sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Quando morre um poeta (Manoel de Barros, 1916-2014)


«Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.»


Sempre que morre um bom poeta há menos um raio de sol nas esquinas da manhã. Também acontece que o mundo fica mais velho. Os bons poetas têm sempre a idade de uma criança e apenas escrevem por já não serem capazes de correr atrás de uma bola ou de um papagaio de papel. Mas nunca morrem com a idade que têm nas articulações: vão embora tristes por não poderem continuar a pregar partidas com as palavras. O pior de tudo, porém, é que, quando morre um poeta, eu creio que o universo se distrai com a tristeza e permite que nasça um economista algures, o qual, não tarda, estará a falar de défice e investimento externo, rácios de rentabilidade e taxas disto e daquilo. E depois o economista morre. E não acontece nada.