segunda-feira, 25 de julho de 2011

A roda do mundo*



Conhecem decerto aquela frase segundo a qual desaparece uma biblioteca de cada vez que um velho morre. Reli-a na semana passada, numa crónica do Baptista-Bastos, e imediatamente me lembrei das minhas avós – da minha bisavó Emília, a quem chamavam a Matatuda, e da minha avó Augusta, a qual, aos noventa anos, é como que o derradeiro repositório de um saber ancestral que, um dia destes, se extinguirá, sem que a ninguém apeteça já invocar divindades esquecidas e desfiar mezinhas para curar moléstias a que qualquer pomada ou supositório acodem mais razoavelmente.

Tendo desbaratado irremediavelmente todas as oportunidades que a vida me concedeu para resgatar o manancial de histórias, ritos e saberes que a minha bisavó dominava, ocorre-me agora, com certa frequência, que tenho de encontrar tempo para escutar a minha avó e registar aquilo que ainda for possível. Há alguns meses, eu e os meus filhos ouvimo-la contar, num domingo, o caso incrível (e hilariante; e dramático) do avô dela, um homem que ficou guardado no folclore familiar como alguém que gostava tanto de mulheres que perdeu com elas uma fortuna considerável. Já tentei, depois disso, tirar mais nabos da púcara, mas a minha avó apenas repetiu o que já tinha contado. Não sei se foi falta de talento da minha parte, ou se a apanhei numa maré (como ela diz) pouco propícia à evocação das aventuras fesceninas do Cricas (era a alcunha que tinha esse meu antepassado), mas, no dia dessa nova investida, conseguimos gravar no telemóvel vários minutos de conversa, durante os quais a minha avó desfiou, quase sem erro, duas ou três mezinhas com as quais, em tempos idos, se curavam os pés abertos ou estramangados, o treçolho, o arejo ou a espinhela caída.

Desconfio naturalmente das vantagens terapêuticas daqueles remédios caseiros, mas, em todo o caso, enterneço-me de cada vez que ouço a minha avó contar como cosia o pé do meu avô quando ele se magoava no picadeiro da GNR, e como essa intervenção operava uma espécie de prodígio físico: a água quente posta numa bacia passava toda para dentro de uma púcara por artes mágicas.

Também tenho tomado nota de todas as palavras estranhas que ela ainda usa e que dão testemunho de um tempo em que mesmo quem não conhecia uma letra do tamanho de um palácio usava um Português mais rico e diverso do que aquele que sabem os doutores de agora. Tenho até certeza de que, se entendi quase tudo o que li no Grande Serão: Veredas do Guimarães Rosa, foi porque reconheci aquelas palavras estrambólicas de tê-las ouvido antes da boca da minha bisavó Emília nos lentos verões de Avitoure.

Tenho escrita no bloco de notas do telemóvel, por exemplo, a expressão “é a roda do mundo”, com a qual a minha avó sublinha os sinais da novidade quotidiana. Se for natural que, na roda do mundo, se perca aquilo que ela sabe e sabia, não desisto, mesmo assim, de tentar parar o tempo com as mãos. Será insensato, mas pode ser que se salve, deste modo, um livro ou dois da nossa biblioteca.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 12 de Julho de 2011