quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O mocho

Não sei onde, ao certo, se esconde o mocho, em qual das árvores da vizinhança, mas escuto-o muito distintamente nas noites mais amenas do ano. Imagino, por isso, que alguma coisa nos une, a mim e ao mocho, pelo menos o gosto pelo bom tempo, por este Verão atrasado, este Verão de S. Martinho em dia de Santa Matilde da Saxónia e de São Abdias, o autor do livro mais curto do Antigo Testamento, aquele que anunciava a vinda do Messias — quando? Escuto o pio lúgubre do mocho quando o trânsito da cidade se suspende e imagino-o vendo passar os automóveis, perscrutando os semáforos mudando de cor, vigiando as luzes acendendo e apagando nas janelas dos apartamentos e dos chalés da nossa rua (minha e do mocho, bem entendido). Imagino-o piscando o olho vermelho cibernético, exactamente igual ao da ave de estimação de Tyrell, o génio criador dos replicantes de Blade Runner, o qual, no filme, encarna o próprio deus desses seres quase perfeitos, belos, incapaz, todavia, de satisfazer o desejo de eternidade ou sobrevida que as criaturas manifestam. Penso nisso enquanto respiro o ar puríssimo da noite do nosso confinamento, desta vida tão semelhante àquele Novembro do ano de 2019 em Los Angeles: obscura, paranóica e sombria, limitada por esse defeito de programação que talvez nos conceda apenas quatro anos de vida ou quarenta. Mas temos vistos coisas... coisas em que ninguém acreditaria. Naves em chamas no espaço exterior da cintura de Orion, brilhantes como magnésio. As ondas do mar da Foz e a madrugada num bar de marinheiros. Estrelas imensas cintilando no céu da província. Escutamos o pio do mocho da minha rua e sabemos que tudo isto desaparecerá um dia. O trovão virá. É isto a vida.