quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O abracadabrante caso do imortal (e veloz) Jeremias Coelho*



Não é muito certo como este caso começou, mas há ainda quem dê fé de que Jeremias Coelho era, em moço, um rapaz que parecia infatigável. Nunca transpirava e raramente dormia que não fosse só um breve passar pelas brasas. Cinco ou dez minutos de sono bastavam-lhe para acordar como novo e parecia que só por desfastio se dava ao trabalho de fechar os olhos. No resto do tempo andava sempre correndo de uma tarefa para a outra, de tal modo que se ficava cansado só de estar parado a vê-lo passar para cá e para lá. Às vezes relinchava para imitar os cavalos, outras roncava como as motoretas. Diz-se também que o garoto não jogava com o baralho todo, por andar sempre naquelas corridas.

Um belo dia — e é verdadeiramente espantosa a quantidade de episódios esdrúxulos que sucedem em dias assim agradáveis —, Jeremias Coelho acordou do seu brevíssimo sono e, sem ter nada de especial para fazer, lembrou-se de começar a correr sem rumo. E nunca mais parou. Terá já dado várias voltas ao mundo e diz-se ainda que não existe estrada ou caminho por onde Jeremias não tenha passado por mais de uma vez. Da China ao Burkina Faso, da Índia às Américas, das estepes geladas do Norte às estepes estioladas do Sul, várias multidões o viram passar. Em alguns locais mais remotos, os xamãs predisseram que o mundo acabaria quando um homem branco por lá voltasse a passar correndo. Noutros, a passagem de Jeremias era recebida como um bom presságio, anunciando anos húmidos e colheitas fartas.

Como, porém, os anos transcorriam sem que Jeremias Coelho parasse em lado nenhum onde pudesse dedicar-se a envelhecer e a morrer como as outras pessoas, a própria Morte determinou a necessidade de lhe sair ao caminho para forçá-lo a deter-se e a vergar-se à ordem natural das coisas. O problema estava todo em apanhá-lo, porém. Duas ou três vezes a Morte se postou no meio da estrada, de foice na mão e fazendo sinal a Jeremias para que parasse, mas ele nem sabia já o que era estar com ambos os pés assentes no chão. Ela viu-o chegar, passar e afastar-se, consta que acenando com a ponta dos dedos.

Jeremias continua, pois, vivo e correndo, o que deveras contraria a Morte, mesmo se não tem remédio a dar à questão. Nunca se viu, em tempo algum, a Morte trotando em sapatilhas.

*conto publicado na The Printed Blog Portugal de Setembro