Terça-feira, 1 de Março de 2011

Crónicas do autocarro#63



O autocarro veio hoje um pouco atrasado, não sei se por efeito da greve de zelo anunciada pelos sindicatos ou se devido ao tempo que foi necessário para enfiar duas turmas inteiras de adolescentes lá dentro. Sei, isso sim, que a viatura vinha à pinha como eu nunca a tinha visto antes, a fazer lembrar o velho 52 no tempo em que ainda não nos tínhamos todos endividado para comprar um sorvedouro de gasolina; sobrelotado, enfim, àquele ponto em que o ruído produzido se transforma num burburinho compacto como um muro, no qual não se consegue distinguir palavra nenhuma. Os adolescentes, provavelmente em missão de estudo ao centro da cidade, iam, pois, excitados até mais não, proferindo as inanidades próprias da idade, tão inocentes e despreocupadas que dá vontade de tirar o garfo que os adultos todos levam enfiado no cu e desatar também a dizer lol’s e cenas assim. No centro do autocarro, amontoadas no espaço reservado aos deficientes (tecla 3), iam várias moças voltadas para fora, apontando os outros veículos e dizendo adeus a quem passava. Que eu visse, ninguém acenou de volta nem lhes sorriu. Pareceu-me mal. Creio que, no lugar dos circunspectos automobilistas, teria correspondido ao aceno. Tive vontade de também lhes dizer adeus, de sorrir e de fazer caretas daquelas em que se cola o polegar ao nariz e se agitam os outros dedos diante dos olhos. Elas, porém, não quiseram nada comigo.