Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Crónicas do autocarro#96


Que dia bestialmente triste. A toda a volta só se vê névoa cinzenta e água fria, névoa cinzenta e água fria. Sombras. Os indivíduos passam encolhidos debaixo de guarda-chuvas e caem grandes bátegas dos beirais. Névoa cinzenta e água fria. Os carros passam a atiram água para os passeios. Molham-se os sapatos, o fundo das calças, e, quando entramos no autocarro, já vamos humilhados, invernais, magoados com a vida, húmidos; todos nós, enfim, névoa cinzenta e água fria. Os vidros estão tão embaciados que parece possível imaginar que a cidade lá fora se extinguiu também, que se dissolveu miseravelmente em névoa cinzenta e água fria. Ouço o zumbido do ar condicionado, vejo o chão molhado da água que pinga dos guarda-chuvas, reparo na cara dos outros utentes, na condensação escorrendo dos vidros, névoa cinzenta e água fria. Talvez um passageiro ou outro ainda converse e diga alguma coisa lúgubre e apagada, mas não ouço nada. Vou ali e não vou. Sou já só névoa cinzenta. E água fria.