Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Crónicas do autocarro#80



Quando, esta manhã, entrei no autocarro, reparei que, do outro lado da rua, ia um moço preto de rastas no cabelo a correr pelo passeio, com uma trouxinha vermelha debaixo do braço. Dali até à Avenida da Boavista, o rapaz foi sempre acompanhando o autocarro, atrasando-se quando a viatura circulava normalmente e recuperando a distância quando nos detínhamos nas paragens. Depois perdi-o de vista e fui entretido a ouvir a conversa de umas pessoas que estão tão longe da realidade que até consideram que o jackpot do euromilhões dava jeito a Portugal, “para tapar o buraco”, ignorantes de que aquele dinheiro todo já não dá nem para a cova de um dente das dívidas que para aí andam. Foi então que, ao pé do Rodrigues de Freitas, vi que o rapaz das rastas continuava a correr ao lado do autocarro. Mantinha o mesmo passo descontraído e não parecia transpirado nem nada, como se vir assim a correr desde tão longe fosse uma espécie de belo e descontraído passeio matinal. Pus-me a pensar no moço e a tentar imaginar os motivos que o teriam levado a correr com uma trouxinha vermelha debaixo do braço quando podia ter entrado no autocarro e vindo sentado como nós, olhando pela janela e pensando na vida. Ocorreu-me que o tivesse feito apenas por lhe ter apetecido, ou, mais simplesmente, por não ter sequer dinheiro para o bilhete, e que o euromilhões lhe daria muito mais jeito do que ao país, que é uma espécie de poço sem fundo onde tudo o que cai se consome em juros e outros disparates. Mas, calhando, o rapaz até está muito melhor assim: saudável e em forma.