Sentei-me esta manhã ao lado de um velho encantador e muito digno, com a pele curtida e morena semeada de manchas e crostas, as mãos ásperas e um fato de bombazina em castanho-escuro. Debaixo do banco, o homem trazia um balde preto e muito gasto, parecido com aqueles que se vêem nas obras a acartar areia e cimento. Dentro do balde viam-se vários sacos de plástico, mas suponho que lá houvesse mais alguma coisa, pois, quando o velhote saiu do autocarro, o balde pareceu-me pesado. As irmãs das limpezas e das tatuagens vinham muito divertidas com o artefacto, olhavam-no de soslaio, faziam risinhos e comentavam, como se o velho fosse mouco, que uma coisa daquelas “só filmada”. Eu, por acaso, até concordo. Um dia destes encho-me de coragem e tiro um retrato à irmã mais nova, que é a mais gorda e modernaça, e tem mais tatuagens, mas que nem me atrevo a descrever – ninguém acreditaria.
Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
Crónicas do autocarro#90
Sentei-me esta manhã ao lado de um velho encantador e muito digno, com a pele curtida e morena semeada de manchas e crostas, as mãos ásperas e um fato de bombazina em castanho-escuro. Debaixo do banco, o homem trazia um balde preto e muito gasto, parecido com aqueles que se vêem nas obras a acartar areia e cimento. Dentro do balde viam-se vários sacos de plástico, mas suponho que lá houvesse mais alguma coisa, pois, quando o velhote saiu do autocarro, o balde pareceu-me pesado. As irmãs das limpezas e das tatuagens vinham muito divertidas com o artefacto, olhavam-no de soslaio, faziam risinhos e comentavam, como se o velho fosse mouco, que uma coisa daquelas “só filmada”. Eu, por acaso, até concordo. Um dia destes encho-me de coragem e tiro um retrato à irmã mais nova, que é a mais gorda e modernaça, e tem mais tatuagens, mas que nem me atrevo a descrever – ninguém acreditaria.