presenteado.
Não é caso, porém, para comentários soezes ou para risotas entendidas. De acordo com o processo a que Nelson Rodrigues, o jornalista, teve acesso, os "shows eróticos" do cabo Almeida eram assunto sério e motivado, quiçá, pela genial liderança europeia de Durão Barroso. Quando o cherne reconhece que, a despeito da sua histórica missão, "muitos europeus sofreram e estão ainda a sofrer", podia, com efeito, estar a referir-se ao GNR dos Carvalhos - que "estava a divorciar-se" e "necessitava de dinheiro para ajudar a sustentar a filha, de 14 anos", assim justificando a fraqueza moral de que foi acometido.
Só não chora quem não tem coração. O próprio Durão, digo eu, podia dispensar uns trocos da reforma europeia para que a filha do cabo Almeida não acabe a vender fósforos à porta de algum cinema.
Perdi, entretanto, a vontade de desperdiçar tempo com mitómanos comuns, tanto mais que, enquanto folheava o Correio da Manhã, constatei que Nelson Rodrigues ali servia de bandeja mais um episódio da incrível e assombrosa história do cabo da GNR que fazia espectáculos de strip-tease com a farda de serviço. Também neste caso, parece-me, o dramaturgo brasileiro homónimo teria abundante material de reflexão em torno da condição humana.
Numa só noite, segundo leio, o cabo Almeida esteve animando festividades dedicadas ao Dia da Mulher em pelo menos quatro localidades portuguesas, a saber: Viana do Castelo, Esposende, Esmoriz e Oliveira de Azeméis. A duzentos euros cada actuação, e sempre sem perder de vista a Glock de serviço, o indómito militar arrecadou oitocentas mocas, mais algum eventual troco com que a selecta assistência o tenha presenteado.
Não é caso, porém, para comentários soezes ou para risotas entendidas. De acordo com o processo a que Nelson Rodrigues, o jornalista, teve acesso, os "shows eróticos" do cabo Almeida eram assunto sério e motivado, quiçá, pela genial liderança europeia de Durão Barroso. Quando o cherne reconhece que, a despeito da sua histórica missão, "muitos europeus sofreram e estão ainda a sofrer", podia, com efeito, estar a referir-se ao GNR dos Carvalhos - que "estava a divorciar-se" e "necessitava de dinheiro para ajudar a sustentar a filha, de 14 anos", assim justificando a fraqueza moral de que foi acometido.
Só não chora quem não tem coração. O próprio Durão, digo eu, podia dispensar uns trocos da reforma europeia para que a filha do cabo Almeida não acabe a vender fósforos à porta de algum cinema.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Livro de cabeceira
Conta-me um amigo que, estando um destes dias a visitar uma casa para possível arrendamento, entrou num dos quartos, ainda habitado, e viu, em cima da mesinha de cabeceira, um exemplar de O Tempo Morto É Um Bom Lugar. Não há nisto nada de muito insólito. É natural que as pessoas leiam os livros que se escrevem a publicam e que, às vezes, o façam onde muito bem lhes apeteça. Mas nem sempre a quem escreve ocorre imaginar que um livro seu se transforme numa parte tão íntima da vida de algum leitor.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Pequenos nadas
"A vida é feita de pequenos nadas", disse-me esta manhã uma pessoa doente. Eu concordei: "E às vezes nem nos damos conta disso quando os pequenos nadas estão a acontecer", respondi. Recordei-o agora enquanto acompanhava os derradeiros instantes do major Giovanni Drogo, a personagem central de O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati. Insensato, Drogo passou a vida na Fortaleza Bastiani, à espera do inimigo que havia de vir do Norte e da grande glória que o embate lhe traria. Quando, enfim, a guerra chegou, Drogo estava já demasiado velho e demasiado doente para poder ficar a lutar.
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