Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Crónicas do autocarro#106



Pressinto que a resistência dos utentes do autocarro se desmorona, qual morro de formigas sob a bota dos negreiros novos. Uma destas tardes, indo em direcção às ruínas que se acotovelam na Baixa, fui de frente para uma mulher que, seguindo os sábios conselhos da governação, está já a ultimar os preparativos para zarpar daqui para fora. Para a Suíça. Cogitou emigrar para França, mas sucumbiu aos helvéticos encantos. "A Suíça dá mais pica", explicou pelo auricular do telemóvel. Lá, como aqui, vai fazer limpezas e tomar conta de velhas ranzinzas e desaparafusadas. As diferenças, porém, são substanciais. Entre os picos nevados e os carrancudos cidadãos não-alinhados, basta-lhe um trabalho para ganhar o que aqui consegue esgravatar ao fim de muitas horas de esfregão. "E aqui anda-se sempre a contar os tostões". A tarde estava a meio e o autocarro ia cheio - de homens e mulheres já demasiado velhos para partirem também. Um dia, talvez não muito distante, será aquilo o país: um magote de reformados muito idosos, circulando de autocarro a caminho de lugar nenhum. O Inverno atira-me caneladas e o país cospe-me na cara. Fico?