Não exagero, creio, se afirmar que ao sair do autocarro, esta manhã, trazia as meninges em ferida. Será só uma figura de estilo, uma força de expressão, o que vos pareça melhor, mas, em todo o caso, doía-me a cabeça de vir a tentar discernir alguma coisa de aproveitável entre as várias conversas das mulheres-a-dias que me cercaram e fizeram muitíssima questão de vir o tempo todo a contar os casos e as tricas (pelos vistos) inerentes ao labor quotidiano que elas têm. Para ser absolutamente sincero, e não tendo saído de casa munido de tampões para os ouvidos, não tive outro remédio senão ouvir o que diziam: as histórias das sandras e das cátias, das zezas e das julietas, das zangas que têm, das ordens que recebem, dos cortinados que queimam acidentalmente e não contam às patroas, dos cuidados a ter quando se dá a ferro certo e determinado apetrecho do lar, da inconveniência de uma e outra andarem sempre juntas no trabalho, das más respostas que às vezes têm que dar, enfim, ufff, nunca mais chegávamos a Cedofeita e eu não tinha como escapar, sentaram-se três à minha volta, mais uma no banco do lado, e logo atrás de mim iam mais duas que falavam ao telemóvel, o autocarro parecia um galinheiro sem galo, uma caldeirada, o mercado do peixe, eu sei lá. Uma era vesga, outra tinha um piercing no nariz e cheiravam um pouco a suor e lixívia, e ainda se sentou diante de mim a simpática senhora que limpa as escadas do meu prédio, não podia fazer a desfeita de me levantar, preciso do patamar lavado para receber eventuais visitas, nem sou insensível ao ponto de não reconhecer o carácter terapêutico do desabafo entre duas jornadas de trabalho. Procurei, por isso, ser optimista. Pus-me a pensar que, se as mulheres-a-dias puserem no limpar metade do empenho que colocam no falar, este país há-de ficar tão pulcro e brilhante que hão-de vir resmas de turistas da Europa só para verem tamanha limpeza.
Terça-feira, 26 de Julho de 2011
Crónicas do autocarro#83
Não exagero, creio, se afirmar que ao sair do autocarro, esta manhã, trazia as meninges em ferida. Será só uma figura de estilo, uma força de expressão, o que vos pareça melhor, mas, em todo o caso, doía-me a cabeça de vir a tentar discernir alguma coisa de aproveitável entre as várias conversas das mulheres-a-dias que me cercaram e fizeram muitíssima questão de vir o tempo todo a contar os casos e as tricas (pelos vistos) inerentes ao labor quotidiano que elas têm. Para ser absolutamente sincero, e não tendo saído de casa munido de tampões para os ouvidos, não tive outro remédio senão ouvir o que diziam: as histórias das sandras e das cátias, das zezas e das julietas, das zangas que têm, das ordens que recebem, dos cortinados que queimam acidentalmente e não contam às patroas, dos cuidados a ter quando se dá a ferro certo e determinado apetrecho do lar, da inconveniência de uma e outra andarem sempre juntas no trabalho, das más respostas que às vezes têm que dar, enfim, ufff, nunca mais chegávamos a Cedofeita e eu não tinha como escapar, sentaram-se três à minha volta, mais uma no banco do lado, e logo atrás de mim iam mais duas que falavam ao telemóvel, o autocarro parecia um galinheiro sem galo, uma caldeirada, o mercado do peixe, eu sei lá. Uma era vesga, outra tinha um piercing no nariz e cheiravam um pouco a suor e lixívia, e ainda se sentou diante de mim a simpática senhora que limpa as escadas do meu prédio, não podia fazer a desfeita de me levantar, preciso do patamar lavado para receber eventuais visitas, nem sou insensível ao ponto de não reconhecer o carácter terapêutico do desabafo entre duas jornadas de trabalho. Procurei, por isso, ser optimista. Pus-me a pensar que, se as mulheres-a-dias puserem no limpar metade do empenho que colocam no falar, este país há-de ficar tão pulcro e brilhante que hão-de vir resmas de turistas da Europa só para verem tamanha limpeza.