Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Crónicas do autocarro#71



Podia evidentemente tentar arranjar uma desculpa qualquer, ou atribuir a responsabilidade do lapso a outra pessoa, conforme o ar dos tempos, mas só existe um motivo verdadeiro para o facto de aqui não ter ainda discorrido sobre a mais extraordinária utente do autocarro das nove e dez. Refiro-me, evidentemente, à minha proverbial e comprovada incompetência literária, a qual não me permite descrever correctamente a irmã mais nova da mais regular passageira do autocarro em causa. Porém, e para que fiquem, ao menos, com uma pálida ideia, direi que é uma jovem gordalhufa e muito curiosa, que usa o cabelo curto e pintado de louro claro, com uma grande farripa ondulada diante dos olhos. Tem várias tatuagens no corpo, incluindo um anjinho de bom tamanho no braço direito, e usa calças três números abaixo do que seria minimamente aconselhável, circunstância que permite aos utentes dos transportes públicos estarem sempre a par das cores e dos padrões das bragas da moça. Não se trata, porém, de uma visão agradável e já me habituei a aproveitar os momentos em que ela se levanta para passar a contemplar melancolicamente as pedras da rua, o movimento dos transeuntes ou o voo elíptico dos passarinhos.

Esta manhã, a presença da rapariga impôs-se-me mais do que é comum, uma vez que ela vinha a protestar contra uma colega das limpezas, a qual, pelos vistos, não trabalha o que deve. “Não vou andar eu a fazer o trabalho dela, que não sou preta nem nada”, foi o que declarou para os autos, tendo a irmã assentido e comentado, logo depois, que agora já nem esses, os pretos, trabalham. Tratou-se, pois, de um belo momento de convívio e reflexão sobre as complexidades do mercado de trabalho. No banco ali ao lado, ainda por cima, ia sentada a Clarineide, a qual também é um bocado preta e parece que não anda nas limpezas. Ia, a propósito, a bebericar de uma lata daquela bebida que dá asas ou lá o que é, e tenho pena, sinceramente, de não ter podido seguir no autocarro durante mais um bocadinho para ver se, depois, a brasileira mamalhuda saía ou não da viatura em pleno voo, conforme os desenhos animados.