quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Henry Cartier-Bresson em Castelo de Vide


Nunca é tarde de mais para corrigir a ignorância. Só hoje soube, por exemplo, que, quando veio a Portugal para fotografar Lisboa, a Nazaré, o Porto e o nosso ditador, Henry Cartier-Bresson também passou por Castelo de Vide e Marvão, terras que são como se fossem também a minha terra. No site da Magnum existe mesmo uma fotografia de uma das empinadas ruas da terra dos meus avós paternos vista a partir da Carreira de Cima: um homem e uma mulher conversam na sombra de uma esquina, na qual há uma loja que vende atoalhados e sombrinhas. Vem mais gente descendo a calçada que talvez não seja a Rua de Miguel Ferreira que subi tantas vezes a caminho da casa do meu tio Luís (que podia bem ser aquele homem que se esgueira pela esquerda quase a ponto de escapar ao retrato). Estivesse lá agora e havia de tirar tudo a limpo e comparar as portas e janelas da fotografia com as portas e janelas das ruas reais — e talvez captasse, por minha conta, o retrato gémeo daquele que Cartier-Bresson capturou em 1955, se calhar não muito diferente deste que aqui se vê. Este ano, porém, ainda não fui a Castelo de Vide nem a Marvão e eu sei que me faz falta respirar aquele ar, ver os rostos dos meus primos de olhos azuis e olhar com saudade para o cimo da Rua de Miguel Ferreira que o meu tio Luís já não desce fumando os seus mata-ratos. Ele, o meu tio, foi bombeiro voluntário no activo até ao 70 anos e, por isso, havia de estar de luto pela tragédia que vai chamuscando o país e roubando a vida a homens e a mulheres altruístas como não há outros. Os bombeiros são o melhor que Portugal tem.