Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#89



Nos últimos dias, e para promover o objecto de leitura a que carinhosamente designo por "coiso", estive duas vezes no autocarro acompanhado de câmaras de filmar. Foi uma tontice, na medida em que permiti que se invertesse a ordem natural das coisas. Em vez de observar e escutar, vi-me na posição dos fenómenos anormais dos circos de antigamente. Eu tentava explicar o que podia sobre o romance que também anda de autocarro, os utentes olhavam-me como que procurando avaliar o tamanho da minha estupidez e a dimensão da minha bizarria. É muito bem feito — para eu aprender a não ir ali armado aos cágados para, depois, vir contar o que vi e o que não vi, o que supus ou o que imaginei a partir do que tivesse visto. Não interessa. A presença dos cinegrafistas desmascarou-me enquanto corpo estranho à comunidade humilde do autocarro. Sou, de certo modo, um alienígena; um alienígena que observa e comete a indiscrição de contar. Ignoro, pois, se as coisas voltarão a ser como antes, se consigo recuperar a condição de utente discreto e sossegado, de cromo que não merece nenhuma atenção, mas, para que o castigo fosse ainda mais completo, voltei hoje ao autocarro e dispus-me a escutar a conversa das irmãs das limpezas e das tatuagens, a qual versava, isso ainda percebi, sobre telemóveis 3G, videochamadas e coisas assim. A gripe, porém, entupiu-me de tal maneira o nariz que tive que me concentrar em respirar. Para ser pior, só se as moças me derem, um dia destes, um enxerto de lenha para ajustarem contas comigo. E corpo para isso têm elas.