Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Crónicas do autocarro#99



“Mercados, mercados e mais mercados. Já vomito mercados por todos os lados”. O aposentado da banca que tem uma mulher-a-dias para lhe passar as camisas a ferro ia ontem em animada cavaqueira com a reformada que continua a trabalhar, engomando as camisas alheias. Separados pela condição social, uniu-os uma bolacha que a senhora deixou cair ao chão do autocarro e, descobriram, algumas opiniões comuns sobre a crise dos mercados. Mas não estavam de acordo em tudo. A reformada que ainda trabalha, por exemplo, acha que este governo é melhor do que o anterior, até porque as coisas ainda não estão tão mal como antigamente. A boa senhora recordava que no tempo dela era “fome, peste e guerra”, que o pão “só se cozia de oito em oito dias” e que se tinha de “esperar que as galinhas pusessem ovos para poder comprar petróleo e azeite”. Para cabal demonstração de que é uma pessoa de outras eras, a reformada declinou mesmo uma espécie de adágio segundo o qual “mais vale pouco bem governadinho do que muito roubadinho”. Abençoada criatura. Sejamos todos capazes de tamanha honestidade e desprendimento e a crise há-de resolver-se num ápice. Voltaremos a ser pobrezinhos e honrados e até sou capaz de jurar que, num passe de magia, deixará de haver quem se governe à conta disso. O mundo voltará a ser um sítio perfeito. Queira deus – ou lá o que é.