Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Crónicas do autocarro#77



Se for verdade que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, não se deve descartar também a possibilidade de, em alguns casos particulares, o elemento feminino poder igualmente contribuir decisivamente para certas alhadas em que um indivíduo se mete. Às vezes, enquanto se transita no autocarro, chega-se mesmo à consciência de casos bastante dramáticos, nomeadamente de problemas sociais induzidos pela convivência, aparentemente saudável, de um varão com uma fêmea; questões, enfim, como o despedimento do filho de uma senhora a quem escutei esta manhã a pungente descrição dos factos que a seguir narrarei para o correcto esclarecimento da nação toda.

Dá-se, pois, o caso de o tal indivíduo, assador de profissão numa churrascaria, ter-se visto recentemente atirado para os braços viciosos do desemprego, em virtude, pelos vistos, de um conturbado assunto de saias. Na imparcial versão da mãe do sujeito, a contenda terá sido espoletada pelo facto de uma moça, colega de trabalho, "se ter feito ao rapaz". Ora ele, assegurou a senhora, “como não é paneleiro”, fez-se também a ela e a coisa, após consumada, acabou por azedar e assumir proporções inconvenientes.

O desemprego, já se sabe, é uma chaga social que cavalga à rédea solta pelo solo depauperado da pátria, mas, nem por isso, parece à minha companheira de viagem que esse seja um mal maior. O grande busílis, felizmente evitado, dar-se-ia se o moço não tivesse correspondido aos avanços da outra, arriscando-se a que ela andasse por aí a insinuar, afirmar ou declarar solenemente que o assador da churrascaria é, afinal, um paneleiro. Sendo sempre de lamentar a circunstância de duas pessoas terem perdido os respectivos empregos, ao menos, neste caso, não se manchou a reputação e a honra de uma família em condições.