Armando Silva Carvalho escreveu um par de versos em que confessa ter dentro de si um meteorologista “disfarçado de poeta húmido”. Anotei-o no caderninho esta manhã e saí para apanhar o autocarro. Às nove e dez em ponto, regular como um relógio atómico, a viatura chegou à paragem e já lá vinha a mais conversadeira das utentes, ela também armada em meteorologista ou em poeta húmida, não sei bem, uma vez que, logo que me sentei, ouvi-a dizer que “tem estado nortada, mas não leva nada, e até rimei”. Coisa extraordinária! Eu tinha pensado nas frases do Armando Silva Carvalho para ilustrar a nostalgia do bom tempo que tantas vezes me acomete, invocando a recordação de dois cavalos da GNR pastando nos relvados da Rotunda da Boavista numa manhã de sol, mas a boa da mulher do autocarro trocou-me as voltas e humilhou a minha vã pretensão à categoria de meteorologista e poeta húmido. Hei-de, ainda assim, praticar mais vezes a leitura de poesia no autocarro, quanto mais não seja porque isso me distrai da utente com olhos de psicopata que ainda ontem vinha falando de alguém que tinha raptado a Bonnie, o preto e o cigano, ou algo assim, não tenho bem certeza disto, pois ia a caminho de casa lendo poemas do Armando Silva Carvalho e pensando que isto de levar um meteorologista dentro não tem interesse absolutamente nenhum, a menos que se consiga disfarçá-lo de poeta húmido. Constato, a propósito, que ando, nestes dias de chuva, frequentemente húmido, mas que nem por isso trago em mim poesia alguma.
Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Crónicas do autocarro#69
Armando Silva Carvalho escreveu um par de versos em que confessa ter dentro de si um meteorologista “disfarçado de poeta húmido”. Anotei-o no caderninho esta manhã e saí para apanhar o autocarro. Às nove e dez em ponto, regular como um relógio atómico, a viatura chegou à paragem e já lá vinha a mais conversadeira das utentes, ela também armada em meteorologista ou em poeta húmida, não sei bem, uma vez que, logo que me sentei, ouvi-a dizer que “tem estado nortada, mas não leva nada, e até rimei”. Coisa extraordinária! Eu tinha pensado nas frases do Armando Silva Carvalho para ilustrar a nostalgia do bom tempo que tantas vezes me acomete, invocando a recordação de dois cavalos da GNR pastando nos relvados da Rotunda da Boavista numa manhã de sol, mas a boa da mulher do autocarro trocou-me as voltas e humilhou a minha vã pretensão à categoria de meteorologista e poeta húmido. Hei-de, ainda assim, praticar mais vezes a leitura de poesia no autocarro, quanto mais não seja porque isso me distrai da utente com olhos de psicopata que ainda ontem vinha falando de alguém que tinha raptado a Bonnie, o preto e o cigano, ou algo assim, não tenho bem certeza disto, pois ia a caminho de casa lendo poemas do Armando Silva Carvalho e pensando que isto de levar um meteorologista dentro não tem interesse absolutamente nenhum, a menos que se consiga disfarçá-lo de poeta húmido. Constato, a propósito, que ando, nestes dias de chuva, frequentemente húmido, mas que nem por isso trago em mim poesia alguma.