
O 504 cruzou-se comigo à hora do costume, o 201 também passou pontualmente ("à tabela", como dizia o meu avô). Deixei-me, por isso, e apesar da greve dos transportes, ficar na paragem à espera do autocarro habitual, eu e a senhora grávida, encolhidos de frio ambos, como se fosse um dia como outro qualquer. Como um caçador núbio numa estepe de África, espraiei o olhar pela avenida e pareceu-me avistar, ao longe, o 502 brilhando numa nesga de sol que corria entre os edifícios. Um minuto, dois, três e eis que o autocarro desponta, pontualíssimo, e vem, fiel e regular, indiferente aos cortes orçamentais, ao aumento nos passes e a todas as demais misérias da austerocracia. Entrei. O 502 vinha quase vazio. Cheguei a ficar com a impressão, pelos visto errada, de que não foram, afinal, os motoristas a fazer a greve, mas sim os utentes. É pena. Talvez as coisas se resolvam mais facilmente, e a bem de todos, no dia em que forem os clientes a boicotar os austeros serviços públicos que, no fim de contas, financiamos com os nossos impostos.