Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Crónicas do autocarro#74



O ideal, sei-o bem, seria estar sempre e a cada instante em todos os autocarros da cidade, observando e tomando notas como um grande deus coscuvilheiro que fosse também o omnisciente cronista dos transportes públicos. Tendo-me, porém, sido negada a graça da omnipresença (e quantas graças, com efeito, me faltam), não seguia, a mi pesar, no mesmo veículo colectivo em que, pelos vistos, se fez transportar a namorada do Nuno Casimiro. De acordo com a sintética descrição dos factos a que tive acesso, a moça, inscrita pelo seu mais-que-tudo no grupo restrito das “moças mais lindas do bairro operário”, não me viu a bordo e comunicou a minha ausência comentando algo como “andei de autocarro e não vi o Marmelo". Que desencontro tremendo! A frase dela, como facilmente compreenderão, poderia perfeitamente ser estampada em letras maiúscula em t-shirts de várias cores, muito jeitosas para o Verão, o que havia de ser um negócio interessante no caso pouco provável de eu acordar uma destas manhãs imbuído do espírito empreendedor dos grandes homens de negócios. Mas nem é a falta desta outra graça aquilo que mais me incomoda. O que é realmente gravoso para o bem-estar geral deste vosso criado é que, em vez de ter visto a namorada do Nuno no meu autocarro matinal, fui, isso sim, na companhia de um cinquentão muito fresco e bronzeado, de calções curtos e camisola caveada, com um cordão dourado ao pescoço e uma tatuagem no braço ostentando a data 4-5-1970 e uma caravela — uma caravela inteira e do tamanho da minha mão, ou talvez maior, com o velame todo desfraldado e a cruz de cristo rasgando os ausentes mares sobre os quais a industriosa pátria outrora reinou. Sentado diante do garboso e navegante macho, senti alguma saudade, confesso, da voz estridente da Clarineide.