sexta-feira, 3 de abril de 2020

O baile das drosófilas

Encerrado em rigorosíssimo isolamento social, disponho agora de todo o tempo do mundo para observar as moscas — silenciosa companhia e distracção do meu confinamento. Entram-me em casa a cada manhã, assim que franqueio as janelas para arejar os espaços domésticos, e retiram-se impreterivelmente ao final da tarde, guiadas pela luz ou pelo ar fresco (hipóteses de trabalho que carecem ainda de estudo mais aturado e posterior validação científica). Enquanto beneficiam da minha companhia, e eu da delas, produzem uma espécie de bailado irregular, ora lento, ora frenético, o qual parece misteriosamente obedecer às mais insignificantes reverberações atmosféricas. Enleiam-se umas nas outras e depois afastam-se sem nenhum motivo aparente, embora, creio, a sua agitação dependa substancialmente dos ruídos do ambiente e das mais subtis modulações sonoras. Por exemplo, pairam amenamente durante grande parte dos discursos presidenciais explicativos da emergência pandémica, mas sobressaltam-se quando o presidente sublinha certas palavras da alocução, como desafio, doença, pátria ou morte. Fico, pois, a vigiar atentamente estes mínimos movimentos das moscas, as alterações do seu humor, umas vezes atento como um mocho, outras vezes entorpecido, como hipnotizado pelo lento baile das drosófilas, perguntando-me se os insectos que me visitam se revezam apesar do observador ser sempre igual.