Se o povo se faz transportar de autocarro, é no autocarro que mais vivamente se conhece aquilo que o povo tem de melhor e de pior, nisto incluindo, evidentemente, os seus achaques e maleitas. Ouvi hoje, por exemplo, uma mulher queixando-se de ter sempre os pés gelados, mesmo-em-casa-com-meias-e-assim, que não há, pelos vistos, nada que lhe aqueça os presuntos, nem sequer o ar condicionado do escritório ou a lenta fulguração da Primavera. Há-de ser um caso de má circulação, portanto. Já um cavalheiro de boina acabou por revelar padecimentos bem diversos, a par de uma primorosa fluência na língua portuguesa. Um rapaz pediu-lhe licença para sair, mas o homem não se moveu e continuou agarrado ao varão, com os olhos fechados. O mais jovem conseguiu, ainda assim, abrir caminho para a porta, comentando, ao passar, que o idoso podia continuar a dormir à vontade. Fê-lo sem maldade nenhuma e sorrindo, mas o gracejo despertou o cavalheiro, que, amuado, foi durante um bocado a explicar aos demais utentes que ouve muito mal, uma desgraça, sobretudo do lado esquerdo, mas que, muito francamente, não se devia ficar com o ideia de que ele era grosseiro ao ponto de se obstinar a impedir a passagem de alguém. Nem tudo está perdido, creio, para um povo que ainda utiliza nos transportes públicos uma expressão como "obstinar" — aquilo a que, noutros tempos, antes da carestia do euro, se chamava uma palavra de sete e quinhentos.
Segunda-feira, 7 de Março de 2011
Crónicas do autocarro#65
Se o povo se faz transportar de autocarro, é no autocarro que mais vivamente se conhece aquilo que o povo tem de melhor e de pior, nisto incluindo, evidentemente, os seus achaques e maleitas. Ouvi hoje, por exemplo, uma mulher queixando-se de ter sempre os pés gelados, mesmo-em-casa-com-meias-e-assim, que não há, pelos vistos, nada que lhe aqueça os presuntos, nem sequer o ar condicionado do escritório ou a lenta fulguração da Primavera. Há-de ser um caso de má circulação, portanto. Já um cavalheiro de boina acabou por revelar padecimentos bem diversos, a par de uma primorosa fluência na língua portuguesa. Um rapaz pediu-lhe licença para sair, mas o homem não se moveu e continuou agarrado ao varão, com os olhos fechados. O mais jovem conseguiu, ainda assim, abrir caminho para a porta, comentando, ao passar, que o idoso podia continuar a dormir à vontade. Fê-lo sem maldade nenhuma e sorrindo, mas o gracejo despertou o cavalheiro, que, amuado, foi durante um bocado a explicar aos demais utentes que ouve muito mal, uma desgraça, sobretudo do lado esquerdo, mas que, muito francamente, não se devia ficar com o ideia de que ele era grosseiro ao ponto de se obstinar a impedir a passagem de alguém. Nem tudo está perdido, creio, para um povo que ainda utiliza nos transportes públicos uma expressão como "obstinar" — aquilo a que, noutros tempos, antes da carestia do euro, se chamava uma palavra de sete e quinhentos.