Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

Crónicas do autocarro#97


Ao contrário do que sucedia no comboio descendente do Fernando Pessoa, não ia ninguém à gargalhada no autocarro que subia, esta manhã, a Avenida da Boavista. Quanto eu entrei, aliás, o ambiente era de grande consternação, com lágrimas e tudo. Uma das utentes habituais tinha recebido um telefonema informando que “a Marília caiu pelas escadas abaixo” - não sei se excessivamente, como noutro poema do Pessoa/Álvaro de Campos, mas, em todo o caso, o tombo deve ter sido jeitoso. A tia da moça em prantos lá dizia que não tinha sido nada, e que não se afligisse, mas a mãe (?) da Marília não se convencia: “São muitas escadas, tia. E se desmaiou?”. Daí a um bocado, a Marília lá atendeu o telemóvel e os ânimos serenaram. O ambiente, porém, continuou tenso e um enorme e circunspecto silêncio caiu sobre o autocarro. Ninguém dizia nada – uns por verem os outros calados, os outros para melhor coscuvilharem o que a tia da Marília dizia enquanto falava ao telemóvel.