
Deus, ou o bosão que veio a inventá-lo ao fim de umas quantas reacções físico-químicas, mantém um ascendente muito considerável no interior do autocarro, ao ponto de, às vezes, me obrigar a olhar para o motorista quando entro na viatura, para ver se aquele rosto me parece minimamente familiar ou se algum dos meus bosões o reconhece como parte do seu todo, ou lá como raio se processa a nossa participação individual no todo primordial. Não é por nada, mas tendo a acreditar que a presença do bosão entre nós assegurará o bom sucesso da viagem e, já agora, o cumprimento dos horários.
Na ausência de deus, quando ele esteja a utilizar outra carreira (ou, com mil raios, até a viajar no metro), fico mais descansado sempre que vejo entrar na viatura a senhora muito vesga que todos os anos vai a Fátima na excursão que a paróquia organiza. Pelo menos enquanto ela ali estiver, um sujeito, por muito herege que seja, tem a certeza de que mal algum sucederá ao 502 na presença protegida da doce e crente criatura. Parecendo que não, viaja-se muito mais descansado e até nos podemos inteirar do esforço proselitista da senhora vesga, que informa que a ida a Fátima, na excursão da tal paróquia, custa a módica quantia de 22 euros com almoço incluído e de 13 euros e meio quando o crente prefira levar o Tupperware de casa.
Pareceu-me mal. Se é para ir adorar a virgem sem morfes, ao menos que arredondassem a conta: treze euros para ir, a 13 de Outubro, adorar a senhora do 13 de Maio. Nem o bosão será, um dia, tão impecavelmente matemático e perfeito.