segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Enquanto eles dançam*

Ontem de manhã, quando o meu autocarro chegou à Rotunda da Boavista, havia um casal a dançar tango na placa central da avenida, diante da Casa da Música. Os bailarinos estavam trajados como se tivessem saído de um filme antigo – ele de fato escuro e chapéu, ela com um vestido elegante – e executavam uma coreografia lenta e algo paradoxal, já que, pelo menos dentro do autocarro, não se ouvia música nenhuma. Depois, colocadas de maneira a formarem os extremos de uma linha diagonal que passasse pelo casal de bailarinos, havia mais duas moças de vestidos vermelhos e justos, as quais filmavam a dança com telemóveis, como se fossem também parte de um bailado que incorporasse os gestos ancestrais daquela dança e os movimentos dos dispositivos electrónicos postos diante dos respectivos narizes.

O espectáculo foi inusitado mas breve, visto que o autocarro entrou logo a seguir na rotunda e eu deixei de conseguir ver o casal dançante. Não tive tempo, sequer, de perceber exactamente o que estava ali a acontecer. Mas, em compensação, fiquei a ouvir os comentários das senhoras que costumam viajar comigo no autocarro e que sempre provocam uma grande algazarra, inexplicavelmente festiva, uma vez que são todas funcionárias de empresas de limpeza e estão há não sei quanto tempo a varrer e lavar escritórios: “Olha a dançar a esta hora... Se ela estivesse mas é com uma vassoura na mão a varrer”, disse uma das mulheres.

Àquela hora, tanto quanto consigo perceber, as senhoras das limpezas estão já a caminho do segundo ou do terceiro trabalho do dia e cheiram um pouco a lixívia. São mulheres que, em alguns casos, já teriam idade para estarem aposentadas ou que, pelo menos, têm o ar cansado e gasto de quem trabalha desde a mais tenra adolescência (como os meus pais). Têm, porém, necessidade de continuar a lavar e a varrer em vários empregos diferentes para serem capazes de continuar a pagar a conta da luz e da água, a renda do bairro social, o que comem e o que bebem, as roupas que compram nas lojas de chineses, a conta do telemóvel, algum medicamento, a eventual prestação de um frigorífico, de um fogão, talvez de um carro usado. Se têm férias, não conseguem ausentar-se da cidade. Não vão ao cinema, não praticam luxos nenhuns e, às vezes, têm ainda a seu cargo filhos e netos problemáticos, desempregados ou indivíduos mais ou menos perdidos de uma geração para a qual o trabalho não é um valor em si nem sequer um meio para atingir um fim.

Olhando todos os dias para estas mulheres, não vejo como possam ter sido minimamente responsáveis pela crise financeira, pelo buraco do sub-prime e pelos humores do rating, pelo desvario dos mercados e, enfim, pelo trágico tango em que políticos e barões da finança e do cimento estão enleados há décadas, esfregando-se mutuamente as costas (em vez de varrerem, já agora). Quanto muito, elas lavaram-lhes o chão e limparam-lhes as secretárias. E agora vão pagar os excessos e a falta de tino de toda a pirâmide social que carregam às costas. Vão pagá-lo sempre que comprarem um pão ou de cada vez que acenderem a luz – como se fossem milionárias.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Setembro de 2011