Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Crónicas do autocarro#103



Ando comido de curiosidade desde que tomei conhecimento de que o autocarro 207 passou a disponibilizar aos utentes um serviço experimental de televisão e internet wireless. Moderno e dinâmico como sou, pretendo ser também bafejado pelo sopro tecnológico que percorre o 207 de uma ponta à outra, do pára-brisas ao vidro que se quebra em caso de emergência, e aceder ao Google e ao Facebook a partir do meu lugar predilecto. Imagino a coisa como algo que, por uma espécie de milagre das telecomunicações, enfiará no espaço acanhado do veículo toda a informação e entretenimento que existem no mundo. A Céline Dion virá cantar no meu colo e o José Rodrigues dos Santos piscar-me-á o olho em grande estilo a partir das mais avançadas plataformas tecnológicas, para não falar dos jogos de futebol em directo sacados de sítios que pirateiam a SportTv.

Embora maravilhado, sou também perfeitamente capaz de vislumbrar alguns dos possíveis inconvenientes do maravilhoso mundo das comunicações sem fios aplicado no espaço do autocarro. O que sucederá ao meu amoroso laptop quando, por exemplo, o motorista fizer uma daquelas travagens em que quase é preciso ir com uma espátula descolar os utentes do vidro da frente? Ou ainda pior: quem suportará o meu mau humor quando, ao abrir a edição online do P(asquim), constatar que as notícias (perfeitamente enxutas) que escrevi na véspera foram publicadas com uma semeadura aleatória de vírgulas, e que outras desapareceram misteriosamente dos sítios onde deviam estar, transformando um exercício profissional honesto e limpo numa coisa torpe e atrapalhada? Com quem poderei, enfim, partilhar a torrente de linguagem vernacular que nessas alturas se apossa de mim e jorra sem freio? Serão as regras da conduta no autocarro compatíveis com o desvario e a falta de educação desde vosso criado?

Desconheço. À cautela, será melhor que continue a limitar-me ao Destak ou, vá lá, à contemplação da luz lambendo os azulejos das casas e os fios dourados de cabelo das raras e abstractas loiras que circulam na cidade.