Domingo, 16 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#91



O autocarro, às vezes, prolonga-se para lá do vidro que se há-de quebrar em caso de emergência — como se o quotidiano da viatura de transportes públicos estivesse necessitada do sopro fresco da vida lá de fora. No interior há uma senhora que gaba a excelência dos materiais de limpeza postos à disposição das serviçais da EDP, onde, parece, existem rolos de esfregão de aço grandes como bidões. Tiro as medidas pelo gesto circular que a mulher faz, largo, mas logo me prende a atenção a moça prenha de calças em padrão felino, a qual oferece à amiga uma imagem da ecografia do seu futuro moço, as imagens já cortadas e juntas na mão como os cromos para troca. A mãe da moça diz que paga uma ecografia 3D, ou algo assim, mas eis que, lá fora, passa uma moça conduzindo de saia curta, as pernas visíveis manobrando a embraiagem e o travão, endurecendo-se o músculo firme quando ela pisa o pedal do acelerador. Pele morena, manhã de sol. Logo, num carro parado no semáforo, uma mulher levanta o braço e cheira o sovaco, minuciosa, não vá o calor revelar alguma coisa do banho que se não tomou ou a falta do desodorizante. Nova paragem e é o próprio edil, Rui Rio, que passa no Mercedes com as cortininhas corridas para baixo para que o povo o não veja nem aborreça. O edil folheia o jornal, mas, na verdade, mais parece que está atirando ao ar as folhas em fúria, que tem vontade de as rasgar ou morder. O que terá irritado assim o senhor presidente? Não saberão que as más notícias fazem mal ao coração de um homem?