Se as regras mais elementares do bom senso mandam que não se tente fazer omeletas sem antes partir os ovos, a circulação nos transportes públicos de pessoas carregando sacas com ovos deve, outrossim, impor alguns cuidados para que os ditos ovos não se partam nem percam entre um transbordo e outro. A patusca idosa que hoje vi no autocarro parecia, porém, pouco aparelhada para as coisas práticas, de tal forma que, ao sair em Álvares Cabral, ensaiou uma manobra arriscadíssima, digna de inaugurar um novo desporto radical: pousou no chão do autocarro o saco com as caixas dos ovos, desceu para a rua e só depois se aprestava para recolher o saco do interior do autocarro. Como, porém, um saco com ovos é uma coisa pouco visível, a porta do autocarro fechou-se antes de ter transcorrido o tempo necessário a que a tarefa se completasse, trilhando o braço da velha, o qual ficou cá dentro, segurando a saca, enquanto o resto da senhora se achava já no exterior da viatura. Na aflição, a idosa berrou e a porta abriu-se imediatamente, pelo que a coisa se resolveu sem que dali resultassem maiores transtornos do que o susto propriamente dito. No passeio, a boa mulher ficou, ainda assim, a protestar muito indignada, criticando o motorista por nem dar tempo a que se saia do autocarro. Como ela já estava lá fora quando a porta se fechou, talvez devesse, em vez disso, criticar os ovos por não terem sido suficientemente ágeis. De uma próxima vez, creio mesmo que será mais conveniente que a senhora se faça já acompanhar pelos pintos que dos ovos pudessem nascer, os quais a seguiriam ordeiramente e em fila indiana, como é do bom uso das coisas da natureza.
Quinta-feira, 14 de Julho de 2011
Crónicas do autocarro#81
Se as regras mais elementares do bom senso mandam que não se tente fazer omeletas sem antes partir os ovos, a circulação nos transportes públicos de pessoas carregando sacas com ovos deve, outrossim, impor alguns cuidados para que os ditos ovos não se partam nem percam entre um transbordo e outro. A patusca idosa que hoje vi no autocarro parecia, porém, pouco aparelhada para as coisas práticas, de tal forma que, ao sair em Álvares Cabral, ensaiou uma manobra arriscadíssima, digna de inaugurar um novo desporto radical: pousou no chão do autocarro o saco com as caixas dos ovos, desceu para a rua e só depois se aprestava para recolher o saco do interior do autocarro. Como, porém, um saco com ovos é uma coisa pouco visível, a porta do autocarro fechou-se antes de ter transcorrido o tempo necessário a que a tarefa se completasse, trilhando o braço da velha, o qual ficou cá dentro, segurando a saca, enquanto o resto da senhora se achava já no exterior da viatura. Na aflição, a idosa berrou e a porta abriu-se imediatamente, pelo que a coisa se resolveu sem que dali resultassem maiores transtornos do que o susto propriamente dito. No passeio, a boa mulher ficou, ainda assim, a protestar muito indignada, criticando o motorista por nem dar tempo a que se saia do autocarro. Como ela já estava lá fora quando a porta se fechou, talvez devesse, em vez disso, criticar os ovos por não terem sido suficientemente ágeis. De uma próxima vez, creio mesmo que será mais conveniente que a senhora se faça já acompanhar pelos pintos que dos ovos pudessem nascer, os quais a seguiriam ordeiramente e em fila indiana, como é do bom uso das coisas da natureza.