Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Crónicas do autocarro#102



Quais perversos agentes de uma resistência muda e anti-patriótica, os utentes do autocarro ainda não emigraram. Continuam a aparecer pontualmente na paragem, todos os dias, e alapam-se nos bancos como se estivessem dispostos a não ir a lado algum, nem Angola, nem Brasil, nem nada — vão até à paragem dos costume e é um pau com dois olhos. Nem sequer fazem menção de rumar a Moçambique para encorparem o orgulho ufano do ministro Relvas.
Pedem-nos universalismo, abertura de espírito, revolucionário gosto pela aventura, mundividência, mas nós respondemos como velhos do Restelo, com sobranceria e alardeando a sebenta e reaccionária condição de gorduras da pátria — como que dizendo, a quem nos comeu a carne, que também nos hão-de comer os ossos.
Quem, outrossim, não tem comparecido às deslocações quotidianas do autocarro é o melhor cliente da companhia, aquele que, veio a saber-se, era afinal um carteirista contumaz. Pobre homem, foi detido. Posso bem imaginá-lo saltitando de uma carreira para a outra, perdendo horas e horas até encontrar uma carteira que valesse a pena rapinar, tão esquálida é a condição habitual das bolsas dos utentes. Muito mais larápios são os Relvas deste mundo, que não andam de autocarro e, ainda assim, conseguem meter a mão no bolso de quem já o traz vazio. E ninguém lhes deita a mão.