Se há pessoas com mais sorte do que as demais, a mulher da camisa cor-de-rosa é indiscutivelmente uma dessas poucas felizardas às quais a vida corre até melhor do que a conta, pois parece que não lhes falta nada e até ficam agoniadas com a fartura que se lhes põe no prato. Tem, pelos vistos, um marido que não lembra ao diabo e que deve ser uma jóia de um homem, uma vez que, segundo pudemos ouvir todos, ele vai ao talho e faz as compras. “Põem-me tudo em casa”, vinha a tal mulher contando a duas amigas uma tarde destas, gabando-se um pouco, é verdade, mas também informando que a carne e o peixe a enojam um pouco, à carne, então, parece que lhe ganhou “coisa”, “aversão”, pelo que ela agora já quase só come sopa. Ora isto, já se sabe, há sopas e sopas, e até sobre este tão particular assunto uma viagem de autocarro pode ser rica e bestialmente instrutiva. Graças à torrente verbal da mulher da camisa-cor-de-rosa – que ia ao hospital com as amigas no dia seguinte, mas não era, de certeza, por nenhum mal da garganta -, fiquei a saber que existe algures uma pastelaria que tem uma sopa muito boa, completamente diferente de uma outra sopa que a cidadã tinha comido um dia destes, que era só espinafres e água. Uma sopa “em condições”, fiquei ainda a saber, “tem que ter os legumes todos” e não ser só aquela porcaria dos espinafres com água. “Se eu quiser água, compro uma garrafa”, disse a mulher antes de sair do autocarro. E é, com efeito, muito bem observado.
Domingo, 17 de Abril de 2011
Crónicas do autocarro#72
Se há pessoas com mais sorte do que as demais, a mulher da camisa cor-de-rosa é indiscutivelmente uma dessas poucas felizardas às quais a vida corre até melhor do que a conta, pois parece que não lhes falta nada e até ficam agoniadas com a fartura que se lhes põe no prato. Tem, pelos vistos, um marido que não lembra ao diabo e que deve ser uma jóia de um homem, uma vez que, segundo pudemos ouvir todos, ele vai ao talho e faz as compras. “Põem-me tudo em casa”, vinha a tal mulher contando a duas amigas uma tarde destas, gabando-se um pouco, é verdade, mas também informando que a carne e o peixe a enojam um pouco, à carne, então, parece que lhe ganhou “coisa”, “aversão”, pelo que ela agora já quase só come sopa. Ora isto, já se sabe, há sopas e sopas, e até sobre este tão particular assunto uma viagem de autocarro pode ser rica e bestialmente instrutiva. Graças à torrente verbal da mulher da camisa-cor-de-rosa – que ia ao hospital com as amigas no dia seguinte, mas não era, de certeza, por nenhum mal da garganta -, fiquei a saber que existe algures uma pastelaria que tem uma sopa muito boa, completamente diferente de uma outra sopa que a cidadã tinha comido um dia destes, que era só espinafres e água. Uma sopa “em condições”, fiquei ainda a saber, “tem que ter os legumes todos” e não ser só aquela porcaria dos espinafres com água. “Se eu quiser água, compro uma garrafa”, disse a mulher antes de sair do autocarro. E é, com efeito, muito bem observado.