Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Crónicas do autocarro#100



Estou muito empenhado em escrever a centésima crónica do autocarro, mas os outros utentes, que diabo!, não têm colaborado quase nada com o meu esforço. Pouco solidários, egoístas mesmo, vão calados e quietos como mochos (ou como barões da finança, nunca sei muito bem). Não fazem nada que seja digno, sequer, de uma frase, deixando-me entregue, isso sim, a uma meditação daninha em torno do Bosão de Higgs, a chamada “partícula de deus”. Interrogo-me o mais filosoficamente de que sou capaz, dou voltas ao tutano, reviro-me em piruetas grotescas e muito metafísicas e, ao fim de um pedaço, quase me convenço de que, existindo o bosão, existirá também uma espécie de deus, uma coisinha de nada infinitamente pequena, mas presente, ainda assim, em todas as coisas da natureza desde o instante inicial do universo. Reviro teatralmente os olhos, fingindo perscrutar o autocarro como se fosse capaz de enxergar o bosão a olho nu, e simulo ter visto deus a passar numa corrente de ar, no ranho do nariz da miúda do banco da frente, no buço da velha com falta de banho, ei-lo!, eis o bosão feito carne entre nós, o todo-poderoso bosão, princípio e causa de todas as causas. Imagino, pois, que o velhote catarrento me acotovela, perplexo, e me pergunta que caralho estou afinal eu a ver com a boca aberta e os olhos esbugalhados. Explico que é o Bosão de Higgs, infinitamente pequeno, mas incontestavelmente presente também ali, no nosso autocarro.
- Uma merdinha desse tamanho? O amigo vai a perder tempo com uma merdinha mais pequena que a cabeça de um alfinete?
- Dizem que é deus, alego.
- Deus? Deus? Mas o amigo não sabe que deus habita exclusivamente nas Caxinas, bairro piscatório cuja fé move montanhas e helicópteros da força aérea?
- Deveras?
- Com efeito!, responde-me o velho.
- E o bosão?
- Trata-se apenas de mais uma invenção do sionismo internacional. Tudo aquilo que esteja relacionado com túneis construídos entre a França e a Suíça está relacionado, já se sabe, com fuga de capitais, grande negociatas, agências de rating e o diabo a quatro.
- Também o bosão?
- Também esse.
- Raios!, ouvi-me dizer.
E de imediato me ocorreu que devo urgentemente passar a circular num autocarro onde ainda não me conheçam. Não é por nada, mas, já agora, teria sido engraçado chegar à centésima crónica sem ter de inventá-la de alto a baixo.