quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Um tal Manuel da Cunha

Há quanto tempo não invoco o ungido nome de Enrique Vila-Matas em vão? Pouco importa. Volto agora mesmo a fazê-lo, desde logo porque resgatei hoje das minhas tão empoeiradas estantes o romance Estranha Forma de Vida, no qual, e disto não me lembrava, há um autógrafo do escritor, com o esboço de uma figura de chapéu, dedicando o exemplar: "Para o Jorge, que vive, como todos, una extraña forma de vida". Estranha forma de vida, não se duvide, isto de acumular livros e leituras em vários cantos da casa, abandonando-os para que, décadas depois, se possa redescobri-los quase absolutamente novos, lidos mas esquecidos.

Tomei consciência, mal iniciei a leitura, de que hei-de ter comprado o livro e obtido o autógrafo de Vila-Matas numa sessão de apresentação que decorreu a escassos metros do sítio onde agora resido. O que recordo desse evento é muitíssimo vago, mas, isso sim, que o escritor tinha afivelado uma expressão algo desconfortável, ou que, pelo menos, me gerou algum desconforto. Julgo que já o referi algures num texto qualquer, que não sei onde pára, mas também nesta crónica antiga aludi ao gosto de Vila-Matas pela interpretação das personagens dos seus livros. Ao reler Estranha Forma de Vida, depressa me apercebi de que, naquela sessão em 1995 (creio), o escritor se limitava a passar revista ao público "com a ferocidade própria" do seu olhar, do seu olhar de espião, ou, para dizê-lo de uma forma que se entenda melhor, limitava-se a olhar-nos a todos com a ferocidade própria do olhar do narrador do romance, o escritor ao qual chamam Cyrano (por ter o nariz comprido), o qual decide não voltar a apresentar-se nas suas conferências sem estar disfarçado.

Acresce que Cyrano confessa, logo no início da narração, que costuma plagiar, nas suas conferências, o intelectual português Manuel da Cunha, a cujo suposto livro O Espião da Rua Lisboa são atribuídas as frases constantes da epígrafe do romance. Não existe, obviamente, nenhum Manuel da Cunha que seja ou tenha sido "um romancista de certo nível intelectual embora de baixa estatura, um homem diminuto". É um nome inventado ao calhas, um nome qualquer sem importância, tão anódino quanto possível. Ainda assim, se me retirarem o Marmelo, o meu primeiro e último nomes seriam precisamente Manuel da Cunha. 

Estranha forma de vida esta: ter sempre um livro de Vila-Matas intrometendo-se nas minhas coisas mais comuns.