Parecendo que não, o autocarro acolhe também algumas fulgurações de cosmopolitismo. Ontem, por exemplo, tendo entrado num veículo a uma hora improvável (aquela em que normalmente me têm fechado entre quatro paredes), senti necessidade de confirmar que não tinha sido abduzido e teletransportado para uma qualquer realidade paralela e muito exótica (o generoso decote de uma utente que ia de costas para o motorista foi, porém, capaz de me trazer de volta à realidade sem que tivesse tido necessidade de me beliscar). Logo na parte da frente do veículo havia um homem magro e muito moreno, dotado de umas longas barbas que só não eram brancas porque possuíam aquela coloração vintage normalmente produzida pela combinação da fuligem com o sebo. Tinha, o homem, um olhar febril e, se não fosse por estarmos na Avenida da Boavista, e na companhia do tal decote, poder-se-ia imaginar que íamos a caminho de Benares para um banho purificador entre os cagalhões e os outros miasmas do Ganges. Quando, porém, quis espraiar a vista até ao fundo do autocarro, dei de caras com um cromo não menos espectacular, um camone com um turbante na mona, que devia ser de uma tribo completamente diferente, sikh ou lá o que é que eles são; um indivíduo, enfim, tão pouco comum que depois até quis sair do autocarro pela porta da frente. Acabámos, todavia, por sair os dois ordeiramente pela porta de trás, como em qualquer país civilizado. Para alguma coisa havia de servir o dinheiro que a empresa gasta em autocarros fabricados no Norte da Europa.
Quinta-feira, 10 de Março de 2011
Crónicas do autocarro#66
Parecendo que não, o autocarro acolhe também algumas fulgurações de cosmopolitismo. Ontem, por exemplo, tendo entrado num veículo a uma hora improvável (aquela em que normalmente me têm fechado entre quatro paredes), senti necessidade de confirmar que não tinha sido abduzido e teletransportado para uma qualquer realidade paralela e muito exótica (o generoso decote de uma utente que ia de costas para o motorista foi, porém, capaz de me trazer de volta à realidade sem que tivesse tido necessidade de me beliscar). Logo na parte da frente do veículo havia um homem magro e muito moreno, dotado de umas longas barbas que só não eram brancas porque possuíam aquela coloração vintage normalmente produzida pela combinação da fuligem com o sebo. Tinha, o homem, um olhar febril e, se não fosse por estarmos na Avenida da Boavista, e na companhia do tal decote, poder-se-ia imaginar que íamos a caminho de Benares para um banho purificador entre os cagalhões e os outros miasmas do Ganges. Quando, porém, quis espraiar a vista até ao fundo do autocarro, dei de caras com um cromo não menos espectacular, um camone com um turbante na mona, que devia ser de uma tribo completamente diferente, sikh ou lá o que é que eles são; um indivíduo, enfim, tão pouco comum que depois até quis sair do autocarro pela porta da frente. Acabámos, todavia, por sair os dois ordeiramente pela porta de trás, como em qualquer país civilizado. Para alguma coisa havia de servir o dinheiro que a empresa gasta em autocarros fabricados no Norte da Europa.