Creio que, por causa de Dublinesca, o romance de Vila-Matas, serei forçado a ler também, imediatamente a seguir, o Ulisses de Joyce, que adquiri há vários anos numa livraria que já nem sequer existe e que não me atrevi a ler senão por pândega, em voz alta, para aparentar ser uma pessoa interessante. Pretendo, com efeito, ler o Ulisses durante os meus trajectos nos transportes públicos. Depois, quem sabe?, posso escrever também um longo romance em torno de um dia na vida de um indivíduo do Porto ou, em alternativa, não fazer absolutamente nada, o que, nos dias que correm, pode perfeitamente constituir uma espécie de manifesto de um indivíduo muito à rasca.
Vem isto mais ou menos a propósito das duas jovens que vinham hoje sentadas com as patas no banco da frente, as duas alapadas como chantronas porcas e gordas e com os pés ostensivamente instalados sobre o tecido que cobre os bancos que estavam defronte delas. Foram nestes preparos a viagem toda, as grandes badalhocas, até que, por fim, uma outra moça fez menção de se sentar nos bancos onde estavam os imundos pés das porcas. As outras duas retiraram os penates e a estrangeira lá se sentou, sacando do mapa para tentar orientar-se, creio que para ter a certeza de que estava realmente no Porto e não havia sido teletransportada para uma qualquer realidade paralela habitada por anormais que põem as patas em cima de cadeiras e bancos. Talvez esta turista seja uma irlandesa de Dublin e, um dia, escreva um romance sobre o dia de um homem do Porto, um homem chamado Blum, ou simplesmente conte aos amigos que esta é uma cidade de gente muito imunda, de indivíduos que viajam de autocarro com os vitorinos sujos em cima dos bancos. Será, em todo o caso, um pouco desagradável.