Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Crónicas do autocarro#70



Os taxistas não andam bons e, pelos vistos, a culpa deve ser atribuída quase inteiramente à Primavera, à subida das temperaturas e ao surgimento de umas “coisinhas frescas” circulando à solta pela cidade. No autocarro, porém, a saúde mental dos utentes não parece muito melhor. Só assim se explica que haja gente estudando impressos da Harvard School of Business enquanto vai do Pinheiro Manso a Cedofeita, ou carregando códigos de Direito Civil com papelinhos amarelos a marcar as páginas. E há ainda uma mulher que esta manhã regressava ao trabalho perfeitamente consciente de que devia ter aproveitado para ficar em casa mais uns dias. De férias?, pergunta a amiga. Que não, responde a combalida utente. "De baixa". Mais concretamente de baixa passada pelo Hospital de Magalhães Lemos, que é a única instituição pública capaz de fazer arrefecer os ânimos entre criada e patroa quando aquela chegou ao ponto de ter vontade de dar com a esfregona na cabeça da empregadora. “Não tenho medo dela”, diz, no que parece encarnar o primeiro-ministro naqueles momentos em que se põe em bicos de pés para garantir que defende a pátria contra tudo, todos e tal. Talvez fosse o caso, também, de mandar o engenheiro Sócrates à consulta no Magalhães Lemos. Ou à bruxa.