Tendo superado algumas provas culinárias mais elementares, e também a da moqueca de camarão segundo a receita prescrita no romance Gabriela Cravo e Canela, eis-me, enfim, capaz de enfrentar outros sabores exóticos. Ainda mal refeito do triunfo alcançado aquando da confecção de um caril de frango "igual ao do restaurante indiano", enfrento hoje, com a galhardia possível, um mais complexo lamb madras, com o cordeiro trocado por carne de vitela. É um pouco pecaminoso, bem sei, cozinhar assim um animal sagrado, mas cada um peca como pode e a mais não é obrigado, sobretudo tendo em consideração que nem no autocarro um indivíduo pode circular livre das tentações da carne e dos apelos gastronómicos. Tudo, enfim, me remete para o tacho e o fogão. A "agente de condução" do 502 vinha, há dias, transmitindo pelo auricular a receita de um arroz doce, aconselhando particularmente o acrescento da canela no final. E esta manhã uma moça estudante vinha falando sozinha e gesticulando para decorar uma lição qualquer. Olhei e vi escrita, no topo de uma página, a frase "obtenção de baunilha em pó medianamente fino" e imediatamente me surpreendi a imaginar certas e determinadas delícias. Só quando ela saiu do autocarro, e pela direcção que tomou, percebi que deviam tratar-se de apontamentos de Farmácia e, portanto, coisa pouco calhada ao fermentar da gula. Fosse como fosse, eu já levava a boca em água.
Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Crónicas do autocarro#75
Tendo superado algumas provas culinárias mais elementares, e também a da moqueca de camarão segundo a receita prescrita no romance Gabriela Cravo e Canela, eis-me, enfim, capaz de enfrentar outros sabores exóticos. Ainda mal refeito do triunfo alcançado aquando da confecção de um caril de frango "igual ao do restaurante indiano", enfrento hoje, com a galhardia possível, um mais complexo lamb madras, com o cordeiro trocado por carne de vitela. É um pouco pecaminoso, bem sei, cozinhar assim um animal sagrado, mas cada um peca como pode e a mais não é obrigado, sobretudo tendo em consideração que nem no autocarro um indivíduo pode circular livre das tentações da carne e dos apelos gastronómicos. Tudo, enfim, me remete para o tacho e o fogão. A "agente de condução" do 502 vinha, há dias, transmitindo pelo auricular a receita de um arroz doce, aconselhando particularmente o acrescento da canela no final. E esta manhã uma moça estudante vinha falando sozinha e gesticulando para decorar uma lição qualquer. Olhei e vi escrita, no topo de uma página, a frase "obtenção de baunilha em pó medianamente fino" e imediatamente me surpreendi a imaginar certas e determinadas delícias. Só quando ela saiu do autocarro, e pela direcção que tomou, percebi que deviam tratar-se de apontamentos de Farmácia e, portanto, coisa pouco calhada ao fermentar da gula. Fosse como fosse, eu já levava a boca em água.