
Ainda que ignorantes do significado preciso (e dicionarizado) da palavra “paradoxo”, os utentes do autocarro são profundos praticantes dessa nobilíssima arte e, mais do que isso, estão atentos à suave deflagração do absurdo no quotidiano. Uma senhora que comungava, esta manhã, do meu (quase vazio) transporte público bem notou que “há crise, há crise, mas ninguém trabalha”, transformando-se, assim, numa implacável cronista de costumes, provavelmente mais contundente e precisa do que muito plumitivo encartado que para aí anda. Não querendo fazer má figura, pus-me, por isso, à escuta de outros episódios paradoxais, tendo imediatamente dado fé do trio de senhoras da limpeza que, instigadas pela mais vivaça, vinham discutindo a necessidade de irem aos chineses comprar cuecas azuis, vermelhas e amarelas para beneficiarem dos sortilégios do novo ano. Devia, é bem certo, ter meditado mais detidamente no paradoxo que pudesse haver nesta prática – avaliando de que modo a mais entusiasta tem beneficiado do “dinheiro, amor e saúde” que a supertição garantirá –, mas o debate adquiriu uma feição, digamos, mais vivaz e que transcendia o próprio paradoxo. Como uma das senhoras não atinava com o correcto uso dos amuletos íntimos, foi-lhe claramente explicado que deve passar a meia-noite do reveillon com as três cuecas vestidas, umas por cima das outras, para que a magia surta o necessário efeito. O vudu há-de, depois, ser retirado pela terceira pessoa a quem possa interessar a exploração dos países baixos, a qual, com alguma sorte, estará bêbada e nem achará estranho ter que despir três peças made in China. Vai, de certeza, ser um ano muito bem passado.