Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

Crónicas do autocarro#93



Como dois titãs colidindo enquanto anoitecia, a modernidade e o mundo rural, ou o que dele resta, cruzaram-se no 502 das 17h33. De um lado do vidro do autocarro, imponente e clara, com os seus ângulos e os seus janelões hiperprafrentex, estava a Casa da Música. Do outro lado do vidro, conversando ao telemóvel, vinha um velho a falar de comprar frangos, mas frangos vivos, aqueles animais emplumados algures entre o pinto e o galo. O velho falava com alguém a quem chamava "linda", "linda" isto e "linda" aquilo, fazendo saber que os frangos custariam treze euros e qualquer coisa, e que não eram uns frangos quaisquer, uns pintos mal-nascidos e imberbes, mas animais que já comem couves e tudo e que se safam bem sozinhos. Duas questões, porém, ainda estavam pendentes. A saber: quereria a "linda" cinco ou seis frangos; e como garantir que, entre os frangos, não acabasse por vir alguma franga tresmalhada, uma futura galinha que depois se entretivesse por aí a insinuar os ovos junto de todo e qualquer galo que lhe aparecesse pela frente. Anoitecia, como disse, e, tomado pela soturnidade e pela melancolia da hora, como num poema de Cesário Verde, e pelo bucolismo do assunto, vim para casa a meditar muitíssimo nisto de, ao fim e ao cabo, também entre quem compra frangos vivos ser praticado o sexismo mais reles. Já vai sendo tempo, afinal, de as galinhas assumirem, de uma vez por todas, o lugar que lhes pertence na sociedade (sem ser o tacho da cabidela, quero dizer).